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Abril 2002
Ano IV - nº 44

DIVISÃO DO TRABALHO

O pessoal do engenho trabalhava em serviços específicos. Cada um fazia uma coisa só, como autêntico profissional especializado, embora, às vezes, essa coisa só reunisse várias tarefas diferentes mais correlatas. Era o caso do vigia e do "capineiro", como adiante se verá.

A divisão do trabalho pelas profissões existia. Os profissionais, improvisados ou não, atendiam a essa seleção. Cambiteiro era cambiteiro, carreiro era carreiro, cabo era cabo, cozinhador era cozinhador, maquinista era maquinista. Ainda existiam os "mestres", mecânicos, serralheiros, carpinas, pedreiros. Os profissionais que para sê-los foram submetidos a certo treinamento ou aprendizado técnico, recebiam essa designação de "mestres" andavam de roupas melhores que os demais abaixo de sua categoria e até nunca dispensavam o uso de um sapato velho que fosse ou a tradicional alpercata de couro cru.

O mais baixo escalão do grupo profissional era o trabalhador do eito. Era o homem da enxada e da foice, para cavar e limpar a terra ou para roçar o mato brabo e cortar a cana. A esse não se exigia conhecimento técnico nenhum e era quem ganhava menos.

Não se podia compreender que um carreiro trabalhasse nesse mister durante uma semana e na outra fosse designado para pegar na enxada e limpar cana. Isso era inconcebível e o próprio carreiro, mesmo dentro de sua extrema humildade – que todo mundo ali, abaixo do senhor-de-engenho, era humilde e submisso – reagiria certamente. Tinha orgulho de sua profissão e o rebaixamento lhe era insuportável. Era carreiro, tinha consciência do fato, possuía sua vara-de-ferrão própria, ferramenta de trabalho da qual não se separava. Quando era posto para fora do engenho, saía com ela, como distintivo, um apêndice profissional e com ele às costas, o bronze, caprichosamente limpo com a areia fina do rio, para mostrar o dourado, na extremidade da qual se via o ferrão, brilhando ao sol, ia em outro engenho pedir serviço. E ai de quem duvidasse de seus conhecimentos técnicos.

Uma embolada, gênero musical que ganhou grande popularidade em certa época, no nordeste, serviu-se do tema para incluir o carreiro no folclore. Contava a história de um desses orgulhosos profissionais que procurou trabalho no engenho. O senhor-de-engenho, apesar de ver a vara de ferrão, duvidou do homem e perguntou se sabia carrear. O carreiro, tomando a pergunta por insulto, não respondeu e foi embora. Feriu, porém, orgulhoso maior, que era o senhor-de-engenho. E, como sempre, no choque entre os dois levou a pior. A emboalda, que fez bastante sucesso no seu tempo, era assim:

De manhã cedo
Tava em casa sentado
Quando chegou um nego
Com a vara-de-ferrão.
Eu perguntei ao nego
Se sabia carrear.
O nego foi embora
Não me prestou atenção.

Cheguei pra perto,
Meti-lhe o pau na cabeça,
Digo: "Nego, me conheça,
Veja que não tem razão".

E o estribilho, respondendo em coro:

Ô iaiá
Embola o nego
Ô iaiá
Embola o nego
Ô iaiá
Embola o nego
Pra contar
Quando eu mandar.

Na meia centena de pessoas, mais ou menos que vivia no engenho, naquela época, um ou dois carreiros eram bastante para fazer o serviço. Existindo mais de um, havia sempre o considerado chefe, ou porque ganhasse mais alguns tostões, ou porque fosse mais antigo no engenho. Esse chefe era quem, de manhãzinha, escolhia os bois para o trabalho do dia. Entrava no curral cheio de boi, levando na mão umas tiras de couro, de um metro de comprimento, mais ou menos. Escolhido o animal, enfiava a correia na ponta do chifre furado do boi e a seguir, em outro, formando a parelha. Estavam aqueles dois escolhidos. Todo boi de carro tinha o chifre furado na extremidade. Atrelada ao carro, a parelha se mantinha de cabeça sempre numa distância limitada entre si, presa por essa correia. Era para isso que servia.


