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Abril 2002
Ano IV - nº 44

COISAS DE MULHER E FOLCLORE

Thelma Regina Siqueira Linhares

Identificar o século XX por inventos não é tarefa fácil, haja a vista, a imensa diversidade de invenções que caracterizaram os últimos cem anos da história da humanidade. Invenções simples às mais sofisticadas, complexas e/ou científicas fizeram a história do cotidiano do ser humano, nesse século recém-findo. Seja como componente integrante e significativo do dia-a-dia, seja como um referencial, um ouvir falar, às vezes longínquo, não compreendido, não fazendo parte da realidade do aqui e agora, dos diferentes povos do nosso planeta Terra. E, por serem tão variadas e abrangentes refletiram, com certeza, em todas as atividades da vivência humana, interferindo/modificando/reforçando/reinventando a sua aventura, desequilibrando o status quo do relacionamento homem-mulher.

A mulher, especialmente nesse século XX, jamais será a mesma. Muitas foram as invenções colocadas a seu dispor e que tiveram como conseqüência a evolução/revolução do seu papel sócio-cultural, até, então, de sexo frágil. Absorvente, pílula anticoncepcional, camisinha, inclusive feminina, AIDS. Mini-saia, silicone, carro, celular, aparelhos eletrodomésticos. Igualdade de direitos ao homem, garantida pela Constituição. Trabalhar fora, direito à escolha do companheiro, divórcio, inseminação artificial, produção independente, desestruturação familiar. Enfim, uma gama de pequenos e grandes inventos que permitiram à mulher assumir novos e outros papéis na sociedade, além daquele milenar, de mãe e dona de casa, já sacramentados em todas as sociedades, desde o aparecimentos da humanidade e a especificidade dos sexos.

O folclore, como ciência do pensar, sentir e agir do povo, tem nos assuntos relacionados à mulher e às fases que caracterizam a sua fisiologia, temática rica e variada. As cantigas de ninar e de roda e as histórias da carochinha... as crendices, superstições, tabus e faz-mal... as receitas de comes e bebes... os ditos e anedotário... são alguns dos muitos elementos do folclore que refletem os conceitos e preconceitos das questões de gênero.

O tema deste ensaio, Coisas de Mulher e Folclore, foi escolhido a partir da evolução observada nos absorventes higiênicos. Das toalhinhas higiênicas e dos primeiros absorventes presos em cintos com presilhas e calcinhas plásticas, da década de 1970 aos atuais absorventes, aderentes, com e sem abas, anatômicos, fininhos e seguros, há um passo largo em prol da higiene e da comodidade feminina, inegavelmente. E, como uma coisa puxa outra, a curiosidade de pesquisar o universo do folclore feminino foi aguçada. Como tabus, superstições e crendices são incorporados pelas jovens da era da informática? Como mulheres vivenciam conceitos e preconceitos assimilados em outras etapas de vida?

Na expectativa de encontrar respostas para esses e outros questionamentos, começamos a pesquisa bibliográfica e de campo, que registramos aqui os primeiros dados para a revista on line Jangada Brasil. Disponibilizamos o e-mail folcloremulher@bol.com.br para eventuais colaborações, sugestões ou críticas em algum aspecto do referido estudo, por parte dos leitores jangadeiros.

Menina


No contexto social do próprio ambiente familiar, cabia à mulher - mãe, babá e, anteriormente mucama – a socialização dos fatos folclóricos às novas gerações. Com a modificação dos papéis sociais da mulher-mãe, agora mão-de-obra responsável, também, pelo sustento e sobrevivência da família, é a escola de Educação Infantil (antigo pré-escolar) e a Educação Fundamental, que cabe tal função social. Incluir em suas atividades cotidianas, a prática das brincadeiras populares, por exemplo, como componente socializador de meninas e meninos, é uma medida eficaz para o aprendizado do folclore entre as crianças.

Usar roupas de cor rosa, já no enxoval da menina. Brincar de casinha e utensílios do lar, artesanalmente feitos ou produzidos em indústrias. Panelinhas de barro. Bonecas de pano - as bruxinhas. São algumas expressões da fase mulher-menina.

Dentre as brincadeiras populares próprias do sexo frágil, figuram: pular amarelinha ou academia, corda, elástico (popularizado na década de 1990), passar anel, brincar de roda. Histórias da carochinha. Bruxas, fadas e príncipes, surgem e acompanham os sonhos da menina-moça e, às vezes, até as fantasias da mulher madura.

Menina-moça


O corpo da menina, mais cedo que no menino, começa a sofrer transformações. A puberdade começa e, em breve, dá lugar à adolescência. Época do surgimento de cravos e espinhas - o terror da menina-moça. Para acabar com esse mal duas receitas, dizem, infalíveis: passar, na área afetada pela acne, a primeira urina do dia ou o mênstruo do primeiro dia da menstruação. Em ambos os casos, deixar agir por alguns minutos, lavando com bastante água e o sabonete de uso diário. Repetir uma ou outra receita até atingir os objetivos.

Um método de provar a virgindade da donzela: pegar um cordão, cujo tamanho é obtido pelo dobro da medida do seu pescoço. Segurando as duas pontas do cordão na boca, tentar passá-lo pela cabeça. Se não conseguir, a jovem ainda é virgem.

