A influência que os poderes
impressionistas e ilusórios exercem sobre a faculdade emocional dos espíritos fracos e
incultos é incontestável e incontestada.
Enquanto a incultura predominar no Brasil, as superstições campearão pelos nossos
ínvios sertões.
Todavia, os espíritos libertos da incultura acham graça de um passado negregado. Há
superstições difícil seria destruí-las. Só a instrução e a educação poderão
erradicá-las.
Vejamos mais um punhado de superstições:
Tem-se como certo que, assassinado um homem, o meio de descobrir o seu assassino é
deitar uma moeda na boca do morto. O efeito que produz esta operação é o seguinte: o
culpado não poderia evadir-se, e, perseguido, vê-se obrigado a confessar o crime.
Todo aquele que tiver de casar deve entrar na igreja com o pé direito.
Todo aquele que pretender casar-se evite faze-lo no mês de agosto.
As flores que traz a noiva na grinalda servem para chamar novos casamentos. Quanto
menor é a quantidade de flores que toca a cada rapaz mais depressa arranja noiva.
A moça que não desejar procrastinar seu matrimônio deve procurar beber o último
beijo dos lábios de uma noiva na ocasião da cerimônia do casamento.
Treze pessoas na mesa de jantar não é nada bom: morre uma.
Para que a mulher grávida no momento de dar a luz não sofra muito e tenha um parto
feliz é preciso que um homem circule o quarto em que está a doente por três vezes, e,
batendo na porta, pronuncie estas palavras: nasceu?
É pecado beber leite da Semana Santa, principalmente na Sexta-Feira da Paixão.
Há uma enormidade de aves e insetos que são considerados como agoureiros, às vezes
são um bom sinal, outras vezes um mau agouro: - a coruja, o urubu, a borboleta preta, a
esperança etc.
Moça que serve para madrinha de casamento fica para titia.
Flor que o noivo dá à noiva ou vice-versa não se guarda para que não briguem.
Palha benta, no Domingo-de-Ramos, queimada, acaba a trovoada.
Canto de anum branco traz a morte.
A noiva deve gastar ela própria o calçado do casamento para ser feliz.
Alfinete apanhado no chão dá felicidades no dia em que é apanhado.
Andar de costas agoura os pais.
Defunto mole está chamando outro da casa.
Parar enterro à porta de alguém é mau agouro.
Quando chove em dia de casamento se diz que a noiva comeu na panela.
Quem mata sapo fica seco e provoca a estiagem.
Trazer à porta da casa um quadro da Sagrada Família faz cessar a chuva.
O café com suor de cavalo faz enlouquecer a quem o bebe.
Passar um menino por entre as pernas de alguém é fazê-lo não crescer.
Quebrar espelho é procurar infelicidade.
Quem levantar primeiro da cama no dia seguinte ao do casamento é o que morre primeiro.
A moça que arrebenta os cós da saia estão lhe tomando o noivo.
Moça solteira que perdeu a liga é que o noivo é fingido.
Achar um trevo de 4 folhas é sinal de próximo casamento.
Cobrir os espelhos em dia de tempestade amaina o temporal.
Água coada na fralda da camisa traz a amizade de quem a bebe.
Passar a vassoura ao varrer a casa, pelos pés de alguém, é condená-lo ao celibato.
Para fazer um cão acostumar-se em sua casa basta enterrar no batente da porta do
quintal alguns cabelos da ponta da cauda e ele não fugirá mais.
Para causar infortúnio e reduzir o vizinho à miséria basta deitar em cima da casa um
ovo goiro ou um sapo cururu.
Para saber se uma pessoa é morta ou viva pendura-se acima do fogão uma folha de erva
babosa, se a pessoa é viva, a folha conserva-se verde, se é morta, a folha seca ou
murcha.
Cuspir no fogo faz secar a saliva.
Velho que reedifica um prédio não chega a ver a sua conclusão ou morre pouco depois
de terminar a casa.
Mulher que tem boca grande pare depressa.
O fogo-fátuo dos cemitérios são almas penadas.
No fogão da cozinha quando a lenha crepita ao fogo é sinal certo que alguém está
falando mal dos donos da casa.
Dádiva de lenço ou de anel é malquerença futura; para evitá-la é preciso
retribuir a mesma com uma moeda metálica: um cruzeiro, por exemplo.
Quem passa por baixo do arco-íris muda de sexo.
