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| COLHER DE PAU - Nesta seção, textos
sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa;
horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e
alimentos... |
DOCES EM CALDAS VELHA TRADIÇÃO BRASILEIRA |
Ao contrário do que se diz, que "o brasileiro não tem tradições", os que
estudam o nosso povo em suam formação, hábitos, costumes e tudo o mais, negam, como eu,
essa tola opinião. Em realidade, o brasileiro não quer ter as suas tradições, talvez,
por considerá-las ridículas, sem valor, inferiores: acabando por abandoná-las.
Fato claro, indiscutível e insofismável é o abandono de nossa música folclórica e da
popular (a mais rica e bela do mundo) por qualquer uma que venha do estrangeiro. Somos,
realmente um povo paradoxal. Parece-me que sofre de uma doença ou fobia daqueles que são
felizes e querem sofrer para saber como é o sofrimento. Quem poderá entender os nossos
patrícios?
As nossas frutas são deliciosas e ricas em vitaminas, podendo trazer como prova o que se
passou com os nossos soldados na Guerra do Paraguai que foram salvos do escorbuto e do
cólera morbus pelas laranjas que devoraram, mortos de fome, em Mato Grosso, durante a
Retirada da Laguna. A vitamina da laranja salvou o nosso exército.
Se considerarmos o lado medicinal do caju, por exemplo, verificaremos que, além do seu
delicioso fruto, é precioso em vitamina C; mas, o chá, que se faz com pedaços do seu
caule e das folhas, auxiliam o tratamento de várias doenças, inclusive, do diabetes.
A banana, em sua múltiplas qualidades; é magnífica para a nutrição infantil e o seu
caule é fibroso e útil, bem assim, o tanino que contém. Dizem que o xarope feito com o
"coração" do cacho da banana é valioso auxiliar para o tratamento das
moléstias do pulmão.
Mas, não é esse o sentido do presente trabalho, que procura focalizar o valor do
"doce caseiro" que foi abandonado, e a possibilidade de industrialização, como
acontece com a goiaba.
Em minha pesquisas nas livrarias que vendem livros velhos, os chamados "sebos",
encontrei um com o título: Doceiro Nacional, o que significa Brasileiro
A interessante publicação foi editada em Paris, na França pela livraria Garnier,
do Rio de Janeiro. O impressor foi Paul Dupont (CI) 9.4.25. A data impressa deve ser o ano
de 1876, em virtude da seguinte referência sobre o mate e a grafia que observei em toda a
obra: "O mate é bebida geralmente usam no Paraguay, nos Estados Orientais da
América do Sul e nas províncias do sul do Império do Brasil (p.305 chimarrão).
Pela leitura do livro, a grafia antiga e demais detalhes, levaram-me a crer que os doces
em calda daquela época obedeciam já a uma técnica anterior à publicação do livro na
França (1826), técnica essa brasileiríssima, que vinha do povo e era transmitida
oralmente ou em forma de receitas, que passavam de família em família, de estado em
estado e de geração em geração, sem se conhecer a autora ou autores das ditas receitas
e o modo de manipulação, sendo, portanto, um autêntico folclore o tradicional doce
"feito em casa" como se dizia antigamente. O sucesso que até hoje consegue a
goiaba e outras frutas enlatadas ou em vidros, é uma prova do valor do antigo doce
"feito em casa". Por que motivo não procedem da mesma forma com outros frutos?
Vejam essa modesta relação de algumas frutas brasileiras e verifiquem também, se a
variedade não é a maior do mundo?
Abio Abacaxi Ananás Abutua (Uva do mato) Abricó do Pará
Bacuri Biribá Cabeluda Cajá (duas espécies) Cambucá
Capilé Castanha do Pará Cidra Cupuaçu Figo
Fruta-Pão Fruta do Conde (várias espécies da mesma família) Genipapo
Graviola Groselha Guabiroba Grumuxama Jaboticaba
Ligia Limão Mamão (três qualidades) Laranja (várias espécies
inclusive a da terra) Marmelo Manga (várias espécies) Mangaba
Olho de Boi Araçá (duas espécies) Pêssego Pupunha
Romã Sapoti Sirigüela Tamarindo Tangerina Jaca
Jambo (duas qualidades) Jamelão Pitanga Carambola Coco da
Bahia Banana (várias qualidades), e muitas outras que não relacionei por não ser
um técnico no assunto.