Talvez, nessa fase biológica da mulher, a prática das superstições casamenteiras do ciclo junino sejam mais comuns. Especialmente, no dia dos namorados (12 de junho) - véspera de Santo Antônio (13 de junho) – jovens namoradeiras, em adivinhações, crendices e superstições diversas, buscam desvendar o futuro amoroso que as aguardam. Rezando, lentamente, a oração Salve Rainha, deixa-se pingar a vela num prato ou bacia, virgem, com água, até "mostrai-nos". A letra que for formada será a primeira letra do futuro namorado...

Mulher


Coisas para passar dor de menstruação:

• deitar-se ao lado e abraçar o travesseiro, na altura da barriga;

• ao usar a privada, debruçar-se para à frente e abraçar um travesseiro;

• usar uma bolsa de água quente na barriga;

• beber chás caseiros: erva-doce, erva-cidreira, etc.


Coisas que devem ser evitadas durante o período menstrual:

• tomar banho de mar ou piscina;

• ir à praia;

• praticar atividades físicas;

• sentar ao chão;

• sentar em lugar quente;

• pegar em peso;

• comer alimento remoso (porco ou peru);

• comer crustáceos;

• comer cebola e ovos - para não acentuar o mau-cheiro;

• comer determinadas frutas ( abacaxi, laranja, manga, limão, jaca ou banana-anã);

• comer frutas com sementes na cor preta (pinha/ata, graviola, melancia, etc.)

• andar descalça;

• lavar os cabelos;

• dormir sem calcinhas;

• varrer a casa;

• ter relações sexuais;

• entrar em cemitério.


Coisas para chegar a menstruação:

• tomar água inglesa;

• tomar Regulador Xavier;

• tomar banho quente;

• tomar chás caseiros (erva-cidreira, alcachofra, cominho, quebra-pedra);

• pular;

• fazer exercícios físicos.


Superstições para uma gravidez saudável:

• comer bem, evitando gorduras;

• dieta saudável, alimentação leve;

• dormir bem;

• fazer exercícios moderados;

• andar/caminhar;

• não transar;

• não tomar banho de mar;

• não subir escadas;

• não sentar em batentes;

• não pegar em peso;

• não colocar chave no seio para o bebê não nascer com lábio leporino;

• não falar a ninguém que está grávida para o nenê nascer bonito;

• ter os desejos realizados, pois do contrário, pode perder o bebê.

• olhar fotos de gente bonita, para o bebê, também, nascer bonito;

• não ir a zoológico, para o nenê não nascer com cara de macaco.


Superstições para passar enjôos:

• chupar limão ou gelo;

• apertar um limão inteiro;

• cheirar casca de laranja descascada em fita;

• cheirar canela;

• cheirar as axilas do marido;

• cheirar uma axila do marido, quando ele chegar da rua, suado e sem ele perceber;

• tomar chás caseiros (louro, boldo, erva-doce);

• mastigar grão de arroz;

• mascar cravo da índia;

• mascar um palito de fósforo;

• colocar uma moeda dentro do sutiã;

• segurar firme uma moeda com a mão bem fechada;

• pedir ao marido para passar a perna por sobre seu corpo, enquanto estão deitados.


Superstições para prever o sexo do bebê:

• cortar um coração de galinha ao meio e pôr para cozinhar. Fechando, nascerá menina.

• se a barriga for redonda, menina. Se pontuda, menino;

• colocar uma tesoura fechada e uma aberta, embaixo de duas almofadas. Se a gestante sentar sobre a tesoura aberta, terá uma menina;

• pedir a mão da gestante. Se ela estender a mão com as palmas para cima, terá uma menina;

• enjoar muito, nascerá uma garota;

• fazer ultra-sonografia para saber o sexo do feto;


Para ter uma boa hora no parto:

• rezar para Nossa Senhora do Bom Parto;

• acender velas para Nossa Senhora do Bom Parto;

• trazer consigo a imagem de Nossa Senhora do Bom Parto;

• fazer a trezena para Nossa Senhora do Bom Parto;

• muita oração;

• ficar bastante calma e pensativa;

• fazer respiração "cachorrinho";

• tomar xícara de café quente com manteiga;

• não dormir muito.


Outros nomes para menstruação:

• boi;

• tá de boi;

• bezerra;

• incomodada;

• regrada;

• (estar) doente;

• mulher doente;

• regra;

• Chico;

• marido;

• TPM;

• stressada, nervosa;


Piadas:

O monstro chamou a monstrinha:
- Vamos fazer um monstrengo?
- Não, pois estou monstruada!


Um rapaz na noite de núpcias, quando notou a mulher menstruada disse:
- Jogo adiado. Campo alagado...


Referências Bibliográficas:


SOUTO MAIOR, Mário. Os mistérios do faz-mal. 20-20.
CASCUDO, Luiz da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro.
MELLO, Luiz Gonzaga de. Mulher, comparação e machismo. FUNDAJ - Folclore 163 - out/ 1985.
"Enjôos, sexo dos bebês e superstições de gravidez". O Povo, 2º caderno. Fortaleza, 15/05/1986.


Colaboração da autora para a Jangada Brasil


(Linhares, Thelma Regina Siqueira. Coisas de mulher e folclore)

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