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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


setaquad.gif (95 bytes)Judas, foguetórios, e repiques de sinos

setaquad.gif (95 bytes)O testamento de Judas

setaquad.gif (95 bytes)Pelo correio eletrônico

setaquad.gif (95 bytes)Calendário

setaquad.gif (95 bytes)Latrinália

setaquad.gif (95 bytes)Máximas

setaquad.gif (95 bytes)No Estradão

setaquad.gif (95 bytes)Provérbios

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Pelágio Lobo

As festas da Semana Santa, para os que, como eu, passaram a meninice e boa parte da juventude em cidade do interior, mormente em cidade culta como Campinas, cuja população acompanhava com fervor e unção essas comemorações têm quanto à sua parte externa um doce sabor evocativo.

A intensidade e as complicações extenuantes da vida numa capital como São Paulo, em que tantos credos religiosos se acotovelam, ao lado do credo católico e à compita com os de credo negativo, indiferente ou frouxo, tiraram às comemorações antigas parte considerável da sua pompa e suprimiram delas muitos atos e cerimônias.

Em Campinas só havia uma procissão de enterro e nela tomava parte o elemento social de alta categoria de certas irmandades, ao lado de elementos modestos de outras; era, porém, a cidade inteira, pelos seus elementos de representação, ilustres ou modestos que nesses desfiles figurava. Com a fundação da Diocese em 7 de junho de 1907 e a designação para seu primeiro bispo do preclaro, imponente e verdadeiramente insígne dom João Batista Corrêa Nery, "conde romano prelado doméstico de sua santidade e assistente ao Trono Pontíficie" como era qualificado nos documentos oficiais por outorga de sua santidade o papa Pio X, as festas da Semana Santa assumiram maior esplendor e maior gravidade.

O bispo de Campinas tomava parte nelas, proferia os sermões da série quaresmal e, na procissão de enterro, fechava o imenso cortejo solene e majestosamente em suas vestes de longa cauda de vermelho escuro, logo após o pálio em que seguia o esquife do Senhor Morto.

Um silêncio absoluto, em todas as ruas, em todas as esquinas, dava à cidade, em céu aberto, a unção e o recolhimento que predominavam dentro das paredes da Catedral.

Já, porém, no sábado após a missa de Aleluia e queima do círio pascal, a porta grande da Matriz Nova, recomeçava o alvoroço: com o bimbalhar de sinos após o "Gloria in excelsis Deo", vinha o estrondo de morteiros e o pipocar da foguetaria, que esfuziava dos suportes de ferro fincados no chão da praça José Bonifácio, onde hoje se ergue a estátua daquele bispo.

E os sinos rompiam em sinfonias, acordes e escalas que atingiam com suas vozes os confins do município e se ampliava em ecos por cima das colinas e dos banhados. Na cidade e nos bairros que a circundam, em muitas esquinas e cantos de praça, a molecada rodeava os mastros dos judas, à espera do toque de meio-dia, para estripar o Iscariote. A aglomeração era enorme e cada qual procurava decifrar, naquele boneco de pano, amarrado com arame num poste, em geral, um pau de sebo untado de graxa, óleo grosso ou sabão, que seria "ele", qual o tipo humano vivo que a malquerença de um desafeto convertia em judas para regalo da molecada.

Com atrativo sedutor, o judas muitas vezes ostentava nas mãos bem presas por laços de barbante pespontados com agulha de sacaria, umas pelegas verdes de dez mil réis que a macacada fitava com olhos gulosos, na esperança de as poder agatanhar logo que o manipanço fosse derribado daquele trono grotesco.

E havia moleques especializados em marinhar pelo poste acima, vencendo a superfície lisa e bem untada; para isso afundavam mãos e pés em areia grossa, levavam suprimento nos bolsos das calças e com esse expediente iam trepando, trepando, ante os incitamentos dos que ficavam no chão à espera da sua vez. Mas a provisão de areia não bastava para neutralizar o efeito daquela massa de gordura e graxa e o valente escorregava poste abaixo, entre alaridos, assovios estridentes e apupos dos outros candidatos.

– "Sai pichote: Larga do poste, molengo... (quando não ditos piores e mais crus). Deviam ser assim os prélios e justas das festas populares portuguesas em que o "mastro de cocanha" era o atrativo maior dos meninotes e de marmanjões, com fôlego e boas pernas para essas façanhas.

