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Abril 2002
Ano IV - nº 44

AS SOGRAS

Em todos os tempos e em todos os lugares as sogras têm sido sempre vitimas da maledicência e da calúnia.

Pode-se até dizer que esse sestro de acusá-las é quase tão antigo como o mundo.

Adão foi o único homem talvez que nunca se queixou da sogra, e isto por uma razão muito simples – porque não a tinha.

Não há epigramas, por mais picantes que sejam, que não tenham sido atirados em cima dessas inofensivas criaturas, cujo único pecado é amar extremosamente os filhos daqueles que mais as ridicularizam.

Ultimamente a cruzada contra as sogras vai tomando proporções assustadoras.

A sogra é o assunto obrigatório das crônicas espirituosas dos jornais diários.

A sogra é discutida nos cafés e botequins.

A sogra é o tema favorito das conversações que esmerilham a vida alheia.

Todo sujeito gracioso, ou que passa por tal, tem sempre engatilhadas algumas anedotas a respeito de sogras, para dispará-las na primeira ocasião oportuna.

A sogra é uma bigorna.

A sogra e uma pedra de bater roupa.

A sogra é...

Enfim, tanto se tem dito e escrito contra as sogras – que defendê-las seria caridade, se não fosse, antes de tudo um ato de grande justiça.

Venho, pois, tomar a defesa das sogras.

E é uma defesa espontânea.

Ninguém encomendou-me o sermão.

Não se poderá dizer que o faço por lisonja ou compelido por alguma ameaça; visto como jaz na eternidade, gozando o prêmio de acrisoladas virtudes, quem para mim foi o arquétipo da mãe carinhosa e desvelada.

Estão, pois, as sogras a barra do tribunal.

Quais são os anjos e os demônios?

Elas, ou os genros?

É isto que é preciso demonstrar à luz da evidência, de modo que os espíritos não nutram a mais pequena sombra de dúvida.

Acompanhem-me, pois, os leitores nas seguintes observações:

Um rapaz elegante começa a fazer a corte a uma rapariga idem.

Encontram-se pela primeira vez em um... em um... em um baile.

É assim geralmente que começa a história de todos os namorados das capitais civilizadas.

Ele, já se sabe, viu-a e tremeu todo por dentro.

Ela, viu-o e corou.

Deus me livre de dar às leitoras uma lição de namoro.

Mas a maneira porque essas cousas caminham é muito conhecida.

Dançaram toda a noite.

Trocaram-se de parte a parte, com voz trêmula, uma frases de ocasião, cheias de reticências.

Ele, de vez em quando, sem saber o que havia de dizer, brincava com a corrente do relógio e olhava meio desconfiado para os circunstantes, como se estes estivem a traduzir-lhe na fisionomia todo aquele mundo de idéias e sensações, que revolucionavam-lhe o interior.

Ela, com a cabeça baixa, acariciava inconscientemente o porte bonheur que destacava-se no fundo cor de pérola da luva pequenina e perfumada.

Depois da meia noite, quando as luzes cintilam com mais fulgor, as flores das toilettes começam a emurchecer e os colarinhos dos elegantes a se abaterem; quando os peitos das casacas cobrem-se de pó de arroz, os músicos principiam a desafinar e as valsas vão-se tornando cada vez mais vertiginosas, as amigas d’ela diziam-lhe ao ouvido:

- Olhe que isto está escandaloso.

- Já é de mais.

- Quando é o dia?

Os amigos d’ele, batendo-lhe no ombro, observavam-lhe:

- Estás perdido, meu caro.

- E a pequena é bem bonitinha!

- Onde foste descobrir aquilo?

Dias depois ele é apresentado à família d’ela.

Estão travadas as relações oficiais.

Esta fase do namoro é obrigada a chá e pão torrado, como as partidas políticas do senhor Leôncio, sobre cuja desastrada derrota o primeiro distrito do Rio de Janeiro se debruça lacrimoso.

