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Ano V - abril  2003 - nº 56

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 56
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

setaquad.gif (95 bytes)Vida nas floresta, vida nas cidades por Louis e Elizabeth Cary Agassiz.

setaquad.gif (95 bytes)As mulheres de Santa Catarina, por Auguste de Saint-Hilaire.

setaquad.gif (95 bytes)Palafitas na Amazônia, por Francisco Barbosa Leite.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


VIDA NAS FLORESTAS, VIDA NAS CIDADES
19 de outubro de 1865

Louis e Elizabeth Cary Agassiz


Vida nas florestas

Ontem, depois do almoço, recolhi-me ao quarto em que passei a noite, esperando poder escrever algumas cartas e completar o meu diário. O quarto já estava ocupado pela velha senhora e suas visitas que, deitadas nas redes ou no chão, fumavam seus cachimbos. A casa está realmente cheia a não mais poder, pois todos os que vieram para o baile aqui ficarão enquanto durar a visita do presidente.

Com esse modo de viver não é difícil alojar grande número de pessoas. Os que não encontram lugar dentro de casa, vão pendurar fora suas redes, embaixo das árvores. Ao entrar outro dia em casa, não pude deixar de me deter alguns minutos para contemplar um grupo encantador formado por uma jovem mães e seus dois filhinhos adormecidos em seus braços, todos os três na mesma rede, ao ar livre. Minhas amigas índias tomavam grande interesse nas minhas ocupações, interesse que era mesmo demais para não me interromperem; ficavam extasiadas diante de meus livros. Trazia comigo, por acaso, o Naturalista no Amazonas, mostrei-lhes algumas vistas de lugares conhecidos delas e alguns desenhos de insetos; encheram-me de perguntas sobre a minha pátria, a minha viagem, as minhas excursões aqui; em troca, contaram-me muitas coisas sobre o seu modo de vida. Disseram-me que essa reunião de vizinhos e amigos não era um acontecimento raro, pois celebram-se muitas festas religiosas, cuja natureza não impede que dêem ocasião para diversões.

Essas festas se realizam em cada sítio por sua vez. Trazem o santo que se festeja, com todos os seus ornamentos, círios, flores, para a casa em que se vai realizar a cerimônia, e toda a população do lugarejo aí se reúne; às vezes a reunião dura vários dias; há procissão, música, danças à noite. Porém elas dizem que a vida aqui tornou-se agora muito triste: os homens foram recrutados para a guerra, ou então fugiram para o mato para não seguirem; agarravam-nos, asseguravam elas, em qualquer lugar emque fossem encontrados, sem consideração quer pela idade, quer pelas circunstâncias. E que poderiam fazer sem eles as mulheres e as crianças? Se os infelizes resistiam, levavam-nos à força, muitas vezes com algemas e pesados ferros nos pés. Esse modo de agir é absolutamente ilegal, mas essas localidades perdidas nas florestas estão de tal modo afastadas, que os recrutadores podem praticar todas as crueldades, sem receio de terem de prestar contas; desde que os recrutas cheguem em boas condições, nenhuma pergunta se lhes faz. As índias acrescentaram que todos os trabalhos do sítio — fabricação de farinha, pesca, caça à tartaruga — estavam parados por falta de braços. As aparências confirmam essas declarações, pois vimos muito poucos homens nas povoações e, quase sempre, as canoas que encontramos eram remadas por mulheres.


Vida nas cidades

Apesar de tudo, a vida dessas índias me parece invejável quando a comparo com as mulheres brasileiras nas pequenas cidades e vilas do Amazonas. A índia pode ter o exercício salutar e o movimento ao ar livre; conduz a sua piroga no lago ou no rio, ou percorre as trilhas das florestas; vai e vem livremente; tem as suas ocupações de cada dia; cuida da casa e dos filhos, prepara a farinha e a tapioca, seca e enrola o fumo, enquanto os homens vão pescar ou caçar; têm finalmente seus dias de festa para alegrar sua vida de trabalho. Pelo contrário, é impossível imaginar coisa mais triste e mais monótona do que a existência da senhora brasileira das pequenas cidades. Nas províncias do Norte, principalmente, as velhas tradições portuguesas sobre o enclausuramento das mulheres ainda prevalecem. Seus dias decorrem tão descoloridos como os das freiras dum convento e sem o elemento entusiasta e religioso que sustenta estas últimas. Muitas senhoras brasileiras passam meses e meses sem sair de suas quatro paredes, sem se mostrar, senão raramente, à porta ou à janela; pois, a menos que esperem alguém, estão sempre tão pouco vestidas que vão além da negligência. É triste verem-se essas existências fanadas, sem contato algum com o mundo exterior, sem nenhum dos encantos da vida doméstica, sem livros, sem cultura de qualquer espécie. A mulher, nessa porção do Império, se embota no torpor duma existência inteiramente vazia e sem objetivo, ou se se revolta contra as suas cadeias, a sua infelicidade então só é comparável à nulidade de sua vida.



(Agassiz, Louis. Viagem ao Brasil: 1865-1866. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1975)

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