Lembro-me de que, na minha infância, em nossa casa em São Cristovão, a Eustáquia, que
era a nossa querida cozinheira, preparava deliciosos doces dos quais ainda sinto o gosto
quando me lembro dessa época tão grata e feliz, embora algum tempo (mais de meio
século) me separe da quietude da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro... Mas
voltando ao livro de doces, transcrevo os seus conselhos: "Os modos de preparar estes
doces variam segundo as qualidades: pode-se porém dizer com generalidade que para este
fim as frutas devem ser colhidas antes de acabarem de amadurecer (de vez) porque são
neste estado mais duras e consistentes e resistem melhor às manipulações a que são
submetidas".
Vejam que a orientação era certa e segura, proveniente de experiências que a mulher
brasileira, boa e carinhosa para com os seus empregava esforços no sentido de aprimorar
os seus doces, como se verifica a seguir: "A primeira operação consiste em curtir
as frutas. Curtir as frutas é a operação pela qual se tornam elas aptas para absorverem
a calda, operação esta que consiste em pô-las em água fria, depois de convenientemente
preparadas, e levá-las ao fogo a ferver, até que se conheça que elas estão cozidas, o
que se verifica, experimentando-se com a unha, que facilmente entra.
Estando as frutas neste ponto, despejam-se numa gamela com água, onde foram fervidas e na
qual se deixam esfriar, para logo serem lançadas em nova água fria, onde ficarão até
perderem o amargo, tendo-se o cuidado de se lhes mudar a água de manhã e de tarde, para
depois serem levadas à calda.
Há frutas que são fervidas simplesmente em água pura, outras há que se ajunta um pouco
de cinza. Em seguida são fervidas duas vezes, por dia em calda rala, na qual se deixarão
por algum tempo, findo o qual se tiram as frutas e leva-se à calda ao ponto consistente
de xaropes.
As receitas que se seguem foram transcritas tal como estão impressas no aludido livro,
há mais de 140 anos.
ReceitasAs receitas são as seguintes como se verificará, uma fórmula para
determinadas frutas não havendo, portanto um só processo:
"Grumichamas Torna-se de grumichamas a quantidade que quiser, limpam-se em um
pano de linho grosso para lhes tirar o pêlo, dando-se lhes depois uns pequenos golpes com
a ponta de um canivete. Levam-se ao fogo as frutas assim preparadas para lhes dar uma
vasilha com a mesma água em que ferverão; logo que estiverem frias, passam-se para nova
água fria. Toma-se o açúcar que for necessário para as frutas que se preparam:
refina-se, fazendo-se uma calda rala que se lança sobre as frutas e deixa-se ferver até
que chegue ao ponto de espelho; ajuntam-se-lhes depois alguns cravos-da-índia, uns
pedacinhos de canela e guardam-se em vasilhas vidradas e bem tapadas.
Jaracatiás (mamociro do mato) Tomam-se os frutos antes de estarem muito maduros,
descascam-se as sementes e põem-se em água fria para sair o leite. Logo que este leite
sair, levam-se as frutas ao fogo para ferverem em água com um pouco de cinza amarrada em
um pano; depois do que despejam-se em uma vasilha, deixando-se esfriar na mesma água e
passando-se imediatamente as frutas para a nova água. Faz-se uma calda rala de açúcar
onde se lançam as jaracatiás, dá-se-lhes uma pequena fervura e despejam-se em uma
vasilha onde devem ficar durante vinte e quatro horas; passadas elas, leva-se outra vez ao
fogo e deixa-se ferver até a calda chegar ao ponto de espelho. Ajunta-se então
cravos-da-índia, pedaços de canela em pau e guarda-se em vasilhas vidradas e
tapadas."
Há um constante proceder quanto aos cravos e à canela e também cheiros (que eram
conhecidos como baunilha, hortelã e aniz, os principais) e as vasilhas vidradas e bem
tapadas. Veja como fabricavam o doce de gabiroba (ou guabiroba) do campo: "Toma-se
algumas gabirobas maduras de que se tira a penugem por meio de um pano grosso de linho.