Quem mais festas faz a ele, quem mais o agrada é a mãe da diva, a futura sogra.

O marido desta, o futuro sogro, seco e frio, está no seu posto de observação.

Diz lá com seus botões:

- Não sei com que fim este marreco entrou aqui. É preciso muita cautela, aguardemos os acontecimentos.

A futura sogra, pelo contrário, não desconfia dele.

Sabe que a filha o ama.

É quanto basta.

E cerca-o logo dos mais desvelados carinhos.

Ao chá, ao passar-lhe o prato de biscoitos, diz-lhe com um sorriso de sincera amabilidade:

- Coma. Foram feitos por mim, e especialmente para o senhor.

Se o tempo ameaça chuva, antes que ele saia lá vem ela com um cache-nez:

- Embrulhe o seu pescoço; agasalhe-se bem, tome cuidado.

Se ele tosse ou espirra, é a primeira a ensinar-lhe um desses remédios caseiros que atalham logo o mal, e recomenda-lhe a maior cautela com a saúde.

Ele não se farta de dizer consigo:

- Que anjo!

- Que santa senhora!

- Que bondade!

- É digna mãe de tal filha!

E narrando sua ventura aos amigos, dizem-lhe estes com ar de mofa:

- É uma avis rara.

- Um diamante preciosíssimo.

- Manda encastolá-la em ouro.

- É uma sogra futura mais que perfeita.

Da posição de namorado à de noivo o passo é inevitável.

Ei-lo, portanto, noivo.

As rugas do semblante do futuro sogro se dissipam.

E uma vez que já conhece o fim com que – o marreco entrou-lhe em casa – conversa com ele desassombradamente acerca do que há de positivo em todo aquele negócio, que não é tão poético, como parece à primeira vista.

A futura sogra, sincera e leal, é sempre a mesma.

Continua a oferecer-lhe biscoitos, a dar-lhe o cache-nez e a ensinar-lhe remédios.

E ele:

- Boa noite, minha mãezinha.

- Adeus, minha mãezinha.

- Como está, minha mãezinha?

E – com minha mãezinha para aqui e minha mãezinha para acolá, vai cada vez mais conquistando o coração da boa senhora, que diz a todos, com ar de indizível satisfação:

- Vou casar minha filha com um excelente rapaz. É uma pérola!

Chega o dia almejado.

Lá vão os dois para a igreja ouvir da boca do sacerdote o famoso et ego auctoritate qua fungor, que é para alguns a porta luminosa do paraíso, para outros o portão sombrio do inferno.

Recebidas as bênçãos nupciais o noivo dirige-se à sogra e beija-lhe a mão.

Não direi o que seja a lua de mel.

Os dois pombinhos sempre vestidos de branco, entre sorrisos e beijos desfolham as rosas da vida.

E a sogra, que já não tem rosas para desfolhar, contenta-se em receber o beija-mão do genro e ouvir-lhe dos lábios a todos os momentos.

- Adeus, minha mãezinha.

- Como está, minha mãezinha?

- Bom dia, minha mãezinha.

Mas... (há infelizmente sempre um mas em certas situações felizes da existência).

Mas a lua de mel tem um fim.

Os beijos já vão perdendo aquele sabor, que deveriam ter os célebres pomos dos jardins das Hesperides, trancados a sete chaves.

Os sorrisos vão se tornando pouco a pouco amarelos.

Já não se desfolham rosas.

O marido principia a observar que as camisas estão sem botões. E começa a sentir umas nostalgias do Recreio Dramático, dos espetáculos da Phenix, das boas prosas à noite na loja do Caetano...

Esgotam-se as conversações domésticas.

Depois do jantar senta-se em uma cadeira de balanço, olha maquinalmente para o teto, levanta-se, vai à janela, boceja, torna a sentar-se, torna a levantar-se, passeia de um lado para outro com as mãos nos bolsos da calça, deita-se no sofá e principia a assobiar uns pedaços destacados de Offenbach e Lecocq.

