Thelma Regina Siqueira
Linhares
Identificar o século XX por inventos não é tarefa fácil, haja a vista, a imensa
diversidade de invenções que caracterizaram os últimos cem anos da história da
humanidade. Invenções simples às mais sofisticadas, complexas e/ou científicas fizeram
a história do cotidiano do ser humano, nesse século recém-findo. Seja como componente
integrante e significativo do dia-a-dia, seja como um referencial, um ouvir falar, às
vezes longínquo, não compreendido, não fazendo parte da realidade do aqui e agora, dos
diferentes povos do nosso planeta Terra. E, por serem tão variadas e abrangentes
refletiram, com certeza, em todas as atividades da vivência humana,
interferindo/modificando/reforçando/reinventando a sua aventura, desequilibrando o status
quo do relacionamento homem-mulher.
A mulher, especialmente nesse século XX, jamais será a mesma. Muitas foram as
invenções colocadas a seu dispor e que tiveram como conseqüência a
evolução/revolução do seu papel sócio-cultural, até, então, de sexo frágil.
Absorvente, pílula anticoncepcional, camisinha, inclusive feminina, AIDS. Mini-saia,
silicone, carro, celular, aparelhos eletrodomésticos. Igualdade de direitos ao homem,
garantida pela Constituição. Trabalhar fora, direito à escolha do companheiro,
divórcio, inseminação artificial, produção independente, desestruturação familiar.
Enfim, uma gama de pequenos e grandes inventos que permitiram à mulher assumir novos e
outros papéis na sociedade, além daquele milenar, de mãe e dona de casa, já
sacramentados em todas as sociedades, desde o aparecimentos da humanidade e a
especificidade dos sexos.
O folclore, como ciência do pensar, sentir e agir do povo, tem nos assuntos relacionados
à mulher e às fases que caracterizam a sua fisiologia, temática rica e variada. As
cantigas de ninar e de roda e as histórias da carochinha... as crendices, superstições,
tabus e faz-mal... as receitas de comes e bebes... os ditos e anedotário... são alguns
dos muitos elementos do folclore que refletem os conceitos e preconceitos das questões de
gênero.
O tema deste ensaio, Coisas de Mulher e Folclore, foi escolhido a partir da evolução
observada nos absorventes higiênicos. Das toalhinhas higiênicas e dos primeiros
absorventes presos em cintos com presilhas e calcinhas plásticas, da década de 1970 aos
atuais absorventes, aderentes, com e sem abas, anatômicos, fininhos e seguros, há um
passo largo em prol da higiene e da comodidade feminina, inegavelmente. E, como uma coisa
puxa outra, a curiosidade de pesquisar o universo do folclore feminino foi aguçada. Como
tabus, superstições e crendices são incorporados pelas jovens da era da informática?
Como mulheres vivenciam conceitos e preconceitos assimilados em outras etapas de vida?
Na expectativa de encontrar respostas para esses e outros questionamentos, começamos a
pesquisa bibliográfica e de campo, que registramos aqui os primeiros dados para a revista
on line Jangada Brasil. Disponibilizamos o e-mail folcloremulher@bol.com.br para eventuais
colaborações, sugestões ou críticas em algum aspecto do referido estudo, por parte dos
leitores jangadeiros.
Menina
No contexto social do próprio ambiente familiar, cabia à mulher - mãe, babá e,
anteriormente mucama a socialização dos fatos folclóricos às novas gerações.
Com a modificação dos papéis sociais da mulher-mãe, agora mão-de-obra responsável,
também, pelo sustento e sobrevivência da família, é a escola de Educação Infantil
(antigo pré-escolar) e a Educação Fundamental, que cabe tal função social. Incluir em
suas atividades cotidianas, a prática das brincadeiras populares, por exemplo, como
componente socializador de meninas e meninos, é uma medida eficaz para o aprendizado do
folclore entre as crianças.
Usar roupas de cor rosa, já no enxoval da menina. Brincar de casinha e utensílios do
lar, artesanalmente feitos ou produzidos em indústrias. Panelinhas de barro. Bonecas de
pano - as bruxinhas. São algumas expressões da fase mulher-menina.
Dentre as brincadeiras populares próprias do sexo frágil, figuram: pular amarelinha ou
academia, corda, elástico (popularizado na década de 1990), passar anel, brincar de
roda. Histórias da carochinha. Bruxas, fadas e príncipes, surgem e acompanham os sonhos
da menina-moça e, às vezes, até as fantasias da mulher madura.
Menina-moça
O corpo da menina, mais cedo que no menino, começa a sofrer transformações. A puberdade
começa e, em breve, dá lugar à adolescência. Época do surgimento de cravos e espinhas
- o terror da menina-moça. Para acabar com esse mal duas receitas, dizem, infalíveis:
passar, na área afetada pela acne, a primeira urina do dia ou o mênstruo do primeiro dia
da menstruação. Em ambos os casos, deixar agir por alguns minutos, lavando com bastante
água e o sabonete de uso diário. Repetir uma ou outra receita até atingir os objetivos.
Um método de provar a virgindade da donzela: pegar um cordão, cujo tamanho é obtido
pelo dobro da medida do seu pescoço. Segurando as duas pontas do cordão na boca, tentar
passá-lo pela cabeça. Se não conseguir, a jovem ainda é virgem.
