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| COLHER DE PAU - Nesta seção, textos
sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa;
horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e
alimentos... |
Há no céu um queijo que deve ser partido pelo casal que guardou fidelidade recíproca e
total ou nunca se arrependeu do matrimônio. Pereira da Costa, Vocabulário
pernambucano, registrou: "Partir o queijo no céu" "morrer os
casados em recíproca fidelidade conjugal". É uma frase comum e popular, resistindo
tempo e mudanças. "Aquele vai cortar o queijo no céu!"
A tradição nos veio de Portugal onde é viva. Há o queijo para os que nunca se
arrependeram. Na Beira é um presunto e um queijo. No Castelo de Vide uma broa. (notas do
senhor Antônio Cupertino de Miranda ao cônego Jorge OGrady de Paiva).
Recolhi a crendice no Dicionário do folclore brasileiro em nota rápida. Não
ligava ao culto de nenhum santo. Há, indecisa e visível, uma citação a Santa Bona,
padroeira das mulheres casadas recatadas e modestas. "Aquela nem Santa Bona dá
jeito" diziam-se das mulheres desenvoltas e faladeiras.
Nas igrejas da Ordem Terceira de São Francisco em Recife e Olinda há quadros
representando um casal modelo, São Lúcio e Santa Bona, que teria sido o primeiro a
receber as insígnias da Ordem pela própria mão do Serafico. O cônego Raimundo
Trindade. A Igreja de São Francisco de Assis de Mariana, (Revista do SPHAN,
nº 7, p.61, Rio de Janeiro, 1943) divulgou o grupo de São Lúcio e Santa Bona recebendo
as santas regras, Os bem casados. João da Silva Campos, Procissões
tradicionais da Bahia, 21, Secretaria de Educação e Saúde, 1941, informou que o
casal figurava em andor na Procissão de Cinza ainda em 1861, na cidade de Salvador. Não
havia referência ao queijo famoso que espera no céu a presença dos castos esposos.
Um amigo, o sr. Celso de Carvalho, escrevia-me da cidade mineira do Sero, em 26 de
fevereiro de 1955, esclarecendo: "Na velha cidade mineira do Serro ainda subsiste a
tradicional franciscana procissão de cinzas, no primeiro dia da Quaresma. Em
1951 saíram 52 andores, um dos quais é justamente o dos santos. Tenho prazer de
oferecer-lhe uma fotografia tirada naquela procissão, o andor dos bem casados.
Interessante é que, apesar de ser o Serro a terra de afamados "Queijos do
Serro", o queijo que figura diante dos santos, integrante da representação icônica
é... de madeira".
Fiquei conhecendo os bem casados. Ele de hábito de terceiro franciscano e grande boina,
ela de capa, peitilho e oral branco. No andor, posto num suporte, um queijo redondo, alvo,
sedutor... Faltava-me identificar os personagens. Apelei para o meu velho amigo cônego
Jorge OGrady de Paiva (Rio de Janeiro), vítima generosa para minhas perguntas. No Dicionário
dissera ter encontrado no Martyrologium Romamum dezenove Lúcios mas nenhum deles
casado com Santa Bona. Deparei uma Santa Bona venerada a 12 de setembro, mas virgem e
mártir em Treviso, no século VII. Tive de afastá-la das pesquisas. O cônego Jorge
OGrady de Paiva deu depoimento em 10/08/1958: "No Martirológio romano,
catálogo oficial dos santos, consta vários São Lúcios, mas nenhuma Santa Bona. E dos
Lúcios existentes, se alguma relação há com o caso do padroado, é um cujo dia é
comemorado a 19 de outubro, conjuntamente com São Ptolomeu. Em anexo a transcrição do
trecho. Quanto à Santa Bona, inexiste canonicamente. Nem parece tratar-se de alguma
corruptela de nome, pois andei, em vão, nesta pista. Assim é que das duas Donatas
existentes, uma celebrada a 17 de julho e a outra a 31 de dezembro, nada, de leve sequer,
implica fidelidade conjugal e queijo celeste... Se em Recife, como diz você, faziam, bem
como em Minas, procissões com andores dos dois santos e, diantes deles, um queijo, seria
o caso de perguntar, aos vigários de onde vigorou tal praxe, que significação tinha
isso e, mesmo, se existiu tal procissão. Pois não há Santa Bona... A versão deve ser
exclusivamente folclórica, sem que a Liturgia entre nela. Não tenho, infelizmente, meios
para esclarecer a questão. Mas fico na pista e o que ocorrer, dir-lhe-ei".
Há o registro baiano de João da Silva Campos e a fotografia do andor, na plena
procissão movimentada, na cidade do Serro, Minas Gerais, em 1951. Indiscutivelmente houve
e há imagens dos bem casados, expostas na procissão de Cinzas. Liturgicamente regulares,
evidentemente, participando de uma demonstração ritual e pública. Não mereci resposta
de duas cartas enviadas ao reverendissimo vigário do Serro. Consegui apenas, e quase
suficientemente, saber que São Lucio e Santa Bona aparecem no andor com um queijo,
materialmente representado e deve ser um símbolo de lenda inseparável das duas figuras.
O queijo do Céu estava ligado ao culto de São Lúcio e Santa Bona e este conhecido no
Recife, Olinda, Bahia e Minas Gerais.
Frei Bonifácio Mueller, o.f.m. do convento de São Francisco em Olinda, é um preclaro
estudioso da história religiosa de sua ordem, pesquisador eminente, infatigável e
teimoso. Bati-lhe à porta, expondo as penitências sofridas por causa do queijo do Céu.
Frei Bonifácio repartiu comigo o queijo da sabedoria. São Lúcio e Santa Bona foram as
primícias da Ordem Terceira. P. Heribert Holzapfel, Manuale Historiae Ordinis Fratrum
Minorum, Friburgi, 1909, p.593, menciona "Primus Qui juxta institutionem S.
Francisci poenitentiam in saeculo agere coepit. B (cato) Luchesius a Castro Bonitti
(Poggibonsi 1260) fuisse traditur".
A história, resumida e clara, é a seguinte (Buchberger, Lexikon fur theologie und
Kirche. Herder, 1934, t.6, p.674, verbete Luchesius, Lucius, Lucensis: bem-aventurado,
nasceu na Toscana, e faleceu em Poggibonsi, cerca de 1260. Adepto apaixonado dos Guelfos
na juventude tornou-se negociante abastado e avaro em Poggibonsi. Converteu-se, porém
pela pregação de São Francisco, integrando com sua esposa Buonadonna na Ordem
Terceira, sendo o primeiro casal da Ordem segundo a Crônica dos XXIV Gerais, afirmativa
contestada por outros. Distribuiu todos os seus bens entre os pobres, vivendo em
penitência e praticando a caridade. Seu culto, permitido desde de 1273, passou a ser
confirmado em 1694. Sua festa é marcada para 28 de abril. Nenhuma alusão ao queijo.
A refeição comum no paraíso deve ser raro prêmio maravilhoso para uma fidelidade que
nem um pecado interrompeu. O queijo, comum e habitual na região, reapareceria no céu
numa homenagem reconstituitiva do ambiente doméstico modelar. É uma conjetura de sabor
etnográfico. O queijo foi um pormenor da popularização dos bem casados.
(Cascudo, Luís da Câmara. "O queijo no
céu". O Estado de São Paulo,
São Paulo, 14 de junho de 1959) |
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