Abril
2002
Ano IV - nº 44 |
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O "muxuango" é um tipo rústico
da planície de restingas, encontradiço entre a população rural da costa e da baixada
fluminense.
De acordo com Alberto Lamego Filho, que o estudou, sobretudo no livro intitulado Na
planicie do solar da senzala, (Livraria Católica, Rio de Janeiro, 1934, p.101-107) o
"muxuango" vive disperso, tanto nos areais que cobrem o trecho costeiro situado
aquém e além da foz do Paraíba do Sul quanto na zona ondulada do município de São
João da Barra, que lhe fica ao norte. Daí para o sul o tipo pode ainda ser encontrado
mais ou menos com as mesmas características até as proximidades da cidade de Barra de
São João.
Em geral o "muxuango" é um sitiante que não entra na massa do proletariado
agrícola. A explicação do fato decorre da facilidade que o "muxuango" dispõe
para entrar na posse de um sítio, em vista do baixo custo das terras que são
freqüentemente pobres sob o ponto de vista agrícola.
Como o solo em que trabalha é quase sem valia e devido, também, à precariedade dos
meios de transporte, as culturas empreendidas deixam de ser remuneradoras. Esta
circunstância importante impele, então o "muxuango" para outras atividades que
se realizam complementarmente. Nesse sentido o "muxuango" passa a executar
trabalho de pesca e caça nas lagoas, sem prejuízo, porém, das pequenas plantações de
abóboras e de variedades de mandioca, feitas, de ordinário, sobre as porções mais
cultiváveis das terras disponíveis.
O gênero de vida peculiar do "muxuango" é completado por variada e expressiva
atividade industrial rudimentar. Assim, tanto fabrica a farinha de mandioca, quando
aproveita o barro existente instalando olarias primitivas; tanto se dedica à industria
elementar de cestas quanto se entrega ao preparo do peixe seco, salgado. O aspecto
complementar do gênero de vida do "muxuango" completa-se finalmente, com a
criação, que se realiza, em pequena escala, nos sítios dispersos pela planície das
restingas.
Tirando proveito das possibilidades que o meio natural lhe oferece, o "muxuango"
consegue levar até às feiras típicas locais, os diferentes produtos recolhidos de suas
modestas propriedades. É o que sucede, particularmente em Gargaú, localidade situada a
noroeste de Atafona, a uns dez quilômetros desta vila, pertencente ao município de São
João da Barra.
Com seu espírito arguto observador, Lamego deu-nos em 1934, uma expressiva descrição da
feira muxuanga de Gargaú. E escreveu: "A feira de Gargaú é um mostruário
semanalmente aberto, uma completa exibição do seu labor. A afamada farinha é o
principal porduto. Mas também compra-se, vende-se e "breganha-se", do robalo
fresco à tainha seca, animais de sela e corte, gamelas e gaiolas, sabiás-da- praia e
papagaios, redes, juquiás, puçás, cestas, tipitis, jacás, arupemas e panelas de barro,
esteiras e samburás, cordas e artefatos de couro.
Com seu estilo próprio o escritor transmite-nos o colorido especial que o
"muxuango" imprime ao quadro da feira de Gargaú: "Por ali vaga o
"muxuango" endomingado, num ambiente todo seu. Chega ao trote duro das
"pulitanas" ou nas mesas dos carros de boi, arrastados por horas a fio pelos
areais. Vem de longe. Traja terno riscado e camisa de zefir. Colarinho é luxo. Mesmo os
de mais posse têm o andar sempre cansado de quem passou a vida arrastando perneiras,
marchando sobre areias, clapotando em atoladiços.
No Dicionário da terra e da gente do Brasil (4ª edição, v.164, série 5ª da
Biblioteca Brasileira, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1939, p.283) Bernardo José
de Souza define "muxuango"como sinônimo de "caipira",
"tabaréu", "mucuto" etc. usado sobretudo na zona de Campos dos
Goitacazes. E acrescenta Valdomiro Silveira, com este título, publicou um livro de contos
editado pela Livraria José Olimpio, Rio de Janeiro.
Realmente o ar tímido e arisco do "muxuango" é o de um caipira do interior do
país. Lamego procura explicar que o "muxuango", "homem da costa largado a
si numa terra improdutiva, a braços com o brejo, com a areia e com a vegetação
raquítica, maranhosa e espinescente, esmorece numa luta estéril. Dia a dia, ano a ano,
século a século involui. O espírito empaúla-se numa letargia de aborígine. A
ambição desaparece. Diluem-se as idéias. Descresce a iniciativa. Cessa a combatividade.
O ariano civilizado volta à selvageria, acaipirando-se. É um vencido. A terra subjugou o
homem. A impassibilidade topográfica como que produz a impassibilidade humana.
Aumenta-lhe a apatia a escassez de vitaminas na alimentação de paçoca, carne-seca e
peixe salgado. A face pálida e inexpressiva do "muxuango", cor das areias,
revela a verminose, o paludismo e a anquilostomíase.
O "muxuango" é um tipo exclusivamente branco. Em geral é magro e de estatura
variável. Os olhos são freqüentemente verdes ou azulados. Os lábios são finos e o
nariz quase sempre reto. Lamego os considera com sendo dolicocéfalos, e neles verificou a
abundância do tipo loiro. A explicação da existência desse curioso tipo étnico,
disperso pelas terras baixas, costeiras, do chamado norte fluminense, não seria fácil. O
assunto caberia ser elucidado por especialista outros que não geógrafos.
Embora a família "muxuanga" seja muito prolífera, nem por isso a casa que ela
ocupa é suficientemente ampla. Pelo contrário. A habitação é sempre pequena, baixa e
de compartimentos acanhadíssimos. Quase sempre a casa é de cor branca e, muitas vezes,
isoladas na solidão dos areais. A cobertura de telhas ou tabuinhas prevalece, entretanto,
nos sítios dos "muxuangos" mais ricos, onde a engenhoca por aparecer para
imprimir algum dinamismo à monotonia freqüente das paragens em derredor. Todavia nas
encruzilhadas dos caminhos, as casas costumam juntar-se e, nesse caso, duas ou três, ou
três ou quatro podem marcar a extensão da aglomeração "muxuanga", de resto
sempre animada pela criançada loura de olhos claros e azulados.
In Revista Brasileira de Geografia, ano 9, nº 4
(Pereira, José Veríssimo da Costa. In. Tipos e
Aspectos do Brasil)
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