Os meninos do meu tempo, que não tinham permissão paterna para essas peraltices, esgueiravam-se de casa e iam engrossar a massa dos malhadores de judas em bairros distantes. Quantas vezes não fui eu para o largo de São Benedito ou para a Ponte Preta assistir a essa estripações com plema autonomia de movimento....

Derribado o judas, com ou sem pelega, passava-se a esventrá-lo tirando-lhe do bucho de palha, a serragem e a roupa velha que o fazia gorducho e balofo. Houve um caso mais sério, em que certo manipulador desses bonifrates, armando o judas como espantalho, com braços que se moviam, metera no bojo, dentro de uma caixa de pau, uma casa de marimbondos, e pode-se imaginar o que aconteceu quando aqueles trapos foram dilacerados. O único consolo da meninada foi que o autor daquela estupidez, à porta da sua vendinha, foi o primeiro punido pelas picadas dos marimbondos que espalharam o pânico na sua freguesia e na parentela que, insensatamente tomara parte naquela "gracinha". Mais tarde foi chamado à polícia e derreteu-se em escusas e lágrimas.

Estripado o judas num desfile rápido que se encerrava com a sua cremação, saía a malta gritante à procura de outro boneco e, findo esse expediente, ia assistir a queima de fogos em frente da matriz.

Para fogos de festas públicas e repiques de sinos os grandes artistas foram sempre caboclos ou mulatos. A arte dos fogos era peculiar a certas famílias. Em Campinas eram os Ribas d’Avila [?], paulistanos genuínos, homens da roça ou de ofícios manuais, em que se tornaram habilíssimos, os grandes artistas. Ninguém discutia na encomenda: eram eles os contratados. Um mês antes das festas, já estavam abastecidos do material necessário para esses estrondos – pólvora, clorato de potássio, sulfatos de cobre, de magnésio e de bário, pó de ferro, estopa, barbante e os gomos de taquara, de que em geral possuíam vasta provisão.

Mas não era menos valiosa a contribuição dos sineiros.

Nesta capital não há sineiros. As torres de nossas igrejas, possuidoras de sinos médios e grande não dispõem do elemento humano para os repiques.

Não incluiremos nesta referência as que têm carrilhão, como a moderníssima e já tão afamada igreja de Nossa Senhora do Sagrado Coração de Vila Formosa, nem a potente torre da Abadia de São Bento – aquela em lugar distante, esta bem no coração da cidade que essa ordem benemérita viu nascer e crescer e está acompanhando em suas passadas de gigante.
Mas o carrilhão e os sinos da torre, que soam e vibram através de instalações elétricas representam o aperfeiçoamento, o requinte da aparelhagem mecânica que obedece a mãos invisíveis de um monge que trabalha num teclado como se tocasse num órgão de catedral.

Os sinos das torres das igrejas do interior – e falo das que conheço porque muitas vezes acompanhei, com olhos de admiração e inveja, os seus "tocadores" – são trabalhados, ou eram trabalhados por meninotes e rapazes desabusados, na maioria mulatinhos de pé leve e cara astuta que, para aquele bimbalhar e aquelas combinações não temiam concorrentes. Na Matriz Velha havia um moleque chamado João Capilé que, com a colaboração de um preto espigado e desordeiro chamado Columbano, tocava sino empregando sua extraordinária "virtuose" espichado no chão, com as cordinhas dos sinos menores amarrados no dedão de cada um dos pés e as dos médios nos dedos da mão.

Começava as escalas e tirava depois combinações e acordes surpreendentes tocando depois o sino grande com uma tira de couro grosso em cuja ponta ele fazia um taco no qual introduzia a cabeça, firmando o laço na nuca.

Às vezes, para variar a sinfonia e descansar o corpo, convocava o assistente e mandava dobrar ou badalar em cadência diversa um dos sinos grandes enquanto ele mantinha o ritmo compassado nos demais. Aquilo era arte pura, arte de invenção do moleque que fez escola, e escola de "ouvido".

Esse toque que se ouve comumente mencionado como o toque festivo de recepção a entidades eclesiásticas de pro:

– Galinha, leitão
Sinhó Bispo aí vem –

exige destreza e talento do sineiro que deve trabalhar com três sinos para o repenicado e um outro, de voz grossa, para o fecho.