"Capinheiro" de meu pai


O cambiteiro era outra categoria profissional distinta. Ser cambiteiro não exigia técnica especial. Bastava saber pôr a cangalha no burro, fazer a carga de cana e tanger o animal do partido para o picadeiro e vice-versa. Ao fazer a carga, porém, ele queria mostrar suas habilidades profissionais. O fino era ir pondo os feixes, a princípio, horizontais, no vértice dos cambitos, e ir erguendo-os de tal maneira que os últimos, no meio da carga, ficassem em posição quase vertical. Tudo bem amarrado, ainda, para que a miniatura de monte em que a carga de cana se transformava não desmoronasse. A arrumação dos feixes assim tinha a vantagem de tornar a carga maior, conduzindo-se mais cana numa mesma viagem. O senhor-de-engenho gostava dos cambiteiros peritos na questão, o profissional sabia disso e ficava todo orgulhoso com sua vaidade incentivada.

Enquanto os carreiros eram em número reduzido de dois a quatro no máximo, os cambiteiros se contavam por quinze, vinte e até mais. Cada um trabalhava de preferência com um animal. Com a continuação, afeiçoava-se a ele, punha-lhe nome, dava-lhe banhos, cuidava de sua ração. Tratava-o como se fosse seu. Em outros casos, o cambiteiro já chegava no engenho, pedindo trabalho, com seu próprio animal. Era com ele que trabalhava e, por isso, seu salário era maior do que o dos outros.

A arraia miúda, o grosso do pessoal, se formava pelos trabalhadores do eito. Era a turma da enxada e da foice. A tarefa principal dessa gente era plantar nos lugares de difícil acesso onde o arado não ia e limpar a cana nas entressafras. Quando começava a moagem, o eito se empregava no serviço de cortar e enfeixar a cana. Nesse trabalho de enxada, plantando, limpando, cortando cana, admitia-se, também, mulheres.

O pessoal do campo trabalhava sob a supervisão de um homem, a que davam o nome de "cabo", e que tinha a tarefa de fiscalizar a turma, de maneira a que ela trabalhasse o mais possível, não ficasse preguiçando, parada. Do serviço só se podia afastar, "para ir ao mato", isto é, satisfazer necessidades fisiológicas, com ordem sua. Esse cabo, ou outro homem, o administrador, tomava nota dos dias de trabalho de cada um elemento do eito, marcando numa caderneta o nome dele. A cada nome correspondia um quadrado. E cada face do quadrado, um quarto de dia de trabalho. Se o homem só trabalhava meio-dia, o quadrado tinha duas faces apenas, e assim por diante. No sábado, somava-se os quadradinhos e assim se obtinha os dias devidos.


* * *


Funcionando junto à Casa-Grande, quase como um agregado, destacava-se a figura do cargueiro ou boleeiro ou, ainda, "capinheiro". Era uma espécie de moço de recado com uma variedade grande de tarefas. Ora se encarregava de fazer a feira, levando para a povoação a nota escrita das compras, nota escrita pela qual se guiava mesmo se não soubesse ler, como acontecia quase sempre. Ora ia na várzea cortar capim para os cavalos de sela ou, mesmo para todos os animais que comiam na manjedoura. Também trazia a carga de lenha para os fogões da cozinha da Casa-Grande. Também podia prender os bezerros, à noitinha, e tirar o leite da vacas, pela manhã. Pela sua intimidade na Casa-Grande, usava roupas melhores do que as dos trabalhadores do eito, roupas quase sempre doadas pela família do senhor-de-engenho. Ganhava também mais do que o pessoal da enxada e da foice. Não raro, tinha sapatos, e ter sapatos, no engenho, era sinal de exceção.

Sua atuação, junto à Casa-Grande, foi tão destacada que, como "capinheiro", entrou para o folclore, desencantando moças. Uma dessas histórias, repetidas nos saraus das Casa-Grande, pelo pessoal subalterno, que senhor-de-engenho não cantava essas coisas, era em verso e música, assim:

Capinheiro de meu pai,
Não me corte me cabelo.
Minha mãe me penteou
Minha madrasta me encantou
Pelo figo da figueira
Que o passarinho bicou.

(A madrasta acusou a moça de ter comido figo. Enfiou um alfinete na sua cabeça e a encantou. Os cabelos se transformaram numa linda plantação de capim de planta, o melhor capim dos engenhos, naquela época. Quando os capinheiros iam cortar esse capim, uma pomba-rola, num galho de árvore, cantava a canção acima, os "capinheiros" se assombravam, saíam correndo e deixavam o emprego. Até que um, corajoso, decifrou o enigma: pegou a pomba-rola, quando lhe fazia carinho descobriu um alfinete na cabeça, o arrancou dali e imediatamente a filha do senhor-de-engenho apareceu, desencantada.)


