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Ano V - abril  2003 - nº 56

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 56
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)Festa campestre na casa dos educandos, em 20 de novembro de 1865, por Luís e Elizabeth Cary Agassiz.

setaquad.gif (95 bytes)O primeiro de abril, por Maria Stella de Novaes.

setaquad.gif (95 bytes)A festa das esmolas, por Karl von den Steinen.

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


FESTA DAS ESMOLAS

Karl Von Den Steinen


Na casa de um colega esculápio, nascido em Cuiabá, passamos horas bem divertidas. A esposa, nascida no Rio de Janeiro, tocava muito bem piano. O filhinho do casal chamava-se Tartini. Dona Eugênia estudava diariamente durante quatro horas e possuía uma habilidade espantosa. "Os senhores precisam ver isso", dizia-nos o marido, encostando todas as cadeiras perto do instrumento. Dizia "ver" e tocava piano no ar, da maneira mais rápida possível, para nos dar uma idéia.

Certo dia encontramos num quarto da casa desse colega um enorme altar, sobre o qual se achavam um cetro e uma coroa. É que ele fora eleito "imperador" para a "festa das esmolas".

Enfrentamos a "festa das esmolas", que constituía o "prelúdio" para Pentecostes, celebrada logo após a Páscoa. Elege-se, por sorte, um senhor, que fica com a obrigação de realizar os festejos em sua própria casa. A hospitalidade é ilimitada, porém, em troca, todos têm que contribuir com "esmolas". O senhor escolhido toma o nome de "imperador" e, acompanhado de uma grande comitiva, segue de porta em porta, para colher contribuições. Além disso são remetidas para a "casa da festa" donativos de toda espécie e que, mais tarde, aumentam ainda. Mesmo os mais pobres contribuem com alguma coisa. Antigamente, quando ainda não havia encanamentos de água na cidade, a boa gente que nada tinha a oferecer, levava, pelo menos um cântaro d’água para as "esmolas", água essa que iam buscar longe, no rio. No quintal do imperador pululavam os leitões, as cabras, as galinhas, inúmeros papagaios pareciam raciocinar no meio de tudo isso, alguns macacos, atados a correntes, davam pulos e, no jardim, nos mostravam um grande avestruz – tudo presentes. Na varanda amontoaram-se fartas quantidades de bolos e flores. Três altas pirâmides de massa de macarrão erguiam-se, enfeitadas com bandeirinhas sobre uma verdadeira mesa de natal repleta de guloseimas. Duas senhoras burguesas entravam nesse momento. Uma delas fez presente de uma fita, a outra de um par de brincos. Todos que chegavam eram servidos. Reinava extraordinária atividade.

Inteiramente comovidos fomos para casa no desejo de também fazer alguma caridade, oferecendo qualquer coisa em benefício dos pobres. Decidimos, então, que Wilhelm devia desenhar qualquer coisa. Mas, que havia de ser? Nada de temas profanos, estávamos dominados por um sentimento religioso. Assim, Wilhelm pintou um anjo, de estrela na testa, voando sobre Cuiabá de madrugada. O anjo segurava um livro nas mãos em que se lia: "Quem dá esmolas aos pobres, empresta a Deus". A muito custo achamos esse provérbio num livrinho de escola, pois em parte alguma encontramos uma Bíblia. Informaram-nos que o bispo não a tolerava. A imagem foi conosco à festa.

Quando já estávamos à mesa, fomos obrigados a ouvir os motejos do General. E ficamos sabendo através disso que o empreendedor da festa guarda as "esmolas", ou a quantia obtida em leilão para cobrir parte das despesas, que sobem, às vezes, a 2 e 3 contos de réis (4 a 6.000 marcos), mas nunca menos de um conto. "Quem dá esmolas ao festeiro, empresta ao diabo", rosnava o general, rindo com desprezo.

Na noite designada para isso, fomos ao "leilão". Subindo a escada, viam-se um quarto à esquerda e outro à direita e, atrás de ambos, a varanda. À direita, via-se o altar iluminado, e à esquerda eram recebidas as visitas. Na varanda, as senhoras formavam bela grinalda. Toda a casa estava repleta, uma cadeira junto da outra, de tal modo que só havia uma passagem para o quintal, lugar em que se realizava o leilão.

A função durou de 8:15 às 10:45. Durante todo esse tempo as senhoras permaneceram imóveis. Nos nossos bazares de caridade, as senhoras têm um papel, certamente, mais agradável. Os alegres compradores faziam suas combinações no quintal. No canto estava uma mesa com cervejas, onde os homens bebiam e se animavam. O major Eduardo e o pequeno diretor dos correios traziam os presentes doados, um por um, para serem vendidos. É de costume que o objeto adquirido no leilão seja logo oferecido a uma das damas presentes. Murmura-se o nome da mesma ao ouvido do pregoeiro e este entrega o presente à senhora, na varanda, depois do que é trazido outro objeto para cotação. O pagamento é feito dias depois e é cobrado à domicílio. Vendiam-se raminhos de flores, trabalhos feitos à mão, colchas, almofadas, fitas, marcadores de página de livro, bolos, pastéis, coroas de flores, etc... Desta vez a caixa, segundo os conhecedores, estava frouxa, pois o que se apurara em tudo não atingira senão algumas centenas de mil réis.

Parecia que cada um resolvera gastar certa quantia, tanto se lhe dava que fosse por uma colcha muito cara ou duas flores que se prestam para oferecer a uma senhora, pagando-se pelas mesmas os mais elevados preços. Dois cravos obtinham 40 marcos e o ramalhete 16 a 24 marcos. Como os preços são apregoados, as senhoras, embora prestem pouca atenção, ficam inteiramente ao par da quantia que os seus admiradores sacrificam por elas. No começo não sabíamos nada disso, de modo que Clauss, após arrematar uma gravata de senhora por 2 marcos, meteu-a muito satisfeito, no bolso, sem ter noção de que de via oferecê-la. Logo depois, porém, compreendemos que não era esse o costume. Então, começamos uma forte corrida de apostas por objetos que íamos oferecer aos filhos de Flora. O nosso desenho com o anjo obteve um preço médio. Quando descobriram que a cidade sobre que voava o anjo era Cuiabá, todos vieram chegando, para ver se reconheciam a própria casa no desenho. Por fim, entraram em leilão alguns animais. Um macaco que trepava alegremente por entre as damas, as paredes e as cortinas, obteve a cotação de 20 marcos. Os papagaios, preços abaixo deste. Um deles parecia ralar-se de riso ao entrar no salão. O avestruz deu 12 marcos. Os porcos não compareceram. Menciona-se também uma vigorosa cana de açúcar de 7 metros de comprimento, amparada por duas pessoas, um verdadeiro arco de triunfo, destinada à venda.

Após o leilão, as senhoras, já fatigadas, ainda têm que dançar. Embora dar seja mais piedoso que tomar, o número delas eras superior ao dos cavaleiros.



(Steinen, Karl Von Den. O Brasil Central p. 86-89)

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