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Abril 2002
Ano IV - nº 44

COSTUMES

Esta nação de índios é chamada pelos brasileiros coroados pelo costume de cortarem os cabelos à maneira dos frades franciscanos; não gostam, porém deste apelido e a si mesmos se chamam Caingang, que em língua portuguesa quer dizer índio ou antes aborígene. Também se apelidam Caingang-pé (índio legítimo) e Caingang-venheré (índio cabelo cortado), mas os historiadores sempre os tratam pelo nome de Camés, palavra cuja etimologia ainda não nos foi dado conhecer.

Habitam em cabanas cobertas de folhas de palmeiras, diferentes em tamanho, conforme o número dos indivíduos, e quase sempre assentas em colinas, à distância de duzentos a trezentos metros da água. Nunca fazem divisões internas, mas conservam um espaço de três a quatro palmos de largura, e de todo o comprimento da cabana, para o fogo que entretêm acesso, noite e dia.

Em ambos os lados da cabana, estendem grandes cascas de árvores, que lhes servem de assento, mesa e cama, e onde dormem enfileirados, com os pés sempre para o lado do fogo e sem distinção de sexo. Antes de adormecerem cantam (como tenho presenciado) uns versos monótonos: inváque que penné ima ará ie.

Gostam muito de criar galinhas, especialmente brancas ou pintadas; domesticam também bichos e aves silvestres; mas o cão é o seu animal predileto, e fazem com prazer todo o sacrifício para obterem este lugar-tenente do homem, que lhes é da maior utilidade. Seguem para Curitiba daqui distante umas sessenta léguas, e ultimamente foram até à cidade da Faxina ainda mais longe, somente com o fim de alcançarem esses animais, que lhes servem de companheiros em suas viagens e de auxiliar nas caçadas
[1].

Ao primeiro canto do galo levantam-se e procuram água para se lavar; ao voltarem, assentam-se em redor do fogo e do cacique; recebem as ordens que cumprem sem observações e com pontualidade.

Sustentam-se de caça, peixe, mel e frutas; plantam também algum milho e feijão. Do milho fazem uma espécie de pão, para o que o põem de molho na água até apodrecer, e depois o socam ao pilão, ou o amassam com as mãos e cuspo, fabricando uma roda de bom tamanho para assarem em baixo da cinza, ficando o milho, por aquela forma apodrecido, com cheiro tão repugnante, que não há pessoa civilizada que o possa tolerar.

Até o presente são bem poucos os que querem a comida temperada com sal. Mostram a maior aversão ao leite e à carne do gado vaccum
[2].

São francos alegres e conversadores; tem grande paixão por miçangas, especialmente brancas e oferecem de boa vontade o que têm de melhor em suas cabana em troca dessas bagatelas. Quando organizam festa e danças, servem as miçangas de enfeite às mulheres, que as têm em grande estimação, trazendo-as a tiracolo, quantas possam ajuntar. Quem lhes dá alguma coisa de presente não fica sem retribuição.

Raspam as sobrancelhas, barba, bigodes e todos os cabelos do corpo.

As suas armas são grandes arcos feitos de pau de guaiuva e todos enleiados com a casca de cipó imbê, flechas de dois metros de comprimento com farpas de osso de macaco ou de ferro. Mostram muita habilidade na pintura delas.

Além dessas armas, usam também lanças de folhas de faca muito polidas, tendo as hastes dois metros de comprido mais ou menos; com tais armas fazem a guerra e também suas caçadas, em que mostram grande tino e habilidade. Quando voltam para as suas cabanas é sua chegada anunciada de longe com toques de buzina, feita algumas vezes de taquara, e, quando podem obtê-los, com os chifres de gago vacuum.

Gostam muito de facões, machados, tesouras ou qualquer ferro cortante; mas sobretudo mostram o maior empenho em obter cachorros; com estes caçam, mas depois da caça morta não a repartem como os cães, nem mesmo os ossos, dependurando-os ou enterrando-os, para que não se tornem preguiçosos; por isto sempre andam magros e prestes a morrer de fome; entretanto quando lhes morre algum cão, lamentam e choram como se lhes tivesse morrido algum parente.