Adultos de dez anos


Na parte industrial de fabricação do açúcar propriamente dito o pessoal era mais técnico. Tinha o maquinista, o homem que lidava com a caldeira, a moenda, andando sempre de montolia na mão, azeitando aqui e ali, atento à máquina quando "entalava", isto é, quando a moenda recebia cana superior à sua capacidade de esmagamento e parava. O homem dava jeito no enguiço e a moagem continuava.

Técnico também era o mestre cozinhador, o homem que dava o ponto no caldo fervente nas taxas e que, à sua decisão, passava de uma para outra, até chegar às formas na etapa final do pão de açúcar. Um cozinhador bom era disputado. Trabalhava dentro do casarão do engenho. No lado de fora, obedecendo às suas ordens, dadas em gritos, estava o foguista com a missão de manter o calor na dosagem determinada pelo cozinhador. Quando este queira menos fogo, gritava: "Fornaéro, ôôô".

E o "fornaleiro" parava de botar lenha ou bagaço de cana na fornalha. Os dois homens suavam em bica, durante o trabalho. O de dentro do engenho a remexer o mel nas taxas com uma vasilha amarrada a uma vara comprida, o outro, na beira do fogo, constantemente a jogar lenha na fornalha, ambos sem poder se afastar um minuto sequer de seus postos.

Na plataforma da moenda um homem, às vezes, uma mulher, botando cana na moenda. Os feixes vinham amarrados com olhos de cana. Antes de serem esmagados, esses olhos tinham que ser retirados, operação perigosa, responsável por vários acidentes onde mãos e até braços foram esmagados. Os olhos de cana assim separados eram preciosos porque serviam para alimentação do gado.

O resto do pessoal não precisava de maiores conhecimentos técnicos ou especializados: era empregado no serviço de encher as formas, depois do açúcar cristalizado, daí retirá-lo para o encaixamento, para a estufa ou para o secador de cimento, ao ar livre, onde ficava exposto ao sol pelo tempo necessário e, finalmente, encher os sacos, pesá-los, cozê-los e, por último, colocá-los nos carros de boi para o envio aos centros consumidores.

Esporadicamente, o engenho utilizava uns profissionais mais técnicos ainda. Na medida do necessário, eram contratados uns carpinas – "carapinas" – na pronúncia local, fazendo carros-de-boi, mesas, cadeiras, consertando tudo que tivesse a madeira como base. Outros, os mecânicos, para pôr em ordem as coisas de ferro. Também podiam ser contratados outros, ainda, para fazer, por exemplo, uma meia dúzia de cangalha, ou envernizar e empalhar os móveis da Casa Grande.

O elemento feminino, as mulheres, trabalhavam de parelha com os homens no batalhão do eito, no corte e limpa da cana, de igual para igual. Onde só ela atuava com exclusividade era cozinha e demais serviços domésticos da Casa-Grande. Todos os dias elas levavam grandes trouxas de roupas para o riacho mais próximo e dentro de pouco tempo toda a campina em volta se alveja com as peças do vestuário da família do senhor-de-engenho exposta ao sol. "Mandar roupa para o rio" era uma expressão usada nos engenhos e todo interior do nordeste, como significando mandar roupa para lavar. Toda dona de casa de origem desse interior e desses usos e costumes, ainda hoje, morando que seja nas capitais, Recife, Rio, São Paulo, etc., diz mais "botar roupa para o rio" do que "mandar roupa para o tintureiro "ou" para a lavandeira".

Resta dizer que, nos engenhos, como, em todo o interior, a idade para que se começasse a trabalhar e viver por conta própria, fazendo o mesmo serviço dos homens e mulheres adultos, era logo depois dos dez anos. Meninos e meninas, com essa idade, já estão de mãos calejadas no uso dos instrumentos de trabalho, a enxada, a foice, o cabo do machado, a vara de ferrão, o relho dos cambiteiros, cigarro de palha atrás da orelha, chapéu de carnaúba enterrado até os olhos, ar de homem, aos dez anos de idade!

As meninas, logo após declarar-se fisiologicamente mulher, aceitam maridos sendo comuns os matrimônios de garotas de doze e treze anos.

No engenho todo mundo trabalhava, todo mundo fazia alguma coisa. Os ociosos não existiam. Era comum, entretanto, existir alguns agregados já vencidos pelo cansaço e pela doença e pela idade, trabalhador antigo que foi se deixando ficar na propriedade, até que não teve mais força. Ficava ali, como aposentado sem remuneração, com casa, a que sempre morou, e comida da Casa Grande. Até morrer, homem ou mulher, e ser levado, numa rede, para o cemitério local.

