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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
VIDA NAS FLORESTAS, VIDA NAS CIDADES
19 de outubro de 1865 |
| Louis e Elizabeth Cary Agassiz |
Vida nas florestasOntem, depois do almoço, recolhi-me ao quarto em que passei a
noite, esperando poder escrever algumas cartas e completar o meu diário. O quarto já
estava ocupado pela velha senhora e suas visitas que, deitadas nas redes ou no chão,
fumavam seus cachimbos. A casa está realmente cheia a não mais poder, pois todos os que
vieram para o baile aqui ficarão enquanto durar a visita do presidente.
Com esse modo de viver não é difícil alojar grande número de pessoas. Os que não
encontram lugar dentro de casa, vão pendurar fora suas redes, embaixo das árvores. Ao
entrar outro dia em casa, não pude deixar de me deter alguns minutos para contemplar um
grupo encantador formado por uma jovem mães e seus dois filhinhos adormecidos em seus
braços, todos os três na mesma rede, ao ar livre. Minhas amigas índias tomavam grande
interesse nas minhas ocupações, interesse que era mesmo demais para não me
interromperem; ficavam extasiadas diante de meus livros. Trazia comigo, por acaso, o Naturalista
no Amazonas, mostrei-lhes algumas vistas de lugares conhecidos delas e alguns desenhos
de insetos; encheram-me de perguntas sobre a minha pátria, a minha viagem, as minhas
excursões aqui; em troca, contaram-me muitas coisas sobre o seu modo de vida. Disseram-me
que essa reunião de vizinhos e amigos não era um acontecimento raro, pois celebram-se
muitas festas religiosas, cuja natureza não impede que dêem ocasião para diversões.
Essas festas se realizam em cada sítio por sua vez. Trazem o santo que se festeja, com
todos os seus ornamentos, círios, flores, para a casa em que se vai realizar a
cerimônia, e toda a população do lugarejo aí se reúne; às vezes a reunião dura
vários dias; há procissão, música, danças à noite. Porém elas dizem que a vida aqui
tornou-se agora muito triste: os homens foram recrutados para a guerra, ou então fugiram
para o mato para não seguirem; agarravam-nos, asseguravam elas, em qualquer lugar emque
fossem encontrados, sem consideração quer pela idade, quer pelas circunstâncias. E que
poderiam fazer sem eles as mulheres e as crianças? Se os infelizes resistiam, levavam-nos
à força, muitas vezes com algemas e pesados ferros nos pés. Esse modo de agir é
absolutamente ilegal, mas essas localidades perdidas nas florestas estão de tal modo
afastadas, que os recrutadores podem praticar todas as crueldades, sem receio de terem de
prestar contas; desde que os recrutas cheguem em boas condições, nenhuma pergunta se
lhes faz. As índias acrescentaram que todos os trabalhos do sítio fabricação de
farinha, pesca, caça à tartaruga estavam parados por falta de braços. As
aparências confirmam essas declarações, pois vimos muito poucos homens nas povoações
e, quase sempre, as canoas que encontramos eram remadas por mulheres.
Vida nas cidades
Apesar de tudo, a vida dessas índias me parece invejável quando a comparo com as
mulheres brasileiras nas pequenas cidades e vilas do Amazonas. A índia pode ter o
exercício salutar e o movimento ao ar livre; conduz a sua piroga no lago ou no rio, ou
percorre as trilhas das florestas; vai e vem livremente; tem as suas ocupações de cada
dia; cuida da casa e dos filhos, prepara a farinha e a tapioca, seca e enrola o fumo,
enquanto os homens vão pescar ou caçar; têm finalmente seus dias de festa para alegrar
sua vida de trabalho. Pelo contrário, é impossível imaginar coisa mais triste e mais
monótona do que a existência da senhora brasileira das pequenas cidades. Nas províncias
do Norte, principalmente, as velhas tradições portuguesas sobre o enclausuramento das
mulheres ainda prevalecem. Seus dias decorrem tão descoloridos como os das freiras dum
convento e sem o elemento entusiasta e religioso que sustenta estas últimas. Muitas
senhoras brasileiras passam meses e meses sem sair de suas quatro paredes, sem se mostrar,
senão raramente, à porta ou à janela; pois, a menos que esperem alguém, estão sempre
tão pouco vestidas que vão além da negligência. É triste verem-se essas existências
fanadas, sem contato algum com o mundo exterior, sem nenhum dos encantos da vida
doméstica, sem livros, sem cultura de qualquer espécie. A mulher, nessa porção do
Império, se embota no torpor duma existência inteiramente vazia e sem objetivo, ou se se
revolta contra as suas cadeias, a sua infelicidade então só é comparável à nulidade
de sua vida.
(Agassiz, Louis. Viagem ao Brasil: 1865-1866.
Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1975) |
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