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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
Dia da mentira
Dia do peixe
Dia no decorrer do qual, sejam falhos ou intangíveis na sinceridade, todos têm licença
de uma folga, para uma brincadeira de mentira jocosa.
Quem neste mundo, não experimentou ainda o gostinho de passar um 1º de abril nos
outros; e, pelo contrário, não provou a decepção de receber um peixe de abril?
Entretanto, muita gente ignora a relação que existe, a cadeia tecida pela associação
de idéias, enriquecida pela imaginação e mediante a qual o espírito humano alça-se
aos paramos da mitologia e da cosmografia, inventa, compõe o mundo de lendas, fábulas,
adágios, etc. e o relaciona, muitas vezes, com alguns fatos históricos.
De certo, não pretendemos, agora, decifrar o quebra-cabeças das relações milenares
firmadas entre a mitologia, a cosmografia, a etnografia e a história. Outrossim, nenhuma
novidade teremos a divulgar, tratando, aqui, de 1º de abril. Disso nos lembramos apenas,
em atenção a pessoas amigas desejosas de nossa perseverança nas pesquisas do folclore.
Resolvemos, então, estudar o ciclo dos meses e, como, de acordo com as raízes na
mitologia e no calendário, abril é o primeiro, dar-llhe-emos a preferência, neste
pequeno trabalho.
* * *
Consagrado a Vênus, primitivamente, deusa das flores, da primavera e dos encantos da
natureza, era representado, entre os romanos, pela figura de um jovem que dançava, ao som
de um instrumento. Ocupava o número dois, no calendário de Rômulo, e compunha-se de
trinta dias, número que foi reduzido a vinte e nove, por Numa Pompilio; reestabelecido,
porém, na reforma realizada por Júlio César, auxiliado pelo astrônomo Sosígeno,
quarenta e cinco anos antes de Cristo.
Ao contrário dos romanos, os gregos punha o mês de abril sob a proteção de Apolo,
filho de Júpiter e Letona, uma titânide, e irmã gêmea de Diana (Artêmis). Apolo era o
deus da poesia, das artes, dos rebanhos, do dia e do sol. Neste último caso, tomava o
nome de Febo. Mas, no sentido de deus do sol, não deve ser confundido com Hélio, irmão
de Selene e de Eos.
* * *
Outrora, conforme dissemos, atrás, o ano começava em abril, mês em que esplende a
primavera, no hemisfério setentrional. Disso, resultaram certas expressões populares
usadas na Europa e em alguns países americanos:
- Estar no abril da vida (na mocidade)
- O abril da existência (idem)
- São flores de abril (virtudes, realizações da mocidade)
Correspondem aos que dizem os meridionais: Na primavera, virtudes primaveris, etc.
Numa inspiração feliz, Guerra Junqueiro sintetizou, na poesia, aos atributos do mês de
abril:
Namorou-se uma princesa
Cum pajem loiro e gentil
Chama-se ela Natureza
Chama-se o pajem Abril
A primavera opulenta
Rica de encantos e cores
Palpita, anseia, rebenta
Em cataclismos de flores
Muitos são os provérbios sobre o mês de abril. Exemplo: Quem perde o seu abril, chora
em outubro (Quem não trabalha em abril, não colhe no outono). Corresponde a
"setembro sem trabalho, outono falho", para o hemisfério meridional. Abril,
chuva para os homens; maio, para os bichos.
Em nossa pátria, são as tardes de abril as que apresentam a maior suavidade, na beleza
do crepúsculo.
* * *
Em alguns países, a 1º de abril, os pescadores iniciam o trabalho, no mar. Assim
dizendo, não incorremos num pleonasmo, porque, antes, entregam-se ao preparo das tarrafas
e demais petrechos de sua profissão.
Ora, falha, geralmente, a primeira tentativa da pesca. Diz-se, então, que o peixe
engana ao pescador. Esse é o motivo por que alguns autores relacionam o peixe com a
expressão folclórica 1º de abril. Na França, por exemplo, diz-se da mentira de
abril poisson dAvril.
Supõe-se ainda outra origem do 1º de abril, no emaranhado fertilíssimo da Idade Média:
uma alusão à Paixão de Cristo, quando, sem justificativa, era mandado de um tribunal
para outro de Herodes para Pilatos, de Anás para Caifaz.
Segundo Larousse, "tal suposição do 1º de abril não é inverossímil para aquela
época de piedade atrasada, quando se convertiam em espetáculo e divertimento os
episódios mais respeitáveis e santos do Antigo e do Novo Testamento, para a maior
glória de Deus e edificação dos fiéis".
Peixe, nesse caso, seria corruptela de paixão (passion x poisson).
Entretanto, o mesmo autor considera a palavra peixe empregada de propósito, a fim de
substituir o nome de Cristo que, de certo, não devia aparecer numa brincadeira ou
mascarada. Aliás, naquele tempo, não se pronunciava o nome do Salvador sem um gesto de
respeito.
Além disso, os primitivos cristãos para fugirem às perseguições, quando tinham de
referir-se a Jesus, invocavam um monograma enigmático Ichtus formado de
cinco palavras gregas Iésus, Christos, Theou, Utos, Soter (Jesus, Cristo,
de Deus, Filho, Salvador).
A expressão peixe de abril, viria de fato de ser o mês de abril o da Paixão de Cristo.
Muitas outras versões existem sobre a mentira do primeiro de abril. Calcula-se, por
exemplo, essa brincadeira iniciada no século XVI, quando se mudou o princípio do ano
para janeiro.
Conta-se que, durante uma permanência no Castelo de Roussilon, em 1564, Carlos IX, da
França, baixou uma ordem pela qual passava para janeiro o início do ano, o que, até
então se marcava em abril. Assim, as boas festas, boas entradas, os votos de felicidade,
os presentes de Ano Novo e outras finezas do folclore social foram, de certo,
transferidas.
Muita gente, apegada ao velho costume, não gostou da novidade. Muitas pessoas
enganavam-se, nas felicitações. Surgiram igualmente espirituosos, que simulavam
presentes, falsas congratulações e outras brincadeiras, que distraíam os recalcitrantes
e os contrariados.
Além disso, o fato de o sul deixar o signo dos peixes, no mês de abril, concorreu para
que o povo relacionasse o dia da mentira com o saboroso vertebrado.
Segundo a história, dentre os mais importantes primeiros de abril, distingue-se o que um
príncipe da Lorena passou em Luiz XIII. Prisioneiro, no castelo de Nanci, escapuliu das
grades, a 1º de abril, e, nadando, atravessou o rio Meurthe. Disseram, então, os
lorenos, que haviam dado um peixe de abril aos franceses.
Diversos horóscopos divulgados em almanaques de remédios registram que "o rubi é a
pedra de abril, portanto, a cor desse mês é a vermelha. Sob a influência do signo de
Áries, os nascidos em abril são autoritários, egoístas, sabem o que querem e não
abandonam os seus objetivos".
Não acreditamos em horóscopos. Consideramos que a educação, bem orientada, cultiva
desde o berço as tendências do homem, de modo a dirigi-las no sentido ideal do caráter,
sem prejuízo da personalidade, a fim de que, no cenário social, o indivíduo não seja
um constante primeiro de abril.
(Novaes, Maria Stella de. "O primeiro de
abril". Jornal do Commercio,
Rio de Janeiro, 3 de abril de 1955) |
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