Pelágio Lobo
As festas da Semana Santa, para os que, como eu, passaram a meninice e boa parte da
juventude em cidade do interior, mormente em cidade culta como Campinas, cuja população
acompanhava com fervor e unção essas comemorações têm quanto à sua parte externa um
doce sabor evocativo.
A intensidade e as complicações extenuantes da vida numa capital como São Paulo, em que
tantos credos religiosos se acotovelam, ao lado do credo católico e à compita com os de
credo negativo, indiferente ou frouxo, tiraram às comemorações antigas parte
considerável da sua pompa e suprimiram delas muitos atos e cerimônias.
Em Campinas só havia uma procissão de enterro e nela tomava parte o elemento social de
alta categoria de certas irmandades, ao lado de elementos modestos de outras; era, porém,
a cidade inteira, pelos seus elementos de representação, ilustres ou modestos que nesses
desfiles figurava. Com a fundação da Diocese em 7 de junho de 1907 e a designação para
seu primeiro bispo do preclaro, imponente e verdadeiramente insígne dom João Batista
Corrêa Nery, "conde romano prelado doméstico de sua santidade e assistente ao Trono
Pontíficie" como era qualificado nos documentos oficiais por outorga de sua
santidade o papa Pio X, as festas da Semana Santa assumiram maior esplendor e maior
gravidade.
O bispo de Campinas tomava parte nelas, proferia os sermões da série quaresmal e, na
procissão de enterro, fechava o imenso cortejo solene e majestosamente em suas vestes de
longa cauda de vermelho escuro, logo após o pálio em que seguia o esquife do Senhor
Morto.
Um silêncio absoluto, em todas as ruas, em todas as esquinas, dava à cidade, em céu
aberto, a unção e o recolhimento que predominavam dentro das paredes da Catedral.
Já, porém, no sábado após a missa de Aleluia e queima do círio pascal, a porta grande
da Matriz Nova, recomeçava o alvoroço: com o bimbalhar de sinos após o "Gloria
in excelsis Deo", vinha o estrondo de morteiros e o pipocar da foguetaria, que
esfuziava dos suportes de ferro fincados no chão da praça José Bonifácio, onde hoje se
ergue a estátua daquele bispo.
E os sinos rompiam em sinfonias, acordes e escalas que atingiam com suas vozes os confins
do município e se ampliava em ecos por cima das colinas e dos banhados. Na cidade e nos
bairros que a circundam, em muitas esquinas e cantos de praça, a molecada rodeava os
mastros dos judas, à espera do toque de meio-dia, para estripar o Iscariote. A
aglomeração era enorme e cada qual procurava decifrar, naquele boneco de pano, amarrado
com arame num poste, em geral, um pau de sebo untado de graxa, óleo grosso ou sabão, que
seria "ele", qual o tipo humano vivo que a malquerença de um desafeto convertia
em judas para regalo da molecada.
Com atrativo sedutor, o judas muitas vezes ostentava nas mãos bem presas por laços de
barbante pespontados com agulha de sacaria, umas pelegas verdes de dez mil réis que a
macacada fitava com olhos gulosos, na esperança de as poder agatanhar logo que o
manipanço fosse derribado daquele trono grotesco.
E havia moleques especializados em marinhar pelo poste acima, vencendo a superfície lisa
e bem untada; para isso afundavam mãos e pés em areia grossa, levavam suprimento nos
bolsos das calças e com esse expediente iam trepando, trepando, ante os incitamentos dos
que ficavam no chão à espera da sua vez. Mas a provisão de areia não bastava para
neutralizar o efeito daquela massa de gordura e graxa e o valente escorregava poste
abaixo, entre alaridos, assovios estridentes e apupos dos outros candidatos.
"Sai pichote: Larga do poste, molengo... (quando não ditos piores e mais
crus). Deviam ser assim os prélios e justas das festas populares portuguesas em que o
"mastro de cocanha" era o atrativo maior dos meninotes e de marmanjões, com
fôlego e boas pernas para essas façanhas.
Os meninos do meu tempo, que não tinham permissão paterna para essas peraltices,
esgueiravam-se de casa e iam engrossar a massa dos malhadores de judas em bairros
distantes. Quantas vezes não fui eu para o largo de São Benedito ou para a Ponte Preta
assistir a essa estripações com plema autonomia de movimento....
