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Abril 2002
Ano IV - nº 44

DIZERES MAIS USUAIS NO INTERIOR DO BRASIL

Dizeres, anexins, ditado, rifão ou provérbio são expressões sentenciosas que explodem amiúde na conversação do homem do interior e que caracterizam pela sua profundidade filosófica.

Os dizeres, são preferíveis nas conversações porque dizem muitas coisas em poucas palavras...

Muitos filósofos perderam tempo em catar pelo sertão brasileiro anexins populares e colecioná-los.

Vai aqui um punhado deles:

O uso do cachimbo faz a boca torta...

O cachorro que late não morde.

Quem silencia é conivente...

O que cai na rede é peixe...

O silêncio vale ouro.

A adversidade faz heróis.

A avareza é madrasta de si mesma.

Laranjeira à beira da estrada: é azeda ou tem casa de marimbondos...

Se chovessem cangalhas, uma lhe cairia no lombo...

Cesteiro que faz um cesto, faz um cento...

Casamento e mortalha, no céu se talham.

Casamento demorado, com certeza é desmanchado

Casa de ferreiro, espeto de pau...

Cada macaco no seu galho...

Quem for puro, atire a primeira pedra...

Antes ser o malho do que a bigorna.

A rico não devas, a pobre não prometas...

Antes tarde do que nunca.

A agulha veste os outros e vive nua.

Acender uma vela a Deus e outra ao diabo.

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura...

Antes magro no mato do que gordo no papo do gato.

Quem rouba um tostão é ladrão; quem rouba um milhão é barão...

"Vamos ao enterro dos ossos?" Eis um convite, amiúde, no interior, a que propósito? No dia seguinte de um banquete verifica-se sempre muita sobra de comida; então, convida-se muita gente para aproveitar esses sobejos, para não botar fora...

Nem toda pedra que brilha é brilhante...

No interior, o roceiro classifica de ossos de borboleta ou ninharias os negócios que rendem pouco lucro.

Homem velho e mulher nova: ou corno ou cova...

Há sempre um chinelo velho para um pé doente...

Gato escaldado, de água fria tem medo...

Formiga, quando quer se perder, cria asas...

Malhar o ferro, enquanto está quente.

Quando o gato passeia, o rato entra nos armários...

Enterrar os mortos e cuidar dos vivos...

Vamos devagar com o andor, porque o santo é de barro...

Dois bicudos não se beijam.

Deus dá nozes a quem não tem dentes.

Em mulher não se bate nem mesmo com uma flor...

Depois da tempestade, vem a bonança...

Dançar de acordo com a música...

Filho de peixe é peixinho...

Roupa suja, lava-se em casa...

Cada povo tem o governo que merece...

Uma desgraça nunca vem só...

Não se corta o pé de um burro por ter-lhe dado um coice...

Quem quer tudo, tudo perde...

Quem semeia ventos, colhe uma tempestade...

Ri-se o roto do esfarrapado...

Ninguém vê a trava do seu olho...

Vão-se os anéis, mas ficam os dedos...

Viúva rica, por um olho chora e por outro repenica...

Quem ama o feio, bonito lhe parece...

Homem calado muito cuidado...

Deus, livra-me dos amigos, que eu me livrarei dos inimigos...

Galinha velha não dá bom caldo...

O rei morreu, viva o rei!...

Ensinar padre-nosso ao vigário...

De noite, todos os gatos são pardos...

Quem vai ao vento, perde o assento...

Tirar a sardinha com a mão do gato...

Tempo de guerra, mentira como terra...

Repisar-se no mesmo assunto é o mesmo que chover no molhado...

Briga sem pancadaria é mesmo que trovoada sem chuva...

Para quem tem gosto, catinga é cheiro...

O amor faz o feio torna-se bonito...

Chumbo trocado não dói.

Jacaré é o apelido dado ao moço que fica à porta das igrejas à espera da passagem da namorada.

Mulher sem perfume é como a flor inodora: ninguém quer cheirá-la.

E foi um deus-nos-acuda...

Deus é grande!

Há dente de coelho aqui.

Deus ajuda a quem madruga.

Quem não tem cachorro para caçar, caça mesmo com gato.

Antes ser o ferrão do que ser o boi.

