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Abril 2002
Ano IV - nº 44

AINDA AS SUPERSTIÇÕES COM FARTURA

A influência que os poderes impressionistas e ilusórios exercem sobre a faculdade emocional dos espíritos fracos e incultos é incontestável e incontestada.

Enquanto a incultura predominar no Brasil, as superstições campearão pelos nossos ínvios sertões.

Todavia, os espíritos libertos da incultura acham graça de um passado negregado. Há superstições difícil seria destruí-las. Só a instrução e a educação poderão erradicá-las.

Vejamos mais um punhado de superstições:

Tem-se como certo que, assassinado um homem, o meio de descobrir o seu assassino é deitar uma moeda na boca do morto. O efeito que produz esta operação é o seguinte: o culpado não poderia evadir-se, e, perseguido, vê-se obrigado a confessar o crime.

Todo aquele que tiver de casar deve entrar na igreja com o pé direito.

Todo aquele que pretender casar-se evite faze-lo no mês de agosto.

As flores que traz a noiva na grinalda servem para chamar novos casamentos. Quanto menor é a quantidade de flores que toca a cada rapaz mais depressa arranja noiva.

A moça que não desejar procrastinar seu matrimônio deve procurar beber o último beijo dos lábios de uma noiva na ocasião da cerimônia do casamento.

Treze pessoas na mesa de jantar não é nada bom: morre uma.

Para que a mulher grávida no momento de dar a luz não sofra muito e tenha um parto feliz é preciso que um homem circule o quarto em que está a doente por três vezes, e, batendo na porta, pronuncie estas palavras: nasceu?

É pecado beber leite da Semana Santa, principalmente na Sexta-Feira da Paixão.

Há uma enormidade de aves e insetos que são considerados como agoureiros, às vezes são um bom sinal, outras vezes um mau agouro: - a coruja, o urubu, a borboleta preta, a esperança etc.

Moça que serve para madrinha de casamento fica para titia.

Flor que o noivo dá à noiva ou vice-versa não se guarda para que não briguem.

Palha benta, no Domingo-de-Ramos, queimada, acaba a trovoada.

Canto de anum branco traz a morte.

A noiva deve gastar ela própria o calçado do casamento para ser feliz.

Alfinete apanhado no chão dá felicidades no dia em que é apanhado.

Andar de costas agoura os pais.

Defunto mole está chamando outro da casa.

Parar enterro à porta de alguém é mau agouro.

Quando chove em dia de casamento se diz que a noiva comeu na panela.

Quem mata sapo fica seco e provoca a estiagem.

Trazer à porta da casa um quadro da Sagrada Família faz cessar a chuva.

O café com suor de cavalo faz enlouquecer a quem o bebe.

Passar um menino por entre as pernas de alguém é fazê-lo não crescer.

Quebrar espelho é procurar infelicidade.

Quem levantar primeiro da cama no dia seguinte ao do casamento é o que morre primeiro.

A moça que arrebenta os cós da saia estão lhe tomando o noivo.

Moça solteira que perdeu a liga é que o noivo é fingido.

Achar um trevo de 4 folhas é sinal de próximo casamento.

Cobrir os espelhos em dia de tempestade amaina o temporal.

Água coada na fralda da camisa traz a amizade de quem a bebe.

Passar a vassoura ao varrer a casa, pelos pés de alguém, é condená-lo ao celibato.

Para fazer um cão acostumar-se em sua casa basta enterrar no batente da porta do quintal alguns cabelos da ponta da cauda e ele não fugirá mais.

Para causar infortúnio e reduzir o vizinho à miséria basta deitar em cima da casa um ovo goiro ou um sapo cururu.

Para saber se uma pessoa é morta ou viva pendura-se acima do fogão uma folha de erva babosa, se a pessoa é viva, a folha conserva-se verde, se é morta, a folha seca ou murcha.

Cuspir no fogo faz secar a saliva.

Velho que reedifica um prédio não chega a ver a sua conclusão ou morre pouco depois de terminar a casa.

Mulher que tem boca grande pare depressa.

O fogo-fátuo dos cemitérios são almas penadas.

No fogão da cozinha quando a lenha crepita ao fogo é sinal certo que alguém está falando mal dos donos da casa.

Dádiva de lenço ou de anel é malquerença futura; para evitá-la é preciso retribuir a mesma com uma moeda metálica: um cruzeiro, por exemplo.

Quem passa por baixo do arco-íris muda de sexo.