Mas a figura profissional de maior expressão dentro do engenho não era nenhum de todos esses citados. Por ironia não tinha tarefa técnica específica a realizar dentro do complexo agroindustrial do bangüê. Trata-se do vigia. Era presente em todo engenho, sem exceção. Homem da absoluta confiança do senhor-de-engenho, andava de rifles à mão, revólver na cintura, às vezes um facão rabo-de-galo feito mais para espancar do que para cortar. Vigia, guarda-costas, capanga, todas essas designações lhe assentavam que seu papel era exercer o poder de polícia dentro e até mesmo fora da propriedade, executando as ordens superiores sem discutir, fossem quais fossem, dar uma surra, prender, admoestar ou, simplesmente, suprimir a vida de um semelhante. Sua profissão era essa, matar se mandado.

O vigia era escolhido a dedo. Além de coragem pessoal, sangue frio, pontaria, obediência canina, disposição, etc., tinha que ser homem de absoluta discrição. Sua função incluía a posse de informações secretas da mais alta importância e a não revelação delas, em qualquer circunstância, inclusive em duro interrogatório ou submetido a torturas, era condição indispensável para o desempenho do posto. A discrição, sobretudo, fazia com que vigia e senhor-de-engenho se prendessem por laços já não de amizade mas de interesse mútuo que tornavam, sempre, ele, o subalterno, o homem mais antigo no quadro de empregados da propriedade. O vigia tinha que ser o profissional frio do crime. Matar, para ele, era um atributo da profissão. Espancando, prendendo, admoestando ou matando, agia com a desenvoltura dos profissionais no desempenho de sua profissão.

Sempre na posse de suas armas, delas não se separando em momento algum, aos vigias ainda era atribuída a missão de guardar a propriedade durante a noite, passando-as em claro, rondando, a Casa Grande, o engenho, tudo por ali. Nesses casos, ele tinha que, de hora em hora, assinalar, um pedaço de trilho suspenso em algum lugar, o passar do tempo. Batia as horas, das dez da noite às cinco da manhã, depois do que ia dormir. O senhor-de-engenho, que não tinha, nenhuma necessidade de saber, de noite, que horas eram usava esse estratagema para fiscalizar o trabalho do vigia enquanto ele, patrão, dormia.

Os vigias que hoje ainda desempenham essa função, embora tudo esteja mudado e sua figura totalmente obsoleta e ultrapassada, se recusam em desempenhar o papel de figuras decorativas e aposentadas. Gostam de mostrar sinais do antigo prestígio, sobretudo, de sua coragem pessoal.

Há pouco tempo, eu e o Luís Luna (autor de Lampião e seus cabras, prêmio da Academia Brasileira de Letras, Resistência do índio à dominação no Brasil e O negro na luta contra a escravidão) assistimos a uma cena que ilustra bem esse último ponto.

O velho vigia do velho engenho de fogo morto, ainda de rifles às costas, revólver à cinta, mantido pelos herdeiros no posto mais como olheiro, moço de recado ou coisa que o valha, do que como o antigo capanga e matador que foi, numa discussão tola, foi chamado de mentiroso pelo oponente. Mentir, para esses homens que têm na fidelidade o ponto mais alto de sua personalidade, é o maior de todos os defeitos e ser disso chamado representa insulto dos mais graves. A reação do acusado foi pronta: levantando-se de um salto, pôs a mão no cabo do revólver e só não concluiu sua intenção de liquidar o caluniador porque Luís Luna, colocando-se entre os dois, com sua autoridade de filho do dono da propriedade, evitou a conseqüência fatal. Vendo-se impossibilitado de agir, de se desagravar ao seu modo, o velho vigia, contudo advertiu:

- Eu ainda mato um!

Não estava, ainda de carreira encerrada. Não era o homem que todos julgavam aposentado. Podia reviver os tempos antigos e impor o prestígio do seu posto. Ainda mataria um!


O aprendizado


A divisão do pessoal do engenho pelas profissões era, assim um fato. Cada um fazia uma coisa específica. O costume era tão acentuado que o mister técnico, a profissão, se juntava ao nome do profissional, como espécie de apelido de família. Em lugar de João da Silva era João Serralheiro e assim por diante.