Derribado o judas, com ou sem pelega, passava-se a esventrá-lo tirando-lhe do bucho de
palha, a serragem e a roupa velha que o fazia gorducho e balofo. Houve um caso mais
sério, em que certo manipulador desses bonifrates, armando o judas como espantalho, com
braços que se moviam, metera no bojo, dentro de uma caixa de pau, uma casa de
marimbondos, e pode-se imaginar o que aconteceu quando aqueles trapos foram dilacerados. O
único consolo da meninada foi que o autor daquela estupidez, à porta da sua vendinha,
foi o primeiro punido pelas picadas dos marimbondos que espalharam o pânico na sua
freguesia e na parentela que, insensatamente tomara parte naquela "gracinha".
Mais tarde foi chamado à polícia e derreteu-se em escusas e lágrimas.
Estripado o judas num desfile rápido que se encerrava com a sua cremação, saía a malta
gritante à procura de outro boneco e, findo esse expediente, ia assistir a queima de
fogos em frente da matriz.
Para fogos de festas públicas e repiques de sinos os grandes artistas foram sempre
caboclos ou mulatos. A arte dos fogos era peculiar a certas famílias. Em Campinas eram os
Ribas dAvila [?], paulistanos genuínos, homens da roça ou de ofícios manuais, em
que se tornaram habilíssimos, os grandes artistas. Ninguém discutia na encomenda: eram
eles os contratados. Um mês antes das festas, já estavam abastecidos do material
necessário para esses estrondos pólvora, clorato de potássio, sulfatos de cobre,
de magnésio e de bário, pó de ferro, estopa, barbante e os gomos de taquara, de que em
geral possuíam vasta provisão.
Mas não era menos valiosa a contribuição dos sineiros.
Nesta capital não há sineiros. As torres de nossas igrejas, possuidoras de sinos médios
e grande não dispõem do elemento humano para os repiques.
Não incluiremos nesta referência as que têm carrilhão, como a moderníssima e já tão
afamada igreja de Nossa Senhora do Sagrado Coração de Vila Formosa, nem a potente torre
da Abadia de São Bento aquela em lugar distante, esta bem no coração da cidade
que essa ordem benemérita viu nascer e crescer e está acompanhando em suas passadas de
gigante. |
Mas o carrilhão e os sinos da
torre, que soam e vibram através de instalações elétricas representam o
aperfeiçoamento, o requinte da aparelhagem mecânica que obedece a mãos invisíveis de
um monge que trabalha num teclado como se tocasse num órgão de catedral.
Os sinos das torres das igrejas do interior e falo das que conheço porque muitas
vezes acompanhei, com olhos de admiração e inveja, os seus "tocadores"
são trabalhados, ou eram trabalhados por meninotes e rapazes desabusados, na maioria
mulatinhos de pé leve e cara astuta que, para aquele bimbalhar e aquelas combinações
não temiam concorrentes. Na Matriz Velha havia um moleque chamado João Capilé que, com
a colaboração de um preto espigado e desordeiro chamado Columbano, tocava sino
empregando sua extraordinária "virtuose" espichado no chão, com as cordinhas
dos sinos menores amarrados no dedão de cada um dos pés e as dos médios nos dedos da
mão.
Começava as escalas e tirava depois combinações e acordes surpreendentes tocando depois
o sino grande com uma tira de couro grosso em cuja ponta ele fazia um taco no qual
introduzia a cabeça, firmando o laço na nuca.
Às vezes, para variar a sinfonia e descansar o corpo, convocava o assistente e mandava
dobrar ou badalar em cadência diversa um dos sinos grandes enquanto ele mantinha o ritmo
compassado nos demais. Aquilo era arte pura, arte de invenção do moleque que fez escola,
e escola de "ouvido".
Esse toque que se ouve comumente mencionado como o toque festivo de recepção a entidades
eclesiásticas de pro:
Galinha, leitão
Sinhó Bispo aí vem
exige destreza e talento do sineiro que deve trabalhar com três sinos para o repenicado e
um outro, de voz grossa, para o fecho.
