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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
FESTA CAMPESTRE NA CASA DOS EDUCANDOS
20 de novembro de 1865 |
| Luís e Elizabeth Cary Agassiz |
O senhor Epaminondas, presidente da província, a cujas amáveis atenções devemos ter
sido duplamente agradável a nossa estadia em Manaus, completou as suas gentilezas dando
uma encantadora festa em honra de Agassiz. A escola das crianças índias foi escolhida
para isso; nenhum outro edifício se apropriaria melhor para tal fim; as suas salas são
arejadas e espaçosas e a situação que ocupa é admirável. o convite nos foi feito em
nome da província. O tempo nos foi favorável. A chuva, que caiu durante a noite,
refrescou a atmosfera e o céu, ligeiramente coberto, e a temperatura fresca nos davam as
condições de tempo mais de desejar, nesse clima, para uma festa ao ar livre como essa.
Quando chegamos à praia em que deveríamos embarcar, os convidados começavam a se
reunir; grande número de canoas já se achava em movimento e as vestimentas vistosas, que
se mostravam sob os toldos brancos, constituíam o mais alegre espetáculo. Em vinte
minutos os remadores nos levaram ao nosso destino. Era encantador o cenário: o caminho
que, da praia, conduz ao corpo principal do edifício, achava-se ladeado de dupla fila de
palmeiras cortadas na floresta especialmente para isso, entre as quais se viam bandeiras
flutuando; as alas abertas laterais, que servem habitualmente de oficinas, e que foram
transformadas em salões de banquete, haviam sido guarnecidas de arcos de folhagens e de
flores, de modo que o espaço interior parecia fechado por verdes anteparos. Fomos
recebidos ao som da banda de música conduzidos para o pavilhão central onde todos os
convidados se haviam reunido em número aproximado de duzentos. A uma hora da tarde, o
presidente se dirigiu para a galeria dos arcos verdes e floridos, que só avistáramos de
londe, e em sua companhia penetramos no salão. Nada mais pitoresco que a decoração
deste salão; as mesas dispostas de modo a formarem um grande espaço quadrado; no centro,
fraternalmente unidas, ostentavam-se os pavilhões do Brasil e dos Estados Unidos,
enquanto uma profusão de galhardetes e bandeirolas presas aos arcos fazia sobressair com
as suas cores vivas o tom uniforme das folhagens. Através desses arcos de verdura, a
paisagem aparecia como formada de outros tantos grandes painéis em que se desenhavam a
floresta escura, o rio espelhante e os tetos de palha das choças indígenas, situadas por
baixo das árvores da margem oposta. Uma aragem fresca, entrando pelo nosso salão aberto,
agitava as dobras das bandeiras, ou sussurrava delicadamente nas folhagens misturando a
sua música com a da orquestra lá fora.
Já que nos achamos na Amazônia, a cerca de mil e seiscentos quilômetros da fos do
grande rio, vem a propósito talvez dizer uma palavra sobre o almoço em si. Faz-se uma
idéia tão exagerada dos perigos, das privações e das dificuldades duma viagem nesta
região (pelo menos é o que deduzo das observações que nos fizeram, não somente
nos Estados Unidos, mas também no Rio de Janeiro, entre brasileiros, quando anunciamos a
nossa partida) que não se poderia absolutamente esperar encontrar numa mesa de
banquete dado emManaus o inteiro conforto, quase diria o perfeito luxo, que testemunhamos
nessa ocasião. Não havia, na verdade, nem gelo, coisa pouco fácil de se obter neste
clima, nem champanha; essas duas exceções eram, no entanto, sobejamente compensadas por
uma profusão de frutas tropicais que em outro lugar qualquer não se conseguiria por
preço algum: ananases enormes, abacates verdes e vermelhos, pitangas cor de púrpura,
atas (fruta-de-conde), abios, sapotis, bananas das maos disputadas espécies, bem como
grande variedade de maracujás (os frutos da Passiflora). O almoço foi muito alegre, os
brindes numerosos, animados os discursos, e muito tempo depois que as senhoras se
retiraram, a sala ainda ressoava com as saúdes e os vivas que se sucediam. No fim do
banquete, passou-se uma cena encantadora que muito me impressionou; ignoro se faz parte
dos costumes, mas como não causou nenhum reparo, é de supor que o faça. Quando os
convidados voltaram à sala de recepção, música à frente, todos os criados colocados
em uma só fila diante da porta, com as garrafas e os copos na mão, beberem todo o vinho
que ficara na mesa, fazendo um brinde por conta deles. O mordomo se colocou na frente da
fila, bebeu em primeiro lugar à saúde das pessoas homenageadas na festa, e, em seguida,
à do presidente; vigorosos vivas lhe responderam e encheram-se os copos. Então um dos
convivas, adiantando-se, bebeu por sua vez, entre risos gerais, à saúde do mordomo, e os
copos mais uma vez se esvaziaram, mais animadamente talvez que das outras vezes.
A festa terminou por um baile improvisado; depois, ao cair da tarde, tomaram-se as canoas
e voltou-se para a cidade, todos, segundo suponho, sob a impressão de uma festa
otimamente realizada. Assim o foi para aqueles a quem se desejou agradar e naturalmente
também para os que conceberam e realizarama idéia. Poderá parecer estranho aos meus
leitores que se escolhesse um domingo para uma festa desse gênero, mas aqui, como na
maior parte da Europa continental, mesmo em país protestante, o domingo é um dia de
regozijo consagrado aos prazeres.
(Agassiz, Louis. Viagem ao Brasil: 1865-1866.
Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1975, p.275-278) |
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