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Ano V - abril  2003 - nº 56

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 56
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)Festa campestre na casa dos educandos, em 20 de novembro de 1865, por Luís e Elizabeth Cary Agassiz.

setaquad.gif (95 bytes)O primeiro de abril, por Maria Stella de Novaes.

setaquad.gif (95 bytes)A festa das esmolas, por Karl von den Steinen.

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


O PRIMEIRO DE ABRIL

Maria Stella de Novaes


Dia da mentira
Dia do peixe

Dia no decorrer do qual, sejam falhos ou intangíveis na sinceridade, todos têm licença de uma folga, para uma brincadeira de mentira jocosa.

— Quem neste mundo, não experimentou ainda o gostinho de passar um 1º de abril nos outros; e, pelo contrário, não provou a decepção de receber um peixe de abril?

Entretanto, muita gente ignora a relação que existe, a cadeia tecida pela associação de idéias, enriquecida pela imaginação e mediante a qual o espírito humano alça-se aos paramos da mitologia e da cosmografia, inventa, compõe o mundo de lendas, fábulas, adágios, etc. e o relaciona, muitas vezes, com alguns fatos históricos.

De certo, não pretendemos, agora, decifrar o quebra-cabeças das relações milenares firmadas entre a mitologia, a cosmografia, a etnografia e a história. Outrossim, nenhuma novidade teremos a divulgar, tratando, aqui, de 1º de abril. Disso nos lembramos apenas, em atenção a pessoas amigas desejosas de nossa perseverança nas pesquisas do folclore.

Resolvemos, então, estudar o ciclo dos meses e, como, de acordo com as raízes na mitologia e no calendário, abril é o primeiro, dar-llhe-emos a preferência, neste pequeno trabalho.

* * *

Consagrado a Vênus, primitivamente, deusa das flores, da primavera e dos encantos da natureza, era representado, entre os romanos, pela figura de um jovem que dançava, ao som de um instrumento. Ocupava o número dois, no calendário de Rômulo, e compunha-se de trinta dias, número que foi reduzido a vinte e nove, por Numa Pompilio; reestabelecido, porém, na reforma realizada por Júlio César, auxiliado pelo astrônomo Sosígeno, quarenta e cinco anos antes de Cristo.

Ao contrário dos romanos, os gregos punha o mês de abril sob a proteção de Apolo, filho de Júpiter e Letona, uma titânide, e irmã gêmea de Diana (Artêmis). Apolo era o deus da poesia, das artes, dos rebanhos, do dia e do sol. Neste último caso, tomava o nome de Febo. Mas, no sentido de deus do sol, não deve ser confundido com Hélio, irmão de Selene e de Eos.

* * *

Outrora, conforme dissemos, atrás, o ano começava em abril, mês em que esplende a primavera, no hemisfério setentrional. Disso, resultaram certas expressões populares usadas na Europa e em alguns países americanos:

- Estar no abril da vida (na mocidade)
- O abril da existência (idem)
- São flores de abril (virtudes, realizações da mocidade)

Correspondem aos que dizem os meridionais: — Na primavera, virtudes primaveris, etc.

Numa inspiração feliz, Guerra Junqueiro sintetizou, na poesia, aos atributos do mês de abril:

Namorou-se uma princesa
C’um pajem loiro e gentil
Chama-se ela — Natureza
Chama-se o pajem — Abril

A primavera opulenta
Rica de encantos e cores
Palpita, anseia, rebenta
Em cataclismos de flores

Muitos são os provérbios sobre o mês de abril. Exemplo: Quem perde o seu abril, chora em outubro (Quem não trabalha em abril, não colhe no outono). Corresponde a "setembro sem trabalho, outono falho", para o hemisfério meridional. Abril, chuva para os homens; maio, para os bichos.

Em nossa pátria, são as tardes de abril as que apresentam a maior suavidade, na beleza do crepúsculo.

* * *

Em alguns países, a 1º de abril, os pescadores iniciam o trabalho, no mar. Assim dizendo, não incorremos num pleonasmo, porque, antes, entregam-se ao preparo das tarrafas e demais petrechos de sua profissão.

Ora, falha, geralmente, a primeira tentativa da pesca. Diz-se, então, que — o peixe engana ao pescador. Esse é o motivo por que alguns autores relacionam o peixe com a expressão folclórica — 1º de abril. Na França, por exemplo, diz-se da mentira de abril — poisson d’Avril.

Supõe-se ainda outra origem do 1º de abril, no emaranhado fertilíssimo da Idade Média: uma alusão à Paixão de Cristo, quando, sem justificativa, era mandado de um tribunal para outro — de Herodes para Pilatos, de Anás para Caifaz.

Segundo Larousse, "tal suposição do 1º de abril não é inverossímil para aquela época de piedade atrasada, quando se convertiam em espetáculo e divertimento os episódios mais respeitáveis e santos do Antigo e do Novo Testamento, para a maior glória de Deus e edificação dos fiéis".

Peixe, nesse caso, seria corruptela de paixão (passion x poisson).

Entretanto, o mesmo autor considera a palavra peixe empregada de propósito, a fim de substituir o nome de Cristo que, de certo, não devia aparecer numa brincadeira ou mascarada. Aliás, naquele tempo, não se pronunciava o nome do Salvador sem um gesto de respeito.

Além disso, os primitivos cristãos para fugirem às perseguições, quando tinham de referir-se a Jesus, invocavam um monograma enigmático — Ichtus — formado de cinco palavras gregas — Iésus, Christos, Theou, Utos, Soter (Jesus, Cristo, de Deus, Filho, Salvador).

A expressão peixe de abril, viria de fato de ser o mês de abril o da Paixão de Cristo.

Muitas outras versões existem sobre a mentira do primeiro de abril. Calcula-se, por exemplo, essa brincadeira iniciada no século XVI, quando se mudou o princípio do ano para janeiro.

Conta-se que, durante uma permanência no Castelo de Roussilon, em 1564, Carlos IX, da França, baixou uma ordem pela qual passava para janeiro o início do ano, o que, até então se marcava em abril. Assim, as boas festas, boas entradas, os votos de felicidade, os presentes de Ano Novo e outras finezas do folclore social foram, de certo, transferidas.

Muita gente, apegada ao velho costume, não gostou da novidade. Muitas pessoas enganavam-se, nas felicitações. Surgiram igualmente espirituosos, que simulavam presentes, falsas congratulações e outras brincadeiras, que distraíam os recalcitrantes e os contrariados.

Além disso, o fato de o sul deixar o signo dos peixes, no mês de abril, concorreu para que o povo relacionasse o dia da mentira com o saboroso vertebrado.

Segundo a história, dentre os mais importantes primeiros de abril, distingue-se o que um príncipe da Lorena passou em Luiz XIII. Prisioneiro, no castelo de Nanci, escapuliu das grades, a 1º de abril, e, nadando, atravessou o rio Meurthe. Disseram, então, os lorenos, que haviam dado um peixe de abril aos franceses.

Diversos horóscopos divulgados em almanaques de remédios registram que "o rubi é a pedra de abril, portanto, a cor desse mês é a vermelha. Sob a influência do signo de Áries, os nascidos em abril são autoritários, egoístas, sabem o que querem e não abandonam os seus objetivos".

Não acreditamos em horóscopos. Consideramos que a educação, bem orientada, cultiva desde o berço as tendências do homem, de modo a dirigi-las no sentido ideal do caráter, sem prejuízo da personalidade, a fim de que, no cenário social, o indivíduo não seja um constante primeiro de abril.



(Novaes, Maria Stella de. "O primeiro de abril". Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 3 de abril de 1955)

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