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Abril 2002
Ano IV - nº 44

BARGANHA DE RELÓGIOS

Tradicional na cidade Taubaté é a barganha de relógios. Sábado a noite reúne-se um grupo na porta da Catedral, e domingo pela manhã no Mercado Municipal, para trocar relógios e entabular negócios.

No mercado, aos domingos formam-se outros grupos para permuta de objetos, não somente de relógios, havendo um característico que é o da troca de animais. São logo reconhecidos pelos chapelões e botas. Ao lado esquerdo do Mercado ficam os que trocam relógio, e ao lado direito, os barganhistas de animais e tudo que se relaciona com a utilização do animal: arreio, carroça, esporas, guampas, rebenques, botas, palas, ponchos, bombachas, pelegos, etc.

No sábado, dia 10 de maio de 1947, tivemos a oportunidade de entabular negócio com os barganhistas de relógio que se reúnem na frente da Catedral. São 21 horas, cerca de 30 pessoas, umas sentadas, outras em pé, formando pequenos grupos de cinco, seis a oito pessoas. Há alguns rapazolas entre os adultos que ali estão. Abrem o relógio, olham, discutem quantos rubis há na maquinaria. Só com o colocar do ouvido, dizem quantas pedras trabalha. Falam sobre marcas. Mostramos nosso cronógrafo. Sabiam do preço pelo qual foi comprado, aproximadamente, quanto valia antes da guerra e qual o preço atual.

Para mostrar quanto conhecem do mecanismo do relógio, na qualidade de observador participante, relatamos este episódio. A pessoa que tomou nosso cronógrafo em sua mão, aproximou-o do ouvido, colocou no outro, e disse que estava com um defeito no retentor, que faltava uma presilha, etc. Anotamos o que a pessoa disse, sem abrir o cronógrafo, somente ouvindo. Ao chegar na Capital, procuramos o relojoeiro, mandamos examinar e este disse os defeitos, justamente como o taubateano barganhista.

Trocam relógio por relógio, ou por corrente. Trocam por bicicleta. Na permuta entra também cadeado de segredo, etc.

Aproximou-se um preto e veio dizendo: "Eu num sô berganhista, quero vendê este relógio, nunca vim aqui". Antes de o pesquisador retirar-se o preto já havia trocado por um relógio pulseira mais um cadeado, o seu relógio de algibeira.


(Araújo. Alceu Maynard, Folclore nacional. p.97)

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