Jangada Brasil – abril 2003 – nº 56 – Imaginário – Poronominare

ORONOMINARE

 

 

Recolhida por Brandão de Amorim

 

1. Um dia, contam, o velho Karuá foi pescar na cachoeira do Bubure, não disse em casa para onde foi.

2. O dia já queria acabar, ele ainda não tinha chegado, sua filha assustou-se por isso, disse:

3. Onde está será paíca, ninguém sabe para onde ele foi, vou procurá-lo pela beira do rio.

4. Imediatamente, contam, ela foi, não avisou também a ninguém para onde ia.

5. Quando já estava na beira do rio a lua saiu faceira no céu.

6. Luz dela era fria, clara como o dia.

7. Então, contam, a moça sentou-se no chão, olhu direito para ela.

8. Do meio dela viu sair um vulto, esse vulto veio descendo para a terra.

9. No mesmo momento, contam, sono grande adormeceu-a.

10. Quando acordou de manhã cedo a lua já se sumia no outro lado do céu, era agora vermelha a luz dela.

11. Queria chorar porque seu coração estava triste.

12. Seu pai, contam, chegou em casa à meia-noite, procurou-a, não achou, coração dele fez logo: tique!

13. Como ele era pajé sondou imediatamente para ver onde estava sua filha.

14. Só lhe aparecia porção de sombras que se tropelavam todas.

15. Cheirou bem paricá, acendeu outro tabaco, sondou de novo.

16. Agora apareceu-lhe uma sombra de homem subindo da terra para o céu.

17. Quis ainda agarrar a sombra, aí mesmo então, contam, fechou os olhos, dormiu.

18. Quando acordou, contam, olhou tolo para todos os lados, depois disse:

19. Para onde iria será minha filha!

20. Eu sondo, para ver onde ela está, sombra porção se atropela diante de minha sombra.

21. Paciência, eu hei de encontrá-la aqui, se não for aqui há de ser no céu.

22. Desde esse dia, contam, Kauará procurava todo o dia filha dele por meio de sua pajeçagem.

23. Filha dele, contam, foi descendo o rio de manhã cedo.

24. Esse dia ela anoiteceu em cima duma serra, a lua saiu mais bonita para ela, agora a sua luz lhe dançava nos olhos.

25. Como estava cansada, contam, dormiu logo.

26. No meio da noite, sonhou que tinha uma criança macho dono de todas as coisas.

27. Corpo dele era claro, a sombra do dia nele aparecia de um lado para outro lado.

28. Quando acordou, contam, o dia já vinha vermelhando, havia barulho n’água.

29. Olhou então, contam, para todos os lados, conheceu que a água estava crescendo, que ela mesma estava para ir ao fundo!

30. Viu para baixo uma ilha, nadou para lá.

31. Quando já queria chegar dela um peixe mordeu sua barriga, tirou dela alguma coisa.

32. Já em terra, contam, sentiu sua barriga rasgada, meteu dentro a mão, não sentiu nada.

33. Como água ia crescendo sempre, a ilha ia mergulhando também, quis trepar numa árvore, não sabia.

34. Nesse momento, contam, veio um caripira sentar junto dela numa árvore, ela então disse a ele:

35. Caripira, vê minha desgraça, me leva contigo para cima dessa árvore.

36. Caripira, contam, respondeu:

37. Sim, eu vou dar-te uma puçanga, esfrega com ela teu corpo, engole o resto.

38. Assim, contam, ela fez, quando engoliu o resto da puçanga virou guariba, trepou logo para cima da árvore.

39. Seu pai já tinha visto que o filho de sua filha estava na terra.

40. Ele jejuava, sondava para encontrar seu neto.

41. Um dia, contam, ele viu por meio da sua sombra uma gente com cabeça de pássaro.

42. Seu coração aconselhou logo ir nesse dia para o mato procurar seu neto.

43. Assim, contam, ele fez, o dia já vinha vermelhando quando pegou suas flechas, foi para o mato.

44. Todo animal que ia deparando pelo caminho ele pensava ser seu neto.

45. Já na beira dum iagarapé, contam, ele encontrou aquela gente que tinha cabeça de pássaro.

46. Ele cantava como bacaco, fitando o sol.

47. O velho, seu avô, chegou-se junto dele, deixou suas flechas, disse:

48. Meu neto, eu estou com fome, aqui está meu arco, minha flecha, vai caçar para nós comermos.

49. Ele, contam, falou assim somente, depois voltou pelo caminho por onde tinha vindo, chegando um pouco longe parou, disse:

50. Quem sabe se este é mesmo meu neto, vou experimentar se é mesmo ele.

51. No mesmo instante, contam, virou lagarto, voltou.

52. Quando a gente que tinha cabeça de pássaro viu o teiú passar junto dele virou gente de verdade, entesou o arco, flexou no teiú bem na cabeça.

53. O teiú correu, deixou a flecha aí mesmo, quando chegou longe tornou a virar gente, disse:

54. É mesmo meu neto, quase me mata.

55. O neto do velho, contam, foi matando o que encontrou diante dele.

56. Já com a noite ele chegou onde o velho, trazia caça porção, disse:

57. Meu avô, aqui está minha embiara, tuas flechas são boas, só escapou de mim um teiú porque a flecha saiu da sua cabeça.