Arranca-se os pés e lança-se as gabirobas assim limpas em uma calda rala de açúcar
refinado até ficar reduzida à consistência de ponto de espelho ajuntando-se nesta
ocasião os cheiros que se quiserem. Esse doce pode ser colocado em compoteiras.
Frutos de Buina (uvas do mato). Toma-se uns cachos de uvas do mato, cujo bagos se tira e
leva-se em água fria. Por outra parte, faz-se uma calda rala de açúcar limpo, na
proporção de uma libra de açúcar para cada libra de frutas e nela se lançam as uvas,
deixando ferver até ficar em ponto de espelho, ajuntando-se, nesta ocasião, os cheiros
que se desejam."
Um doce agradável e fácil e outro apregoado como um dos mais gostosos, mas, infelizmente
nunca provei, são os seguintes:
"Joaz em calda Tomam-se joazes bem perfeitos e maduros; lavam-se,
dando-se-lhes uns piques com a ponta de um palito. Põem-se numa calda rala de açúcar
que se deixa ferver até ficar reduzida ao ponto de espelho. Adicionam-se pedaços de
canela e colocam-se em compoteiras. Este doce é muito agradável e de fácil
preparação. Não é nocivo como o são as frutas antes de passarem pela calda.
Doce de imbu (ou umbu):
O umbu é uma fruta deliciosa com que se confecciona um dos melhores doces do Brasil.
Tomam-se uns umbus que depois de lavados em água fria, são levados ao fogo. Logo que
principiam a ferver, tiram-se deixando-se esfriar na mesma água. São lavados depois em
água fria, onde permanecem 24 horas. Por outra parte, faz-se uma calda rala de açúcar
bem limpo (peneirado), onde se põem os umbus a ferver, depois do que, tira-se com uma
escumadeira para outra vasilha. Deixa-se ferver, a calda até alcançar o ponto de espelho
e, depois de terem acrescentado os cheiros competentes, despeja-se sobre os umbus, que se
guardam em vasilhas vidradas e bem tampadas.
Jambos em calda: Toma-se os jambos que forem precisos; descasca-se sutilmente com um
canivete; faz-se-lhes uma racha para tirar os caroços, e põem-se em água fria para não
ficarem pretos. Toma-se o açúcar suficiente para a quantidade das frutas, faz-se uma
calda rala que se despeja sobre elas depois de se lhes ter escorrido a água. Leva-se ao
fogo, onde se deixam ferver até a calda chegar ao ponto de espelho, ajuntando-se-lhe uns
cravos-da-índia e uns pedacinhos de canela.
Pitangas em calda: Toma-se a quantidade de pitangas que se quiser. Limpam-se-lhes bem as
folhinhas e os pés; racham-se pelo meio a fim de lhes tirar os caroços e lavam-se em
água fria. Por outra parte, faz-se uma calda rala na qual deitam-se as pitangas e que vai
ao fogo para ferver até chegar ao ponto de espelho. Guardam-se as frutas em vasilhas
vidradas.
Mandacaru em calda: Toma-se um grelo de mandacaru que se corta atravessado em talhadas com
um pouco de cinza amarrada em um pano; tiram-se, depois disto, pondo-se em água fria e,
mudando-se esta, duas vezes ao dia; deixam-se curtir durante 5 ou 6 dias. Faz-se uma calda
rala de açúcar, deitam-se lhes as talhadas, depois de escorrida a água e ferve-se até
a calda estar em ponto de espelho: nesta ocasião acrescentam-se os cheiros e guardam-se
em vasilhas vidradas e bem tapadas."
Muitas outras receitas poderia transcrever, porém, raramente são encontrados os frutos
para que se façam os doces.
Assim é o Brasil, tão grande, fértil e forte e seus filhos incompreensivelmente, não
aproveitam como devem, os jogam fora, as riquezas que eles tem e lhes dá de graça.
(Salema, Sílvio. "Doces em calda, velha
tradição brasileira. Jornal do Commercio.
Rio de Janeiro, 28 de agosto de 1966) |
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