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Ano V - abril  2003 - nº 56

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 56
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

setaquad.gif (95 bytes)Do folclore fluminense: almoço do pato e paspalhão.

setaquad.gif (95 bytes)Doces em calda, velha tradição brasileira, por Sílvio Salema.

setaquad.gif (95 bytes)O queijo no céu, por Luís da Câmara Cascudo.

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


O QUEIJO NO CÉU

Luís da Câmara Cascudo


Há no céu um queijo que deve ser partido pelo casal que guardou fidelidade recíproca e total ou nunca se arrependeu do matrimônio. Pereira da Costa, Vocabulário pernambucano, registrou: "Partir o queijo no céu" – "morrer os casados em recíproca fidelidade conjugal". É uma frase comum e popular, resistindo tempo e mudanças. "Aquele vai cortar o queijo no céu!"

A tradição nos veio de Portugal onde é viva. Há o queijo para os que nunca se arrependeram. Na Beira é um presunto e um queijo. No Castelo de Vide uma broa. (notas do senhor Antônio Cupertino de Miranda ao cônego Jorge O’Grady de Paiva).

Recolhi a crendice no Dicionário do folclore brasileiro em nota rápida. Não ligava ao culto de nenhum santo. Há, indecisa e visível, uma citação a Santa Bona, padroeira das mulheres casadas recatadas e modestas. "Aquela nem Santa Bona dá jeito" diziam-se das mulheres desenvoltas e faladeiras.

Nas igrejas da Ordem Terceira de São Francisco em Recife e Olinda há quadros representando um casal modelo, São Lúcio e Santa Bona, que teria sido o primeiro a receber as insígnias da Ordem pela própria mão do Serafico. O cônego Raimundo Trindade. A Igreja de São Francisco de Assis de Mariana, (Revista do SPHAN, nº 7, p.61, Rio de Janeiro, 1943) divulgou o grupo de São Lúcio e Santa Bona recebendo as santas regras, Os bem casados. João da Silva Campos, Procissões tradicionais da Bahia, 21, Secretaria de Educação e Saúde, 1941, informou que o casal figurava em andor na Procissão de Cinza ainda em 1861, na cidade de Salvador. Não havia referência ao queijo famoso que espera no céu a presença dos castos esposos.

Um amigo, o sr. Celso de Carvalho, escrevia-me da cidade mineira do Sero, em 26 de fevereiro de 1955, esclarecendo: "Na velha cidade mineira do Serro ainda subsiste a tradicional franciscana ‘procissão de cinzas’, no primeiro dia da Quaresma. Em 1951 saíram 52 andores, um dos quais é justamente o dos santos. Tenho prazer de oferecer-lhe uma fotografia tirada naquela procissão, o andor dos bem casados. Interessante é que, apesar de ser o Serro a terra de afamados "Queijos do Serro", o queijo que figura diante dos santos, integrante da representação icônica é... de madeira".

Fiquei conhecendo os bem casados. Ele de hábito de terceiro franciscano e grande boina, ela de capa, peitilho e oral branco. No andor, posto num suporte, um queijo redondo, alvo, sedutor... Faltava-me identificar os personagens. Apelei para o meu velho amigo cônego Jorge O’Grady de Paiva (Rio de Janeiro), vítima generosa para minhas perguntas. No Dicionário dissera ter encontrado no Martyrologium Romamum dezenove Lúcios mas nenhum deles casado com Santa Bona. Deparei uma Santa Bona venerada a 12 de setembro, mas virgem e mártir em Treviso, no século VII. Tive de afastá-la das pesquisas. O cônego Jorge O’Grady de Paiva deu depoimento em 10/08/1958: "No Martirológio romano, catálogo oficial dos santos, consta vários São Lúcios, mas nenhuma Santa Bona. E dos Lúcios existentes, se alguma relação há com o caso do padroado, é um cujo dia é comemorado a 19 de outubro, conjuntamente com São Ptolomeu. Em anexo a transcrição do trecho. Quanto à Santa Bona, inexiste canonicamente. Nem parece tratar-se de alguma corruptela de nome, pois andei, em vão, nesta pista. Assim é que das duas Donatas existentes, uma celebrada a 17 de julho e a outra a 31 de dezembro, nada, de leve sequer, implica fidelidade conjugal e queijo celeste... Se em Recife, como diz você, faziam, bem como em Minas, procissões com andores dos dois santos e, diantes deles, um queijo, seria o caso de perguntar, aos vigários de onde vigorou tal praxe, que significação tinha isso e, mesmo, se existiu tal procissão. Pois não há Santa Bona... A versão deve ser exclusivamente folclórica, sem que a Liturgia entre nela. Não tenho, infelizmente, meios para esclarecer a questão. Mas fico na pista e o que ocorrer, dir-lhe-ei".

Há o registro baiano de João da Silva Campos e a fotografia do andor, na plena procissão movimentada, na cidade do Serro, Minas Gerais, em 1951. Indiscutivelmente houve e há imagens dos bem casados, expostas na procissão de Cinzas. Liturgicamente regulares, evidentemente, participando de uma demonstração ritual e pública. Não mereci resposta de duas cartas enviadas ao reverendissimo vigário do Serro. Consegui apenas, e quase suficientemente, saber que São Lucio e Santa Bona aparecem no andor com um queijo, materialmente representado e deve ser um símbolo de lenda inseparável das duas figuras. O queijo do Céu estava ligado ao culto de São Lúcio e Santa Bona e este conhecido no Recife, Olinda, Bahia e Minas Gerais.

Frei Bonifácio Mueller, o.f.m. do convento de São Francisco em Olinda, é um preclaro estudioso da história religiosa de sua ordem, pesquisador eminente, infatigável e teimoso. Bati-lhe à porta, expondo as penitências sofridas por causa do queijo do Céu. Frei Bonifácio repartiu comigo o queijo da sabedoria. São Lúcio e Santa Bona foram as primícias da Ordem Terceira. P. Heribert Holzapfel, Manuale Historiae Ordinis Fratrum Minorum, Friburgi, 1909, p.593, menciona "Primus Qui juxta institutionem S. Francisci poenitentiam in saeculo agere coepit. B (cato) Luchesius a Castro Bonitti (Poggibonsi 1260) fuisse traditur".

A história, resumida e clara, é a seguinte (Buchberger, Lexikon fur theologie und Kirche. Herder, 1934, t.6, p.674, verbete Luchesius, Lucius, Lucensis: bem-aventurado, nasceu na Toscana, e faleceu em Poggibonsi, cerca de 1260. Adepto apaixonado dos Guelfos na juventude tornou-se negociante abastado e avaro em Poggibonsi. Converteu-se, porém pela pregação de São Francisco, integrando com sua esposa Buonadonna na Ordem Terceira, sendo o primeiro casal da Ordem segundo a Crônica dos XXIV Gerais, afirmativa contestada por outros. Distribuiu todos os seus bens entre os pobres, vivendo em penitência e praticando a caridade. Seu culto, permitido desde de 1273, passou a ser confirmado em 1694. Sua festa é marcada para 28 de abril. Nenhuma alusão ao queijo.

A refeição comum no paraíso deve ser raro prêmio maravilhoso para uma fidelidade que nem um pecado interrompeu. O queijo, comum e habitual na região, reapareceria no céu numa homenagem reconstituitiva do ambiente doméstico modelar. É uma conjetura de sabor etnográfico. O queijo foi um pormenor da popularização dos bem casados.



(Cascudo, Luís da Câmara. "O queijo no céu". O Estado de São Paulo, São Paulo, 14 de junho de 1959)

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