
Batateiros, por Manuel Rodrigues de
Melo.
O uso da borracha na fabricação de calçados no Pará em meados do século XIX,
descritos pelo viajante americano Daniel Parish Kidder.
O misto,
forma de transporte no Nordeste brasileiro, por Bernardo Issler.
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- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
"Cada terra tem seu uso, cada roda tem seu fuso", diz o adágio. A Várzea do
Açu, como todas as regiões do Nordeste brasileiro, têm as suas peculiaridades
lingüísticas, os seus modismos, as suas histórias de Trancoso, os seus contos
populares, as suas anedotas, as suas alcunhas, os seus ditos, as suas lendas, as suas
modas, as suas maneiras de vida, os seus dramas, os seus processos de trabalho, a sua
estética, o seu estilo, um mundão de coisas, impossível de registrar de um só fôlego.
Ocorreu-me a lembrança a alcunha porque são chamados na Várzea os filhos da terra: batateiros.
Batateiros, segundo a gíria local, quer dizer comedores de batata.
Creio porém, haver um motivo mais forte do que o de simples comedores de batatas
responsável pela expressão. Creio, porque comer batata não é privilégio de ninguém,
o fazem mais ou menos na mesma medida.
O fato deve-se ligar, sem dúvida, ao motivo de serem os varzeanos os maiores plantadores
de batata da região, não só pela propriedade da terra, como pelo hábito que se tornou
costume e hoje é uma tradição entre eles.
Todos ou quase todos são plantadores de batata. Quem não tem vazante na areia do rio,
isto é, no leito, planta-a na barreira dos córregos, nas baixas, nos terrenos úmidos.
Coquinho, rainha, jatobá, balão e tantas outras, frondejam, crescem, copam, florescem e
dão o pomo apetecido, testemunhando, assim, que a batata é um dos principais alimentos
do varzeano. Principal, digo mal, mas entra invariavelmente em todas as refeições. Para
as populações pobres, especialmente, representa, nos anos maus, uma das principais
alimentações. À falta de carne, peixe, açúcar e rapadura, a batata é comida, cozida
e assada, pela manhã, no café, no almoço, na janta e na ceia, quaquer que seja a
denominação que se lhe queira dar.
Onde, porém, mais se planta batata, é no leito do rio Açu.
Depois da cheia, alagação ou enchente, o rio aparta.
Apartar significa que o rio se desligou do mar, não "corre" mais, tendo apenas
ali, acolá e além, poços cheios dágua, uns na boca dos becos, outros em frente
aos cercados, advindo daí as centenas de nomes que tomam, depois da passagem das cheias,
acompanhados impreterivelmente dos nomes dos proprietários das terras onde estão
localizados. Exemplo: poço de Luiz Gonzaga, poço de Pedro Carlos, poço de Pedro Roque,
poço de Sebastião Belo, multiplicando-se às centenas e aos milhares.
Comumente a batata é plantada de julho em diante, à medida que o rio vai secando,
descobrindo as terras. Noventa dias depois da plantação já se está arrancando o pomo
saboroso. A plantação é feita em leitões de areia molhada e adubada com esterco dos
currais... A água merejando a qualquer compressão do pé, à medida que a enxada sangra
a terra.
Preparado os leirões (montículos de areia), o varzeano que traz a rama devidamente
cortada, planta-a . Nos primeiros dias, depois de plantada, murcha, caem as folhas,
enquanto vão surgindo novos olhos, garantindo a plantação. Se a rama pega, está segura
a plantação. Se não pega, o que raramente acontece, será preciso plantar nova rama.
Essa questão de rama oferece certas vezes assuntos bem curiosos à conversação do
varzeano. O verdadeiro batateiro de profissão é aquele que guarda a semente do seu
produto, plantando-a e replantando-a na barreira da sua vazante até que chegue o tempo da
plantação, no leito do rio.
Há porém, muito descaso nesse sentido, entre a maioria dos batateiros. Muitos
negligenciam o assunto, descuidam-se dele, de maneira que quando se aproxima o tempo da
plantação de batata, estão em dificuldade para arranjar a rama.
Por essa imprevidência pagam eles, muitas vezes, bastante caro, comprando um feixe de
rama, de duas, três, cinco e dez léguas, por preço superior ao seu valor real.
Mesmo assim, não desanima nem se vexa. Monta a cavalo, galopa até o local da semente
ambicionada, compra-a ou pede-a, joga-a na lua-da-sela, se é pouca, ou nas costas dos
animais, se é muita, regressando alegre e satisfeito à sua casa.
Ali chegando, bota-a no lugar mais fresco da casa, no pé do pote, da jarra, até o dia
seguinte.
Neste, inicia a plantação da vazante. Batata, feijão, capim-de-pranta, jerimum,
melancia, melão, nunca esquecendo, porém, os temperos plantados em canteiros ou
palanques, como sejam cebola, coentro, tomate, vinagreira, quiabo e tantos outros curiosos
e interessantes.
E assim vive o batateiro, trabalhando, amando, sofrendo, querendo bem à mulher e aos
filhos, dançando em bailes, derrubando nas vaquejadas, freqüentando fobós, jogando nas
rifas, sambando, dando e levando facadas e tiros, indo a todas as festas, andando nas
feiras, tomando banho no rio, bebendo cachaça, chupando cajá, derrubando palha, fazendo
cera, emigrando com a cheia para cima dos tabuleiros, nadando a braço solto ou a
cavalete, desilhando gado, socorrendo gente, trabalhando nos roçados, nas vazantes, nas
salinas, no carnaubal, nas pescarias, sofrendo, na seca, com fome, cheio de filhos,
vivendo com a barriga cheia, nas safras, mas sempre mantendo em qualquer hipótese aquele
bom humor que lhe é inato: alegre, rindo, cantando, pilheriando, contando anedotas,
dizendo graças, mangando do destino e da vida.
Este é o batateiro típico, natural e bom que sempre conheci na Várzea do Açu.
(Melo, Manuel Rodrigues de. Várzea do Açu: paisagens,
tipos e costumes do Vale do Açu. São Paulo, IBRASA / INL, 1979, p.156-158) |
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