58. Muito bem, meu neto, vamos comer, eu vou cozinhar tua embiara.

59. O velho, contam, cozinhou a embiara, depois disse:

60. Meu neto vamos já comer, estou cansado, já quero dormir.

61. Eles começaram comendo, aí então, contam, o moção viu ferida grande na cabeça do seu avô, perguntou:

62. Quem então fez essa ferida na tua cabeça?

63. Ele respondeu:

64. Uma daridari cega que bateu em mim.

65. Sol queimou seus olhos, anda agora à toa.

66. Quando acabaram de comer o moço foi para o terreiro aprender a flechar bem, o velho entrou no quarto para sondar.

67. Essa noite tudo aparecia bonito na sua imaginação.

68. Viu filha dele já virada em guariba na ilha quase a morrer de fome.

69. De manhã, bem cedo, contam, disse para seu neto:

70. Meu neto, vamos salvar das águas porção de bichos que já querem ir para o fundo.

71. Imediatamente, contam, eles embarcaram na canoa, desceram o rio.

72. Quando chegaram na ilha água estava já pelo meio da árvore.

73. A guariba filha do velho estava magra, seus ossos apareciam bem.

74. Eles querem agarrá-la, ela pula para outra árvore.

75. Assim andam atrás dela, o velho já está cansado, diz:

76. Esta guariba não nos deixa chegar nela, vou atirá-la com uma pedra, apara-a nos teus braços para ela não se bater contra a canoa.

77. Assim, contam, eles fizeram.

78. O moço foi ficar debaixo da guariba, o velho atirou na guariba uma pedra.

79. Quando ela vinha caindo abriu-se como tolda, escondeu o moço, aí mesmo virou-se de gente.

80. O velho desceu ligeiro, quando chegou dentro da canoa já encontrou sua filha gente, sua barriga já era grande, já tinha dentro seu filho.

81. O velho, contam, remou logo para casa, quando chegou no porto disse para ela:

82. Minha filha, vamos já para casa, tem lá comida para tu comeres.

83. Quando a moça acabou de comer sono grande se pegou nela, acordou somente no sol do outro dia, disse:

84. Paíca, sonhei porção de coisas bonitas, são mesmo bonitas, vou contá-las a ti.

85. Sonhei que este filho que tenho dentro de mim eu o tive em cima de uma serra grande.

86. Corpo dele era transparente, preto seu cabelo, veio falando.

87. Quando eu o tive os animais vieram para junto dele alegrá-lo.

88. Anoiteceu meu filho tinha fome, meus peitos estavam secos, ele chorava.

89. Nesse momento um bando de beija-flores, com outro bando de borboletas trouxeram mel de flor, deram para ele.

90. Ele calou-se logo, seu rosto alegrou-se, os animais o lambiam de alegria.

91. Como eu estava cansada deitei meu filho perto de mim, dormi.

92. Quando acordei no outro dia meu filho estava longe de mim no comprimento de uma flecha.

93. Quis ir para junto dele, os animais não me deixaram passar, gritei por meu filho.

94. Aí mesmo então vi o bando de borboletas supendê-lo no ar, vir para meu lado.

95. Quando chegaram junto de mim peguei nele, sobre mim pousaram as borboletas.

96. Nesse momento os animais me cercaram, puseram-se em pé encostados em mim para lambê-lo.

97. Eu senti ciúme de meu filho, levantei-o na altura da minha cabeça, o peso dos animais me derrubou, meu filho ficou suspenso nas asas das borboletas.

98. Aqui eu acordei, ainda julguei verdadeiro meu sonho, olhei para toda parte para procurar meu filho.

99. Já depois ele buliu dentro de mim, lembrei-me então de tudo.

100. O velho escutou no meio de silêncio grande sonho de sua filha, disse no fim:

101. É bonito mesmo teu sonho, minha filha.

102. Tu não te lembras será da serra onde estiveste?

103. Ela respondeu:

104. Não, paíca, só o que eu sei é que o pé da serra nasce na beira do rio.

105. O velho depois de ouvir o sonho de sua filha foi sondar por meio da sua pajeçagem.

106. Ele viu que aquele seu neto que ainda estava dentro de ua filha era o dono da terra.

107. Essa noite era para sua filha tê-lo.

108. Depois de sondar veio para casa, a noite escondeu a terra.

109. Sono grande agarrou-se nele, ele dormiu.

110. Pelo meio da noite, contam, todo animal da terra acordou alegre, em sua alegria cantava bonito.

111. Barulho como de vento se ouvia também pelo céu.

112. Era, contam, pássaros que andavam procurando aquele que tinha nascido.

113. Já de manhã cedo, contam, o velho acordou-se espantado de ouvir barulho grande, perguntou aos animais:

114. Que então se passa no meio de nós?

115. Todos responderam:

116. Nasceu Poronominare, dono da terra, dono de céu.

117. Onde?

118. Em cima da serra do Jacami.

119. Imediatamente, contam, o velho partiu para a serra do Jacami, quando chegou no tronco não pôde subir porque também porção de animais estavam por lá.

120. Ele virou-se, contam, jacuruaru, subiu.

121. Poronominare estava sentado no cimo da serra som uma sarabatana na mão.

122. Estava dividindo a terra, mostrando a cada animal o seu lugar.

123. Assim, contam, anoiteceu, quando o outro dia apareceu tudo estava calado na serra do Jacami, somente a figura dum jacuruaru grande estava encostado na pedra.

124. Longe, para o lado em que o sol se deita, a gente ouvia a cantiga da mãe do Poronominare.

125. Era ela, contam, que cantava enquanto as borboletas a iam levando para o céu.

(Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. 2ª ed. São Paulo, Livraria Martins, 1954, v.2, p.433-439)

 

 

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