Nunca houve em Campinas – como infelizmente, sucedeu em Itu – debate ou litígio judicial a propósito de dobre de sinos. É verdade que não houve, tão pouco, abusos da parte dos encarregados dessas transmissões das "vozes de bronze" pelos espaços. Certa feita alguns sujeitos, não por delicadeza dos tímpanos, porventura irritados com os dobre do Bahia, que é o sino grande da Matriz Nova, mas por antipatias mal comprimidas e quisilias originadas de suas propeasões anti-religiosas (pois se diziam livre pensadores ateus), reclamaram da Municipalidade contra o excessivo badalar dos sinos das duas matrizes. Foi, porém, tão pronta e veemente a reprovação pública contra esse memorial, ou coisa que o valha, que os reclamantes se aquietaram e o papel foi mandado a merecido arquivamento.

A função do sineiro, desde os tempos em que a irmandade do Santíssimo Sacramento tinha situação privilegiada na matriz que estava sendo erigida, isto é, desde 1892, ano em que esse sino foi içado, era função remunerada e de confiança outorgada a irmãos de boa conduta e vida regrada. O sineiro oficial foi um mulato apelidado Luiz Corneta, que aos predicados básicos acrescentava outros ainda mais estridentes, pois fazia a venda de jornais e "folhas volantes" com pregão nas ruas da cidade embocando uma corneta ou trompa de caça com fitas multicores.

Foi ele que teve a honra de fazer soar, como primeiro, o sino grande. Era trabalho para homem ágil, pois o dobre era conseguido com a deslocação do sino na sua trave, movendo-se aquela massa de bronze de um lado para o outro, enquanto o badalo tangia pesadamente a face interna do colosso. Quando Luiz Corneta morreu em 1903, com vencimentos mensais de 10$000, já o encargo dos repiques era partilhado pelos moleques que dele haviam recebido lições e exemplos. Aperfeiçoaram a habilidade nos toques embora relaxassem muito quanto ao procedimento na vida. Moleque-sineiro era quase sinônimo de vadio e lunante.

Estive pensando em tudo isso nestes dias últimos de comemorações da Semana Santa que hoje se encerra com a festa da ressurreição. Essas lembranças vão daqui confusa e atropeladamente narradas, para matar saudades de alguns e provocar a atenção de outros que porventura conhecem essas belezas do passado, tão singelas na sua espontaneidade e tão acordes com a vida de nossa gente, naquelas eras de modéstia, recato e simplicidade.



(Lobo, Pelágio. "Judas, foguetório, e repiques de sinos". Correio Paulistano. São Paulo, 13 de abril de 1952)

Armando Bordalo da Silva


Dentre os brinquedos populares de Bragança, no estado do Pará, notamos o conhecido pelo nome de serra-a-velha, que parece fadado a desaparecer. Serra-a-velha é uma diversão promovida durante a noite, nas três últimas quartas-feiras de Quaresma. Rapazes estouvados postam-se à porta da casa de uma pessoa encanecida, a fim de procederem ao inventário dos bens que possui ou dos que forem imaginados na ocasião. Levando serrotes, latas, "onça" (cuíca) e um gato preso num paneiro, os foliões aproximam-se, silenciosamente, da residência do velho ou velha e com voz cavernosa chamam-no repetidas vezes. Quando os velhos respondem, rompem numa assuada infernal. Friccionam o serrote nas latas, tocam a "onça", torcem o rabo do gato que mia de dor, acompanhado pelo choro ruidoso dos foliões. A uma pausa lêem, aos gritos, o testamento original e faceto: "Deixo isto para fulano, deixo aquilo para sicrano, etc.". Não raro a pessoa "serrada" desanda em impróperios, o que provoca maior alarido dos galhofeiros; redobram os gritos e choros, fazendo o gato miar, desesperadamente, serrando com maior furor as latas, acionando a "onça", no intuito de abafar as explosões de ira dos velhos. De inopino, abre-se a janela, e um jato de água ou de outro qualquer líquido, violentamente jogado, faz bater em retirada o rapazio irreverente, o qual, rindo a bandeiras despregadas, vai para outra operação galhofeira. Ao amanhecer, por via de regra, na "cabeça da ponte" é o comentário de todas as rodas, divulgando-se as peripécias, os detalhes pitoresco da brincadeira daquela noite quaresmal.



(Silva, Armando Bordalo da. "Serra-a-velha". A Gazeta. São Paulo, 25 de agosto de 1962)

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