Talvez, nessa fase biológica da mulher, a prática das superstições casamenteiras do
ciclo junino sejam mais comuns. Especialmente, no dia dos namorados (12 de junho) -
véspera de Santo Antônio (13 de junho) jovens namoradeiras, em adivinhações,
crendices e superstições diversas, buscam desvendar o futuro amoroso que as aguardam.
Rezando, lentamente, a oração Salve Rainha, deixa-se pingar a vela num prato ou bacia,
virgem, com água, até "mostrai-nos". A letra que for formada será a primeira
letra do futuro namorado...
Mulher
Coisas para passar dor de menstruação:
deitar-se ao lado e abraçar o travesseiro, na altura da barriga;
ao usar a privada, debruçar-se para à frente e abraçar um travesseiro;
usar uma bolsa de água quente na barriga;
beber chás caseiros: erva-doce, erva-cidreira, etc.
Coisas que devem ser evitadas durante o período menstrual:
tomar banho de mar ou piscina;
ir à praia;
praticar atividades físicas;
sentar ao chão;
sentar em lugar quente;
pegar em peso;
comer alimento remoso (porco ou peru);
comer crustáceos;
comer cebola e ovos - para não acentuar o mau-cheiro;
comer determinadas frutas ( abacaxi, laranja, manga, limão, jaca ou
banana-anã);
comer frutas com sementes na cor preta (pinha/ata, graviola, melancia, etc.)
andar descalça;
lavar os cabelos;
dormir sem calcinhas;
varrer a casa;
ter relações sexuais;
entrar em cemitério.
Coisas para chegar a menstruação:
tomar água inglesa;
tomar Regulador Xavier;
tomar banho quente;
tomar chás caseiros (erva-cidreira, alcachofra, cominho, quebra-pedra);
pular;
fazer exercícios físicos.
Superstições para uma gravidez saudável:
comer bem, evitando gorduras;
dieta saudável, alimentação leve;
dormir bem;
fazer exercícios moderados;
andar/caminhar;
não transar;
não tomar banho de mar;
não subir escadas;
não sentar em batentes;
não pegar em peso;
não colocar chave no seio para o bebê não nascer com lábio leporino;
não falar a ninguém que está grávida para o nenê nascer bonito;
ter os desejos realizados, pois do contrário, pode perder o bebê.
olhar fotos de gente bonita, para o bebê, também, nascer bonito;
não ir a zoológico, para o nenê não nascer com cara de macaco.
Superstições para passar enjôos:
chupar limão ou gelo;
apertar um limão inteiro;
cheirar casca de laranja descascada em fita;
cheirar canela;
cheirar as axilas do marido;
cheirar uma axila do marido, quando ele chegar da rua, suado e sem ele perceber;
tomar chás caseiros (louro, boldo, erva-doce);
mastigar grão de arroz;
mascar cravo da índia;
mascar um palito de fósforo;
colocar uma moeda dentro do sutiã;
segurar firme uma moeda com a mão bem fechada;
pedir ao marido para passar a perna por sobre seu corpo, enquanto estão
deitados.
Superstições para prever o sexo do bebê:
cortar um coração de galinha ao meio e pôr para cozinhar. Fechando, nascerá
menina.
se a barriga for redonda, menina. Se pontuda, menino;
colocar uma tesoura fechada e uma aberta, embaixo de duas almofadas. Se a
gestante sentar sobre a tesoura aberta, terá uma menina;
pedir a mão da gestante. Se ela estender a mão com as palmas para cima, terá
uma menina;
enjoar muito, nascerá uma garota;
fazer ultra-sonografia para saber o sexo do feto;
Para ter uma boa hora no parto:
rezar para Nossa Senhora do Bom Parto;
acender velas para Nossa Senhora do Bom Parto;
trazer consigo a imagem de Nossa Senhora do Bom Parto;
fazer a trezena para Nossa Senhora do Bom Parto;
muita oração;
ficar bastante calma e pensativa;
fazer respiração "cachorrinho";
tomar xícara de café quente com manteiga;
não dormir muito.
Outros nomes para menstruação:
boi;
tá de boi;
bezerra;
incomodada;
regrada;
(estar) doente;
mulher doente;
regra;
Chico;
marido;
TPM;
stressada, nervosa;
Piadas:
O monstro chamou a monstrinha:
- Vamos fazer um monstrengo?
- Não, pois estou monstruada!
Um rapaz na noite de núpcias, quando notou a mulher menstruada disse:
- Jogo adiado. Campo alagado...
Referências Bibliográficas:
SOUTO MAIOR, Mário. Os mistérios do faz-mal. 20-20.
CASCUDO, Luiz da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro.
MELLO, Luiz Gonzaga de. Mulher, comparação e machismo. FUNDAJ - Folclore 163 -
out/ 1985.
"Enjôos, sexo dos bebês e superstições de gravidez". O Povo, 2º
caderno. Fortaleza, 15/05/1986.
Colaboração da autora para a Jangada Brasil
(Linhares, Thelma Regina Siqueira. Coisas de mulher e folclore)