Mostram grande predileção por espingardas e quando têm a felicidade de conseguir uma, dão-lhe grande estimação, trazendo-a muito limpa por fora, como costumam conservar as armas e ferramentas; quase sempre, porém o interior do cano é sujo, talvez por não saberem ainda desmanchar a arma: são bons atiradores e raras vezes perdem o tiro.

Costumam fazer o primeiro casamento quando aparece perto da lua uma estrela, e depois em qualquer tempo do ano, devendo o genro acompanhar e servir o sogro, aliás ficará sem mulher, que logo passará para outro obediente às condições do pai da mulher; mas quando esta fica um tanto velha é trocada por outra mais moça.

Deste modo casa a moça várias vezes.

Quando alguém se distingüe na guerra ou na caça, toma duas e, algumas vezes, três ou mais mulheres. Chama-se então Tremani, que quer dizer valente e forte. E, com efeito, os índios mais destemidos são logo conhecidos pelo maior número de mulheres que possuem.

Ao se encontrarem, não costumam trocar cumprimentos; mas, entrando nas cabanas dos vizinhos, sentam sem cerimônia perto das pessoas que lhes são mais afeiçoadas, e assim permanecem até que estas lhes ofereçam alguma fruta ou qualquer outra coisa: depois de terem comido, deitam-se e começam a conversar.

Aqueles que não entram na palestra guardam profundo silêncio, dando de vez em quando, sinal de interesse com a cabeça, ou mostrando sua aprovação com uma palavra gutural – – que quer dizer "está bem".

Consiste-lhes a indústria no tecido de um pano grosso feito com as fibras de urtiga grande (uáfé), na fabricação de alguns utensílios de barro e especialmente na de lanças, arcos e flechas. Neste trabalho, então, mostram muita habilidade, polindo as armas e pintando-as de diversos modos.

Ocupam-se as mulheres no serviço dos tecidos e fabricação de louça; os homens nos adornos das armas.

São os panos tecidos sobre os joelhos, e servem para cobrir as partes que o pudor feminino manda esconder; quanto aos homens, andam inteiramente nus. Além de panos para este serviço, tecem outros com mais delicadeza, feitos com as mesmas fibras, dando-lhes ordinariamente, de seis a sete palmos de comprimento, bem trabalhados.

Sobre eles desenham, com tinta vermelha, diversos traços que, segundo me contou o cacique, representavam facões, machados e flechas, embora não pudesse eu achar a menor semelhança com tais objetos.

As mulheres, quando se acham pejadas, abstêm-se de comer carne, alimentando-se somente com palmitos, frutas, etc.

Dizem que é para não engordar o filho no ventre. Depois de terem dado à luz, comem sem escrúpulo todas as coisas comestíveis, e logo, tanto a mãe como o filho, se lavam em água fria. A recém-parida mesma o leva para o córrego mais perto, e com tudo isto é extremamente raro que uma índia morra de parto ou de suas conseqüências.

Reduzem-se a pouca coisa os seus divertimentos; o principal é o combate simulado. Dois partidos contrários munem-se de grande quantidade de cacetezinhos de 2 ½ a 3 palmos de comprido; formam-se em grupos e começam a atirar os cacetes uns aos outros, desviando-se como melhor podem, e neste exercício mostram muita agilidade e destreza. Sempre sai contudo algum contuso, e aquele que acerta uma cacetada no contrário ri-se a gargalhadas.

Consiste outro brinquedo em enterrarem-se uns aos outros na lama sem distinção de sexo; procurarem queimar-se com fachos de palha acesa; enfim, a lutarem ou treparem nas árvores mais altas.

Por qualquer bagatela fazem grande algazarra. Se acontece que um marido surre a mulher ou algum filho, aparta-se o casal sem cerimônia, e logo o homem cuida de procurar outra esposa.