A passagem do 29 de fevereiro, ano bissexto, foi um dia de exorcismo, talismãs, patuás, macumbas e que tais... O ano bissexto foi criado pelo calendário para acertar o ano civil com o ano trópico; ou melhor. O ano gregoriano com o ano juliano: de 4 em 4 anos aumenta-se um dia ao mês de fevereiro. De modo que, quem nasceu no dia 29 de fevereiro só festejará o seu aniversário de 4 em 4 ano. Daí, por certo, nasceu este mundo de superstições que alimentam os espíritos supersticiosos e crédulos. Possivelmente, nasceu desse qui-pro-quó dos calendários o termo azar: má-sorte etc... Normalmente, o mês de fevereiro tem 28 dias. Portanto, os que nascem em ano bissexto, segundo a crença geralmente aceita, devem anotar estas observações.

Se cruzar com um gato preto deve dar esmolas ao primeiro mendigo que encontrar...

Se derrubar sal na mesa é preciso jogar três pitadas do mesmo sal por cima do ombro esquerdo.

Sapato emborcado dá azar...

Calçado sem meias: por aí foge a felicidade...

Caburé cantando à meia-noite no portão da casa é mau agouro na certa.

O fogo-fátuo, que se vê à noite nos cemitérios: línguas-de-fogo-verde, conseqüente da inflamação espontânea de gases fosforescentes emanados dos sepulcros, acredita-se que são almas penadas à procura de preces. Reza-se, então, um "Credo", e tudo desaparece...

Quadro torto na parede é sinal de calúnia.

Número 13 é grande azar; tanto que nos maiores hotéis dos Estados Unidos, o país mais supercivilizado do mundo, não há o quarto ou apartamento número 13; igualmente, segundo me informam, os aviões suprimem a cadeira número 13.

Passando a mão nas costas de um corcunda dá sorte.

O louva-Deus, inseto ortóptero, dá sorte quando aparece nas casas.

Casa-de-marimbondo dá sorte.

Ganhar o buquê da noiva é sinal de casamento próximo.

O sopro do arroz à saída dos nubentes dar-lhes-á prosperidade.

Comer sete bagos de romã no dia dos Reis Magos é dinheiro o ano inteiro.

Vassoura em pé atrás da porta enxota visita indesejável.

Bater na parede ou no portal três vezes é sinal de isolar o azar.

Açúcar derramado na mesa é sinal de dinheiro.

Copo quebrado é sinal de felicidade para o dono da casa.

Passar o champanha atrás da orelha dá sorte.

Vinho derramado na mesa é sinal de felicidade.

Os nascidos no ano bissexto devem defumar-se toda as sextas-feiras.

Evite passar debaixo de escada: dá má-sorte.

Abstenha-se de copular na Sexta-Feira da Paixão; pode o abusão ficar broxa...

Passar por debaixo de pontes a felicidade vai-se embora.

Espetar um alfinete no retrato do seu inimigo atrasa a vida dele.

A frieza sexual na mulher pode-se curar, quando é decorrente de "mandinga", segundo aconselham os macumbeiros: "nas primeiras sextas-feiras do mês, à meia-noite, dar três voltas em torno de uma igreja, com o terço na mão, rezando-se o Credo. No fim, acende-se uma vela na porta dessa igreja. Faça-se isso três vezes; e tome nessa ocasião três banhos-de-descarga aplicados por uma macumbeira, que deverá benzê-la. Uma mulher ou um homem despeitado pode mandar fazer esse feitiço, tirando a felicidade de um casal feliz.

O homossexualismo, tanto no homem como na mulher, quando provém de feitiçarias, pode ser curado por um mandigueiro: "nas primeiras sextas-feiras, à meia-noite, por três vezes, reza-se na porta do cemitério um terço e esconjura-se três vezes, acendendo-se ai um maço de velas. Tomem-se três banhos-de-descarga, nas primeiras sextas-feiras, em beneficio das almas pendas." Assim ensinam os pais-de-santo dos terreiros de Orixá...

A Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, admite a superstição à mancheia. Outra coisa não é a peregrinação ou soi-disant dos católicos à igreja dos barbudinhos, na Tijuca, no Rio de Janeiro, todas as sextas-feiras para receberem a aspersão de água-benta, visando a espantar o azar? A mesma Igreja Católica pratica outros exorcismos dentro da sua liturgia ou ritual.

Ao findar-se mais este mare-magnum de superstições, chega-se à conclusão de que no fundo de tudo isso sobressai a ânsia pelo incognoscível!...


(Carvalho, Hernani de. No mundo maravilhoso do folclore, p.75)

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