Nunca houve em Campinas como infelizmente, sucedeu em Itu debate ou litígio
judicial a propósito de dobre de sinos. É verdade que não houve, tão pouco, abusos da
parte dos encarregados dessas transmissões das "vozes de bronze" pelos
espaços. Certa feita alguns sujeitos, não por delicadeza dos tímpanos, porventura
irritados com os dobre do Bahia, que é o sino grande da Matriz Nova, mas por
antipatias mal comprimidas e quisilias originadas de suas propeasões anti-religiosas
(pois se diziam livre pensadores ateus), reclamaram da Municipalidade contra o excessivo
badalar dos sinos das duas matrizes. Foi, porém, tão pronta e veemente a reprovação
pública contra esse memorial, ou coisa que o valha, que os reclamantes se aquietaram e o
papel foi mandado a merecido arquivamento.
A função do sineiro, desde os tempos em que a irmandade do Santíssimo Sacramento tinha
situação privilegiada na matriz que estava sendo erigida, isto é, desde 1892, ano em
que esse sino foi içado, era função remunerada e de confiança outorgada a irmãos de
boa conduta e vida regrada. O sineiro oficial foi um mulato apelidado Luiz Corneta, que
aos predicados básicos acrescentava outros ainda mais estridentes, pois fazia a venda de
jornais e "folhas volantes" com pregão nas ruas da cidade embocando uma corneta
ou trompa de caça com fitas multicores.
Foi ele que teve a honra de fazer soar, como primeiro, o sino grande. Era trabalho para
homem ágil, pois o dobre era conseguido com a deslocação do sino na sua trave,
movendo-se aquela massa de bronze de um lado para o outro, enquanto o badalo tangia
pesadamente a face interna do colosso. Quando Luiz Corneta morreu em 1903, com vencimentos
mensais de 10$000, já o encargo dos repiques era partilhado pelos moleques que dele
haviam recebido lições e exemplos. Aperfeiçoaram a habilidade nos toques embora
relaxassem muito quanto ao procedimento na vida. Moleque-sineiro era quase sinônimo de
vadio e lunante.
Estive pensando em tudo isso nestes dias últimos de comemorações da Semana Santa que
hoje se encerra com a festa da ressurreição. Essas lembranças vão daqui confusa e
atropeladamente narradas, para matar saudades de alguns e provocar a atenção de outros
que porventura conhecem essas belezas do passado, tão singelas na sua espontaneidade e
tão acordes com a vida de nossa gente, naquelas eras de modéstia, recato e simplicidade.
(Lobo, Pelágio. "Judas, foguetório, e repiques de sinos". Correio
Paulistano. São Paulo, 13 de abril de 1952)

Armando Bordalo da Silva
Dentre os brinquedos populares de Bragança, no estado do Pará, notamos o conhecido pelo
nome de serra-a-velha, que parece fadado a desaparecer. Serra-a-velha é uma diversão
promovida durante a noite, nas três últimas quartas-feiras de Quaresma. Rapazes
estouvados postam-se à porta da casa de uma pessoa encanecida, a fim de procederem ao
inventário dos bens que possui ou dos que forem imaginados na ocasião. Levando serrotes,
latas, "onça" (cuíca) e um gato preso num paneiro, os foliões aproximam-se,
silenciosamente, da residência do velho ou velha e com voz cavernosa chamam-no repetidas
vezes. Quando os velhos respondem, rompem numa assuada infernal. Friccionam o serrote nas
latas, tocam a "onça", torcem o rabo do gato que mia de dor, acompanhado pelo
choro ruidoso dos foliões. A uma pausa lêem, aos gritos, o testamento original e faceto:
"Deixo isto para fulano, deixo aquilo para sicrano, etc.". Não raro a pessoa
"serrada" desanda em impróperios, o que provoca maior alarido dos galhofeiros;
redobram os gritos e choros, fazendo o gato miar, desesperadamente, serrando com maior
furor as latas, acionando a "onça", no intuito de abafar as explosões de ira
dos velhos. De inopino, abre-se a janela, e um jato de água ou de outro qualquer
líquido, violentamente jogado, faz bater em retirada o rapazio irreverente, o qual, rindo
a bandeiras despregadas, vai para outra operação galhofeira. Ao amanhecer, por via de
regra, na "cabeça da ponte" é o comentário de todas as rodas, divulgando-se
as peripécias, os detalhes pitoresco da brincadeira daquela noite quaresmal.
(Silva, Armando Bordalo da. "Serra-a-velha". A Gazeta. São Paulo, 25 de
agosto de 1962)
|