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Abril 2002
Ano IV - nº 44

O IMPORTANTE SENHOR DIABO E A MAGIA DAS UNHAS

"Era uma vez um homem que tinha muitos filhos. Tantos, que não sabia a quem convidar para compadre. Quando nasceu o último, falou: "Mulher! Eu vou sair para arranjar um padrinho para o nosso filho. Convido o primeiro que aparecer, nem que seja o diabo."
(Ruth Guimarães, in Os filhos do medo)

O diabo e toda a sua corte de demônios tentadores têm participação excepcional na vida educacional da família sertaneja do Nordeste. O problema assim posto, mais por curiosidade folclórica do que propriamente por discussão pedagógica, revela ângulos divertidos e curiosos que precisam, a vagar, ser esclarecidos, revelados por estudiosos da matéria.

O mais estranho de tudo isso é que a igreja, que detém sob a sua responsabilidade a educação cristã da gente interiorana, através do trabalho missionário, das pregações, levando a palavra do Senhor aos recantos mais distantes ensina exatamente a destruição do Satanás, o combate a este como triunfo alcançado por boas obras que redimem a criatura de pecados cometidos. E por que, indagamos então, prossegue o demônio sendo o personagem mais lembrado nas conversas familiares do sertão, a ponto de sua nomeação ser invocada em quase todos os momentos.

Diabo e Inferno são duas constantes ao redor da pacata existência familiar dos sertões. Desde cedo as crianças adaptam-se às condições de uma educação doméstica, que diríamos "infernal". Primeiro invocar o cão não causa surpresa a ninguém. E até os padres, principalmente os que descendem em linha direta de famílias sertanejas, sob o peso da influência ancestral, inocentemente o invocam.

Satanás é grito de guerra das crianças. Se levam um tombo, se dão topada, a imprecação preferida, antes de outra qualquer, será está: Diabo!

Os pais se acostumam a referir aos filhos, quando os contrariam, mais ou menos nestes termos: "Aquele diabinho, não tinha o que fazer, foi cegar o fio do machado!" Em outras circunstâncias: "Aquilo não é menino, é o diabo em figura de gente".

Procurando o filho, muitas vezes, é comum ouvir-se aos pais:

- Ó mulher, onde se escondeu o diabo do Zé?

Diante de repetidas invocações ao tinhoso, criam-se as crianças sujeitas a uma situação estranha, à qual, aos poucos, vão-se acostumando. É difícil entrar na compreensão infantil todo o mal que o diabo pode causar-lhes, mesmo porque é ele um personagem de convivência familiar, braço forte para determinados auxílios e rasteira para desprevenir as criaturas.

O diabo, nesse arcabouço educacional do sertão, não é só o desencaminhador de almas, o anjo expulso pelo Senhor por iniqüidades, mas figura aproximada do herói, espécie de Pedro Malazarte que vence os outros, ou o próprio João Felpudo.

Só mesmo essa conceituação demoníaca poderia permitir a coexistência pacífica de ambos (cão e criança) na vida comunitária rural. E enquanto vai crescendo o rebento da casa, pondo-se taludinho, como se diz entre nós, o rapazinho capitaliza uma série de histórias que se lhe contam a propósito do demônio, homenzinho esquisito que acaba sendo padrinho de meninos, disfarçado em velho, à boca da noite, a transviar as almas inocentes.

O culto ao diabo sofre manipulação de simpatia diária, a ponto de existir um provérbio que corre, com pasmosa freqüência, na voz do povo, a sublinhar exatamente esse estranho conceito: - O diabo não é tão feio como se pinta. Sim, o diabo não pode ser tão indesejável, pois é o ajudante, o secretário da família inteira. É nome argüido à hora dos aperreios, quando alguém necessita de auxílio. Surge nas discussões, nas conversas sérias, nos momentos de deboche Afinal, está em toda parte, ostensivamente perverso ou simplesmente tolerante às vezes.

Em certas ocasiões é somente o bicho, o coisa, o demo, o preto, o sujo, o pé de cabra, o pé de pato, o capiroto, chifrudo, ferrabrás, cujo, futrico, feio, nojento, bruxo, beiçudo, mau, negrão, peitica, condenado, afuleimado, imundo, excomungado, coxo, fute, capenga, maldito, rabudo, etc., etc.

Criado nesse contato com o demônio, a criança sertaneja - e podemos estender o raciocínio à educação inclusive dos centros urbanos mais adiantados - torna-se altamente receptível ao folclore que dele se origina, ajudando a propagá-lo entre amigos, e, posteriormente, na fase adulta, entre os próprios filhos.

O que se não pode negar, em sã consciência, é a importância do demônio, ou em outras palavras, a sua privilegiada posição de formação no caráter infantil. O problema não é só curioso, conforme entendemos, nem servirá simplesmente para subsidiar uma pesquisa de fundo sociológico. Andariam bem intencionados os professores, principalmente os especialistas no assunto que desejassem encontrar nessa distorção da educação doméstica do sertanejo vastíssimo campo para estudos de ordem científica.