- Estás aborrecido? Pergunta-lhe a mulher.

- Não.

- O que é que tens?

- Nada.

- Porque não falas?

- Por nada.

- Se déssemos um passeio...

- Como quiseres.

- Vamos ver tua mãe?

- Vamos.

Nos dias subseqüentes as mesmas cenas.

Afinal, diz ele, não podendo mais conter-se:

- Meu bem, queres saber uma coisa?

- O que é?

- Preciso sair hoje.

- E eu fico aqui sozinha?

- Ficas com tua mãe.

- Porém...

- Eu volto cedo.

- Mas não tardes muito, sim?

- Sim.

Está dado o primeiro passo.

Daí por diante principia o marido a excogitar meios para pôr-se ao fresco todas as noites.

Inventa um voltarete, a secretaria de alguma sociedade de beneficência, a tesouraria de alguma irmandade, qualquer pretexto em fim.

O recurso mais explorado, e eu o divulgo para que as leitoras casadas se acautelem, é o da maçonaria.

Quando um marido disser: - que maçada! Tenho hoje sessão na maçonaria e não posso faltar – fiquem logo com a pulga atrás da orelha.

A pobre mulher principia a notar que o marido já não é o mesmo, e comunica suas mágoas à mãe.

Esta muito naturalmente aconselha-lhe que não o deixe sair só; porque neste mundo tudo depende do primeiro passo.

Na primeira questão que aquela tem com o marido, diz-lhe soluçando:

- Bem me dizia mamãe.

- O que foi que lhe disse sua mãe?!

- Nada; vá se embora, não me aborreça.

No dia seguinte o marido já não beija a mão da sogra, e diz-lhe simplesmente:

- Bom dia.

O comer e o coçar, e eu acrescentarei o brigar, o ponto é principiar.

E em lugar de mãezinha, ei-lo a dizer por toda a parte: minha sogra.

E uma vez substituída a palavra, agora o vereis:

- Já não posso com minha sogra.

- Minha sogra é o diabo.

- Sogra, nem de barro à porta.

- Se me casar outra vez, há de ser com uma enjeitada, só para não ter sogra.

E é assim que todas as sogras são lançadas na rua da amargura!

O seu único pecado é amar as filhas e aconselhá-las que chamem os maridos ao caminho do dever.

Um casal com filhos passa a vida alegre e folgada, a valsar pelos bailes, a aplaudir os tenores e os sopranos durante as estações líricas, e a saborear os encantos de Petrópolis, ou a tomar duchas em Friburgo, quando as cigarras desfazem-se em trenos nos troncos nodosos e carcomidos das mangueiras.

Onde ficam os filhos enquanto os pais se divertem?

No colégio?

Não, senhor.

Em poder da sogra, dessa sogra, que é o diabo, que veste-os, atura-os, dá-lhes remédios, quando eles estão doentes, que ensina-lhes a balbuciar as primeiras orações, e que ama-os talvez mais que aqueles que lhe deram o ser!

Quantas vezes não ouvimos certas moças dizerem:

- Os meus filhos não me dão o mais pequeno trabalho. Minha mãe é quem toma conta deles e eu vou para onde quero.

E quantas vezes não exclamarão também os maridos dessas moças:

- Minha sogra é um demônio!

**************


Peço agora aos leitores que me digam com franqueza:

De que lado está a justiça?
Quais são os demônios?
Os genros ou as sogras?

Quanto a mim entendo que as sogras são uns verdadeiros anjos.

E a única recompensa que espero deste folhetim é ser um dia eleito deputado pelas sogras, quando os direitos políticos da mulher forem uma realidade.

Oxalá, porém, que elas tenham mais espírito de classe que os militares e a gente da marinha, para que não me aconteça o mesmo que sucedeu ultimamente a dois candidatos.


[segunda metade do século XIX]


(França Júnior, Joaquim José da. Folhetins, p.219)

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