O seguro morreu de velho.

Um olho dormindo, outro acordado...

Quem diz o que quer, ouve o que não quer...

Quem espera sempre alcança...

O saber não ocupa lugar.

O pior cego do mundo é aquele que não quer ver...

O peixe morre pela boca...

Uma mão lava a outra e a toalha enxuga ambas...

Quem viaja na garupa não dirige a rédea...

Tristezas não pagam dividas...

Mulher de cego, para quem se enfeita?

Homem pequeno, ou embusteiro ou bailarino.

Frade que pede para Deus, pede para dois.

Figo verde e moça de hotel, apalpando-se amadurecem...

Falai do mau, aparelhai o pau.

Enquanto a grande se abaixa, a pequena varre a casa.

Emprenha d’ar, parirás vento.

El-Rei não manda chover, manda marchar.

É na cara dos pobres que os barbeiros aprendem.

É melhor ouvir "fala rapaz" do que "cala-te rapaz".

Donzela honesta, ter o que fazer é a sua festa.

Quando nunca se comeu melado, quando come lambuza-se todo.

Quem vem atrás é que fecha a porteira.

Bate-se na cangalha para o burro entender.

Do homem é errar, e da besta teimar.

O direito do anzol é ser torto.

O cão velho, quando ladra dá conselho.

O bem roubadinho vale tanto quanto o ganhadinho.

Bem prega frei Tomás, façamos o que ele diz e não o que ele faz.

Arrieiros somos, na estrada andemos, algum dia nos encontraremos.

Até as pedras rolam, cachoeira, e um dia encontram-se.

Antes casada arrependida que freira aborrecida.

Adeus, Anica, se o teu galo canta o meu repenica.

O abade donde canta, daí janta.

A burro velho, capim novo.

A uns morrem vacas, a outros parem os bois.

Não há bem que nunca se acabe; assim como não há mal que dure toda à vida...

Nem tudo o que reluz é ouro.

De grão em grão as aves enchem o papo.

Mais vale um centavo rindo, do que mil cruzeiros chorados.

O Céu é para os justos, o Inferno é para os pecadores e o Purgatório está cheio de bem intencionados...

A política é como a mulher: está com quem der mais...

Os políticos são como os gatos: gostam de ser amimados...

As mulheres políticas aplicam, na prática, a técnica feminina e vencem sempre.

Você pensa que berimbau é gaita?

 

Camboatá é o nome que se dá a um peixe que vive nas lagoas, lá no sertão; quando ele é perseguido, defende-se toldando a água e escapulindo da perseguição, pois este é devorado pelos peixes maiores. Por analogia, lá no sertão, é apelidado de camboatá todo aquele que se defende fazendo confusão e escapulindo de tumulto.

O peru é um galináceo curioso: quando se traça um círculo de giz em torno dele, ele se julga preso e deita-se resignado com a prisão hipotética. No folclore sertanejo muita gente é apelidada de peru, por analogia.

O pavão é uma grande ave galinácea, de belíssima plumagem, de porte imponente e altivez invejáveis. Quando ele passa todos admiram-no. Mas, como não há belo sem senão, os pés do pavão são horrivelmente feios, destoando da sua beleza apolínea do resto do corpo e da plumagem. No folclore sertanejo, fértil em comparações, apelida-se de pavão todo indivíduo que pode ter mil qualidades elogiáveis; basta, porém, ter um defeito, para ser apelidado de pé-de-pavão, também, por analogia.

Não é o que entra pela boca que mancha o homem, mas o que dela sai...

No meu terreiro quem canta é a galinha...

Santo de casa não faz milagres...

Lá no meu sertão, onde não há telefone e nem tipografia para imprimir participação de nascimento, quando nasce num lar uma criança, manda-se o marido ou irmão mais velho fazer a participação, assim: "Mamãe manda dizer que, lá, há mais uma criadinha às suas ordens."

Cavalo trotão velho jamais aprenderá a marchar.

O maior pesar do boi é depois de ser abatido transformada a sua carne de vaca.

O camaleão, por inexplicável mimetismo, muda de cor de acordo com o meio-ambiente; assim são, também, algumas criaturas humanas...

Na oficina do ferreiro da maldição quando tem o ferro falta o carvão...