O folclore, nessas ocasiões, está sempre presente, o que nos faz lembrar outro tema, o da magia das unhas, que serve até para corrigir criança desmazelada, infensa ao asseio, ao cuidado íntimo.

Menino de unhas compridas e sujas, se foi criado no nordeste brasileiro, por certo há de ter ouvido estas palavras dos lábios de sua genitora: "Daqui a pouco tu vira o João Felpudo, que foi morto pelos caçadores porque pensaram que ele era um bicho". João Felpudo, conta a estória, era um menino rebelde que nunca consentira em tomar banho, aparar as unhas, pentear ou cortar os cabelos. Vivia dentro do mato, acovilado, focinhando como os porcos, até que um dia foi abatido a tiros por um caçador.

Não herdamos apenas daí, é evidente, o respeito e atenção devotados às unhas. A feitiçaria, através dos tempos, a partir da Idade Média, quando aos olhos dos mais crédulos a medicina pareceu fracassar ao adotar os excretos no tratamento da "botica repugnante", não esqueceu nessa oportunidade a apara de unhas, terrível substância que toma posição definida na salvação da criatura humana mas no mal que deseja a outrem.

As garras - unhas aguçadas de feras - não compuseram noutras eras o quadro de luta entre os deuses, mas contribuíram para a formação de estranhas meizinhas e amuletos de proclamada força contra os elementos do mal que lhe rondavam os corpos sãos.

Do conceito em que são tidas as unhas, de certo modo é que herdamos uma série de frases amiúde escutadas à boca do homem do campo:

- Agarrou-se com unhas e dentes;

- Aquilo é um sabidão; dá uma unhada e esconde a unha.

- Fulano tem coragem de pegar touro a unha...

- É um besta. Pegou o pião na unha.

Diz-se também a propósito de pessoa sovina, que, no Nordeste, assume o designativo de "rezina": - é tão miserável que não passa de "unha de fome"...

No terreno das proibições, ninguém pode cortar unha às segundas-feiras. Falam que esse dia é consagrado às almas, quem assim fizer, está em desarmonia com elas, atitude que não desejam tomar os meninos, de modo algum. Na ordem dos feitiços é perigoso ingerir qualquer beberagem na qual tenha-se posto rapa de unha cortada...

- Não há veneno maior. A pessoa morre logo.

A respeito anotamos a expressão:

- Rapa de unha dentro do café, avexa o cristão.

Ruth Guimarães autora de excelente obra, Os filhos do medo, no capítulo intitulado "Princípios de magia pontaminante", faz referências às unhas: - Na feitiçaria, o sinal dos dentes num miolo de pão, a sombra, as roupas, o cabelo, as unhas, o nome, servem para fazer mal à distância.

Ainda a propósito de não recomendar o corte de unhas em determinados dias, aludo à superstição que "não presta cortar as unhas na Sexta-Feira Santa, porque o demônio levará as aparas para o inferno e terá poder sobre a alma do dono das unhas". E nos adianta mais: "Na superstição portuguesa (Consiglier, Pedroso) - não se deve cortar unhas na sexta-feira, porque nesse dia está o diabo cortando as suas também".

Os tasmânios, que segundo Brewton Berry, ignoravam tudo a respeito de vestimenta, casas, agricultura, criação de animais domésticos, etc., etc., "em se tratando de amuletos e feitiços, não havia nada de primitivo entre eles. Sabiam que os ossos do morto podiam ser usados para curar doenças, satisfazer vinganças contra os inimigos e impedir má influência. Entendiam de magia negra: sabiam que obtendo de um inimigo um fio de cabelo, aparas de unha (o grifo é nosso), ou qualquer outra coisa, poderiam livrar-se dele..."

O sertanejo não é ingênuo a ponto de permitir que outros recolham aparas de suas unhas. Teme sejam estas utilizadas contra a própria vida. Já ouvi narrativas de casos em que homens, descuidados nesse tocante, não se aperceberam que criaturas perversas apoderavam-se das aparas para fabricar filtros ou porções de amor...

O senhor Félix Molina-Tellez (em El mito, la leyenda e el hombre) registra que no interior da Argentina, "las unas del gato soltero son buenas para conquistar el ser querido, disuletas en el mate", o que nos serve elementos para confirmar que a utilização das aparas de unhas, quer de pessoas ou de animais, está representada no folclore do mundo inteiro.

As crianças do Ceará, amiúde, descobrem os amiguinhos mentirosos pelas pequenas manchas brancas que, por insuficiência orgânica, possivelmente de cálcio, surgem na parte posterior das unhas.

- Vamos ver quem tem mentido mais?

Cada mancha branca expressa uma inverdade. Mais mentiroso será aquele que tiver maior número de sinais sobre as unhas das mãos. Quando o sinal, com o crescimento normal das unhas, vai-se aproximando da área de eliminação pelo corte da tesourinha, dá motivo a comentários:

- A mentira ‘stá se sumindo. É sinal de que Deus esqueceu.

- Estou ficando sem "mentiras".

Mas nunca as crianças ficam sem elas.


(Campos, Eduardo. Cantador musa e viola, p.129-133)

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