A passagem do 29 de fevereiro, ano bissexto, foi um dia de exorcismo, talismãs,
patuás, macumbas e que tais... O ano bissexto foi criado pelo calendário para acertar o
ano civil com o ano trópico; ou melhor. O ano gregoriano com o ano juliano: de 4 em 4
anos aumenta-se um dia ao mês de fevereiro. De modo que, quem nasceu no dia 29 de
fevereiro só festejará o seu aniversário de 4 em 4 ano. Daí, por certo, nasceu este
mundo de superstições que alimentam os espíritos supersticiosos e crédulos.
Possivelmente, nasceu desse qui-pro-quó dos calendários o termo azar: má-sorte
etc... Normalmente, o mês de fevereiro tem 28 dias. Portanto, os que nascem em ano
bissexto, segundo a crença geralmente aceita, devem anotar estas observações.
Se cruzar com um gato preto deve dar esmolas ao primeiro mendigo que encontrar...
Se derrubar sal na mesa é preciso jogar três pitadas do mesmo sal por cima do ombro
esquerdo.
Sapato emborcado dá azar...
Calçado sem meias: por aí foge a felicidade...
Caburé cantando à meia-noite no portão da casa é mau agouro na certa.
O fogo-fátuo, que se vê à noite nos cemitérios: línguas-de-fogo-verde,
conseqüente da inflamação espontânea de gases fosforescentes emanados dos sepulcros,
acredita-se que são almas penadas à procura de preces. Reza-se, então, um
"Credo", e tudo desaparece...
Quadro torto na parede é sinal de calúnia.
Número 13 é grande azar; tanto que nos maiores hotéis dos Estados Unidos, o
país mais supercivilizado do mundo, não há o quarto ou apartamento número 13;
igualmente, segundo me informam, os aviões suprimem a cadeira número 13.
Passando a mão nas costas de um corcunda dá sorte.
O louva-Deus, inseto ortóptero, dá sorte quando aparece nas casas.
Casa-de-marimbondo dá sorte.
Ganhar o buquê da noiva é sinal de casamento próximo.
O sopro do arroz à saída dos nubentes dar-lhes-á prosperidade.
Comer sete bagos de romã no dia dos Reis Magos é dinheiro o ano inteiro.
Vassoura em pé atrás da porta enxota visita indesejável.
Bater na parede ou no portal três vezes é sinal de isolar o azar.
Açúcar derramado na mesa é sinal de dinheiro.
Copo quebrado é sinal de felicidade para o dono da casa.
Passar o champanha atrás da orelha dá sorte.
Vinho derramado na mesa é sinal de felicidade.
Os nascidos no ano bissexto devem defumar-se toda as sextas-feiras.
Evite passar debaixo de escada: dá má-sorte.
Abstenha-se de copular na Sexta-Feira da Paixão; pode o abusão ficar broxa...
Passar por debaixo de pontes a felicidade vai-se embora.
Espetar um alfinete no retrato do seu inimigo atrasa a vida dele.
A frieza sexual na mulher pode-se curar, quando é decorrente de "mandinga",
segundo aconselham os macumbeiros: "nas primeiras sextas-feiras do mês, à
meia-noite, dar três voltas em torno de uma igreja, com o terço na mão, rezando-se o Credo.
No fim, acende-se uma vela na porta dessa igreja. Faça-se isso três vezes; e tome nessa
ocasião três banhos-de-descarga aplicados por uma macumbeira, que deverá
benzê-la. Uma mulher ou um homem despeitado pode mandar fazer esse feitiço, tirando a
felicidade de um casal feliz.
O homossexualismo, tanto no homem como na mulher, quando provém de feitiçarias, pode
ser curado por um mandigueiro: "nas primeiras sextas-feiras, à meia-noite, por três
vezes, reza-se na porta do cemitério um terço e esconjura-se três vezes, acendendo-se
ai um maço de velas. Tomem-se três banhos-de-descarga, nas primeiras
sextas-feiras, em beneficio das almas pendas." Assim ensinam os pais-de-santo dos
terreiros de Orixá...
A Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, admite a superstição à mancheia.
Outra coisa não é a peregrinação ou soi-disant dos católicos à igreja dos
barbudinhos, na Tijuca, no Rio de Janeiro, todas as sextas-feiras para receberem a
aspersão de água-benta, visando a espantar o azar? A mesma Igreja Católica
pratica outros exorcismos dentro da sua liturgia ou ritual.
Ao findar-se mais este mare-magnum de superstições, chega-se à conclusão de
que no fundo de tudo isso sobressai a ânsia pelo incognoscível!...
(Carvalho, Hernani de. No mundo maravilhoso do folclore, p.75)