Por fora bela viola, por dentro, pão bolorento.

Mulher que não se enfeita por si se enjeita.

Não há belo sem um senão.

O casamento é como bilhete de loteria: às vezes dá a sorte, mas na maioria das vezes sai branco...

Segredo em boca de mulher é o mesmo que farinha em saco furado...

Quando se tem mais de uma mulher: pernas pra que te quero...

Quem está montado na razão não carece de esporas.

Para um guapo, outro guapo.

Não tem apoderes, que domadores não faltam.

Quando dois brincam de mão, o diabo cospe vermelho.

Quem não agüenta trote não monta em redomão.

Em briga de cachorro, guaipeca não se mete.

Touro fora do rodeio é vaca.

Não há matreiro que não caia.

Churrasco no espeto, amigo em volta.

Cavalo roncolho e índio caolho, sempre de olho.

Boi sonso dá cornada certa.

Cachorro que comeu ovelha, homem cortês, mulher que provou uma vez, cuidado com os três.

Mulher sardenta e cachorro passarinheiro: alerta companheiro.

Mulher e barro, pelo meio.

Mulher, cachaça e bolacha, em qualquer canto se acha.

Quando a esmola é grande o pobre desconfia...

Égua cansada sempre acha um retalhado...

Boi lerdo bebe água suja.

Com burro que empaca, nem conselho, nem grito, nem relho.

Ovelhas são é pra mato.

Cachorro ovelheiro só morto endireita.

Cavalo que voa não pede esporas.

Não se muda de cavalo no meio do banhado.

Gaúcho de pouca palavra, muita lavra.

Cavalo do comissário ganha sempre.

Quem ordenha bebe o apojo.

O sol é o poncho do pobre.

Praga de urubu magro não mata cavalo gordo.

Urubu sem sorte em lajeado se atola.

Entre os bois não há cornadas.

Quem cabritos vende e cabras não tem, de algures lhe vem.

Quem não tem o que fazer cata pulgas.

Quem não tem o que fazer, faz colher de pau e borda o cabo.

Quem não tem o que fazer, derruba a casa e torna-a erguer.

Quem não tem o que fazer, põe o mundo a perder.

Corda muito esticada rebenta.

Tremendo como a luz de candeia que está para morrer.

Tremendo como varas verdes.

Deu tudo o que tinha.

Cheio de si.

Quem é bom já nasce feito.

Deus ajuda a quem trabalha.

A quem Deus promete nunca faltou.

Ninguém nunca lhe deu uma cabeça de alfinete.

Às tantas, ao amiudar dos galos.

Tão ladrão é quem rouba a couve e quem fica vigiando no portão da horta.

Pega pra sair.

Brabo que nem cobra na hora da queimada.

Não posso ver defunto sem chorar.

Tal qual riscar nos calcanhares como caititu na trilha com cachorrada atrás.

Quem foi rei sempre é majestade.

Urubu quando está sem sorte o debaixo suja no de cima.

Cada cabocla xodó de trazer água na boca...

Eta sapateada de remelexo.

Quem com Deus anda, com Deus vive.

Quem corre cansa.

A chuva molha sempre.

O sol nasce para todos.

noite tudo esconde.

Enquanto o pau vaivém folgam-se as costas.

As águas dos rios correm sempre para o mar...

Enquanto o diabo esfrega um olho.

O diabo a quatro.

Passar o que o diabo enjeitou.

Pintar o diabo.

Ter o diabo nos chifres.

Com o diabo no corpo.

Quem deve a Deus paga ao diabo.

Comer da banda ruim.

Comer o que o diabo enjeitou.

Comer jerumba.

Se Deus quiser e o diabo der licença.

Com seiscentos diabos!

O diabo não é tão feio como o pintam.

O diabo anda à solta.

Comer o pão que o diabo amassou com o rabo.

Dar a alma ao diabo.

Fazer o diabo!

Mandar ao diabo.

Morar em casa do diabo.

Ser da pele do diabo.

Ter o diabo no corpo.

Vá para o diabo!

O diabo que o carregue!

Ser levado ao diabo.

Dar-se ao diabo.

Dar-lhe aos diabos.

Lembrar ao diabo.



(Carvalho, Hernani de. No mundo maravilhoso do folclore, p.67)

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