Quando, porém, a dúvida é com gente civilizada, armam-se com lanças, arcos e flechas (até crianças) para se vingarem; mas se não conseguem seu intento, conservam a lembrança do ultraje até a morte, e morrendo deixam-na por herança aos filhos.

Viajam com as mulheres, que carregam o filho menor às costas, preso por um cinto feito de casca de árvore, de forma oval, e que é passado na testa da índia e dali para o assento da criança; levam também fogo. Apagando-se este tornam a acendê-lo esfregando, com dois paus secos de encontro um ao outro.

Andam os homens inteiramente nus, mais enleiam as pernas com cordinhas feitas da casca do cipó imbê, ou do pêlo de porcos selvagens, para se livrarem das mordeduras de cobras, caminham cinco a seis léguas por dia, e carregam pesos de quatro a cinco arrobas arranjados dentro de uma pisamé ou cesto seguro por uma corda, que, presa no cesto, passa na testa do índio; além das armas levam um bordão que lhes serve de apoio.

Quando algum cai doente, apertam-lhe o corpo inteiro com cordas de imbê, deitam em baixo do leito desde a cabeça até o grosso das pernas umas ervas sobre as brasas para produzirem grossa fumaça. Sentam-se então, de um lado, as pessoas encarregadas de aplicarem os remédios, e do outro um homem ou mulher (dos mais velhos), que continuadamente assopra em diferentes partes do corpo do enfermo.

Quando a doença vai tomando aspecto perigoso começam as mulheres a chorar em altos gritos, e assim continuam até que percebam alguma melhora (o que raras vezes acontece) ou morra o doente.

Exalado que seja o último suspiro, é imediatamente levado o morto para o lugar da sepultura, carregado por três homens, segurando um a cabeça, outro no meio do corpo e o terceiro as pernas, indo o cadáver envolto em um pano (curu) e seguro com amarrilhas. Chegado ao seu destino, abrem uma cova que mede sempre sete palmos de comprido, três de largura e quatro de fundo, tendo para este serviço uma bitola exata; forram tal cova com folhas de palmeira e metade da casca de árvore que servia de cama ao falecido, e depois com grande cuidado o depositam na sepultura com a cara para o poente, servindo de travesseiro os seus corus e penas.

À direita colocam todas as suas armas e um tição de fogo aceso; cobrem depois com paus que alcançam de um a outro lado da sepultura, em cima dos quais põem a outra metade da casca da sua cama para evitarem que caia terra sobre o corpo; tapam todos os orifícios com folhas de palmito e enchem a sepultura com terra que vão depositando até a altura de dez a doze palmos, dando-lhe forma cônica.

Acabado o enterro, voltam todos para suas cabanas, guardando rigoroso silêncio; as mulheres do falecido fecham-se em um pequeno rancho apartado por espaço de oito dias, tendo de carpir ao romper da aurora, ao meio-dia e ao entrar do sol; os mais tratam imediatamente de arranjar o necessário para a festa dos mortos.

Para prepararem as bebidas destinadas a esta festa metem o milho e o pinhão juntamente com água em grandes panelas de barro, e perto do fogo os moem com os dentes para mais depressa fazê-los fermentar; depois, misturam o caldo do milho com mel, formando por este processo uma bebida embriagante, pouco agradável ao paladar da gente civilizada, mas muito apreciado dos selvagens, que a chamam aquiqui, isto é, aguardente.

Oito dias depois do enterro do morto, a um sinal de buzina, reúnem-se na cabana dos parentes do falecido todas as famílias da tribo, com os corpos pintados de preto. Entram em silêncio e com gravidade, e sentam-se sem distinção à roda do fogo (que quase se estende de uma extremidade da cabana à outra) em duas fileiras, uma em frente da outra.