Mauro Mota, o consagrado escritor e jornalista pernambucano, diretor do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, poeta dos mais inspirados e homem apaixonado das coisas típicas de sua terra, em crônica excelente, com o nome açucarado de "Doçuras de engenho", publicada em Brasil Açucareiro de julho de 1968, comprova isso. Na crônica comenta uma folha de pagamento do Engenho Uma, do distante ano de 1911, onde informa que o nível de salário "subia um pouco para quem os recebia fixo ao fim da semana. O vigia e o cabo, por exemplo. Dez mil réis por semana para cada um." Mas, sobre as profissões, aponta o costume do trabalho específico se tornar nome de família. A folha de pagamento comentada dá a relação do empregados: Chico Carpina, Lourenço Carreiro, Braz Vigia, Luiz Caldereiro, Soares Torneiro, Biu da Lenha, Felipe Pedreiro, Francisco Distilador, Maria Pixilinga, que, - comenta Mauro Mota - de acordo com esse apelido, devia cuidar das galinhas".

O sobrenome, o nome da família, era o nome da profissão. Para chegar a isso, para fazer jus a ele, começava-se cedo. Existia um arremedo de aprendizado pelo método intuitivo. O sistema era aprender fazendo. Para ser carreiro, por exemplo, o menino, bem cedo ainda, começava a acompanhar o carreiro velho. Este de vara-de-ferrão, o aprendiz com em pedaço de vara qualquer, imitando a autêntica, seguia ao lado dos bois, atento a qualquer advertência ou ordem do carreiro. Ajudava em tudo e assim se passava o tempo. Lá um dia o carreiro, demonstrando sua confiança no aluno, entregava-lhe o carro, os bois, tudo. Era já um profissional completo, o antigo aprendiz, se bem que criança ainda, mal saída dos dez anos. Tinha tudo que o velho carreiro apresentava: o chapéu de palha de carnaúba com um maço de palha de milho para o cigarro, o fumo em rolo no bolso ou no bisaco, a faca – a quicé – apenas um toco de metal cortante, e o material para produzir fogo, em pedra, e a metade de um chifre cheio de algodão. Atritando a pedra contra pedra, produzia a faísca que incendiava o algodão. E assim obtinha o fogo para acender o cigarro de palha. Tinha também as roupas em frangalhos, com grandes remendos, uma alpercata velha no pé, ou simplesmente descalço, o que era mais provável, e o hábito masculino de, na venda tomar a bicada de aguardente, cuspindo de lado. Era um homem perfeito, um carreiro acabado, um profissional completo. Mas tinha, somente, uma dúzia de anos. Assim se fazia com as demais profissões, no campo ou no bangüê.

O filho do senhor-de-engenho também tinha sua fase de aprendizado. Aprendia a montar, brincando com o carreiro. Aprendia a trocar fazendo por conta própria alguns negócios desastrados, sendo alertado pelo pai para os erros cometidos. Aprendia a plantar, escolhendo um pedaço de terreno, contratando alguns trabalhadores e fazendo tudo como exatamente seu pai fazia. Aprendia a bater nos outros, aplicando sua vocação nascente nas costas do moleque que lhe acompanhava para toda parte. Aprendia a ser macho com as filhas dos trabalhadores. Aprendia a ler e escrever, precariamente, com um velho professor contratado pelo senhor-de-engenho. Isso para os que, até certa época, ou em certos casos, se deixavam ficar no engenho, substituindo o pai, quando necessário, da melhor maneira. Em outros e mais amiudados casos, nos últimos anos daquele tempo, o senhor-de-engenho se tomava da vaidade de ter um filho doutor, metido na política, mandava o menino estudar na capital, fazendo com que ele crescesse e se tornasse homem no desamor do engenho, num desajustado, sem aptidão e sem preparo para tomar o lugar do pai. O fim era perder o controle do engenho quando não o próprio engenho.

Se aos humildes a profissão designava o nome da família, ao senhor-de-engenho acontecia o mesmo com relação ao engenho. Era Sebastião, do "Rosário", Siqueira, de "Aratângil", Marianinho, de "São Domingos", cada engenho se transformando em sobrenome do dono. Isso aconteceu, também, com as usinas, sendo exemplo mais típico o referente a Catende. Depois que a grande usina passou à propriedade do senhor Costa Azevedo, a quem todo mundo chamava Tenente, ninguém numa conversa, deixava de a ele se referir sem dizer: "Tenente, da Catende". Tudo isso, tanto com relação aos engenhos com às usinas, dito sem a interrupção da vírgula, como se fossem Sebastião do Rosário, Siqueira de Aratângil, Marianinho de São Domingos e Tenente da Catende.


(Duarte, Ruy. "Divisão de trabalho". Em Brasil açucareiro. p. 27-32)

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