Sentam-se as mulheres por trás dos homens; nesta posição começa o cacique a cantar em louvor do morto uma cantiga monótona; as mulheres, e a do morto sentada a um lado, choram, e os homens oferecem aos convidados comidas e aquiqui. Repentinamente levantam-se todos cantando e dançando em torno do fogo, formando uma cena animada e pitoresca o movimento dos corpos acompanhado com as mudanças dos passos de certeza admirável, tendo todos nas mãos uma rama de folhas verdes ou um bordão pintado a capricho.

Continuam com este folguedo até acabar-se o aquiqui, o que geralmente não passa de cinco a seis horas; durante este brinquedo alguns deles ficam horas; durante este brinquedo alguns deles ficam embriagados e lançam o aquiqui ao fogo; mas estes são amarrados para não fazerem dano aos mais, e quando acontece que alguma mulher fica neste estado, serve de caçoada a todos, até as crianças. Desta maneira acaba a dança, e todos, suados e sujos de cinzas e fumaça, procuram o rio para se lavarem e dissiparem os vapores do aquiqui.

As cabanas em que moram servem até ficarem inabitáveis por causa da imundície, tanto interna como externa. Acham que é mais fácil queimar a velha e construir uma nova do que terem o trabalho de afugentar os bichos de pés e as pulgas que os atormentam, ou fazer a limpeza necessária para destruírem estes insetos; muitas vezes, sem estes motivos não duram as cabanas muito tempo porque, suscitando-se qualquer dúvida entre eles, a primeira vingança que tomam é procurarem queimar a casa do contrário.

Em cada cabana grande há um ou dois índios que governam os mais, e cada mês sai um destes para os alojamentos que ainda existam no sertão vizinho (que segundo me contou um índio, andam por uns doze); fazem estas viagens mensais para colherem notícias se alguém morreu.

Voltando ao mensageiro com a notícia do falecimento de algum conhecido, lamentam-se todos e choram com grande algazarra.

As suas festas (quando as há) dão-se quase sempre no tempo do milho verde; mandam então convidar os caciques dos outros aldeamentos, e preparando-se com tintas e penas vão ao seu encontro meia légua de distância, levando-lhes bebidas; a cinqüenta braças da cabana saem as mulheres carregando bonitas penas, com as quais enfeitam a cabeça e o corpo dos convidados.

Em algumas ocasiões, primeiro que tudo vão ao cemitério e rezam pelos defuntos; em outras, sem cuidarem disso, assentam-se em torno do fogo com a maior gravidade imaginável.

Nestas festas recitam algumas poesias que me parecem rimadas; mas nunca lhes pude saber a significação.

Estes índios quando em marcha deixam vestígios de comida e caçadas, e se lhes aparece algum animal feroz deixam também sinal para avisarem a gente que vem atrás, de que aquele lugar é perigoso; quando caminham de noite, levam consigo um archote ou tição de fogo aceso.

São muito inclinados ao latrocínio; podendo lançar mão de qualquer coisa que lhes excite a cobiça não o deixam para logo, e tanta habilidade mostram no furto como os mais refinados ladrões das grandes cidades. Entretanto este péssimo costume vai diminuindo e lícito é esperar que, com o tempo e educação, desapareça entre a maior parte deles.

Uma das dificuldades, na catequese e civilização destes índios, é a grande facilidade deles se sustentarem nas matas.

Oferece-lhe a natureza com mão liberal tudo de que necessitam: abundam as florestas em fruta e caça e os rios em peixe; em qualquer parte enfim acham com que matar a fome e, tendo a barriga cheia, coisa mais alguma apetecem.


Notas:

1. Notei também esta predileção nos índios de Mato Grosso.
2. Verifiquei isto por mim. Mandei em Guarapuava distribuir-lhes carne de vaca e só os homens nela tocaram. As mulheres recusaram-se a provarem; pediam carne de porco.


(Taunay, Alfredo d’Escragnole, visconde de. Entre os nossos índios; chanés, terenas, kinikinaus, guanás, laianas, guatós, guaicurus, caingangs. p.88-97)

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