Ir para a página principalRetornar para Imaginário

Abril 2002
Ano IV - nº 44

SEXTA FEIRA É DIA DE MULA

Com a chegada de março, está bem próximo o advento da Quaresma. Que é tempo de muita oração e de penitência, mas tempo, também, de aparições, de mitos, dentre os quais a mula-sem-cabeça de que nos dão notícia quase que todas as regiões do país, tal como ocorre no Norte de Minas, mais precisamente a região do alto-médio São Francisco.

A mula ocupa lugar de relevo na hierarquia do mitos. Resulta da união pecaminosa de mulher casada com padre. Mas, segundo Alceu Maynard Araujo (Cultura popular brasileira", Ed. Melhoramentos, 2ª edição), além da união mulher/padre, a mula é produto da amigação de compadre com comadre e de moça solteira que perde a virgindade antes de casar-se. É agressiva, feroz, aparecendo sempre às sextas-feiras da Quaresma para atacar incautos transeuntes.

A propósito, vale a pena lembrar o saudoso folclorista Manoel Ambrósio, pai, (1865-1947) no seu delicioso Brasil interior" (São Paulo, Ed. Nelson Monção, 1934) quando descreve o encontro de duas mulas-sem-cabeça, presenciado por penitentes que voltavam de uma Encomendação das Almas:

"... vinha tinindo aquela ferragem numa latomia com uma pantomia que fazia horrô. Eu acho que uma sentiu o bafo que o vento trazia da outra, e foi por isso que uma parou, esperando. A outra, a de riba, não mancou! Foi chegando, e aqui no contenente
[1] arribou-lhe uma bardelada na outra que foi de quatro abaixo, que chegou escancha. [2] E trancaro uma briga que fedeu chamusco, aquele fedozão de enxofre. Eu arribei bem, antonce [3], a ponta do lanço da Encomendação pra vê. Uma briziguiada [4] dos inferno! Coge [5] que assombro, conde fui dano cos óio na bicha. Era patada e dentada, que saía aquelas lasca de fogo."

* * *


A moça veio chegando de mansinho qual felino de estimação, tal como convinha aos planos que elaborara, e aos poucos insinuando-se na vida do jovem sacerdote.

Estrategicamente plantada ali na calçada defronte à igreja, assim passava as horas sempre de pernas cruzadas, deixando coxas à mostra até chegar o padre em seu carrinho. Depois via o padre entrar na igreja, aguardava aquele tempão todo que ele concluísse suas tarefas sacerdotais até sair do templo, para de novo tomar o caminho de volta.

O ritual de todos os dias já se tornara rotina. A moça, teimosa, obstinada, mesmo sem ser notada nem correspondida, em espírito flertava o padre, como se namorando a si mesma. Aos poucos, porém, o cansaço ia fazendo esgotar-se a paciência, e Maricota às vezes implodia:

- Que é que esse bobo tá pensando? Que é dono do mundo ou tem o rei na barriga? Eu te mostro, desgraçado, não dou uma semana para te ver pedindo penico...

Até que um dia aconteceu. Padre Julião acabava de deixar a igreja, mas antes de pegar o fusca voltou-se para a casa em frente, atraído por um grito de criança. Em vez de criança, esbarrou com aquele par de olhos que não se desgrudavam dele, um olhar concupiscente, pleno de desejo e paixão.

Quis voltar-se para o outro lado, mas qual, seus olhos em verdade procuravam os da moça, sentindo naquilo uma sensação deliciosa, um sentimento novo que lhe inundava a alma de ternura. Por fim, vencido, decidiu aproximar-se, e em pouco já eram bons amigos.

A aproximação inicial os levou a descobrirem mútuas afinidades. Ao primeiro encontro seguiram-se outros, agora bem mais freqüentes, até propositais.

As conseqüências vieram, inevitavelmente. Padre Julião estava entre dois fogos, uma luta terrível que abalou os alicerces, o espírito já tumultuado por incertezas: abdicar, submeter-se de novo aos princípios da austera moral imposta aos sacerdotes, a começar pelo celibato – esse, o caminho que sua consciência de membro da Igreja apontava; mas, como, de que jeito atender ao chamamento à razão, se seu coração já pertencia por inteiro à moça? Recuar de que forma, se no estágio de uma alucinada paixão o pobre, incendiado de desejo, não tinha forças para sequer raciocinar?

Na cidade os mexericos fervilhavam, alastrando-se. E as comadres comentavam maldosamente:

- Comadre Menina, ocê viu hoje a passage da bichona?

- Passage de quê, comadre Ponciana?

- Uai, comadre, a passage da mulona...

- Cruis, credo, comadre, Vixe Nossa!

- Apois é, comadre Menina, ocê é pruque num viu o remelexo da fulana, toda cheia de subacage e ainda prucima agarrada com o porqueira do vigário, que Deus me livre da má palavra...

- É, comadre, aquilo vai dá sujeira das boa, vai vê.

Dos comentários passaram a espionar e a conferir certas coincidências. De tal forma tirando conclusões, fofocando e espalhando boatos, que em pouco tempo a notícia chegava ao conhecimento de todos, até dos meninos da rua. Rosa Beata, presidente do catecismo, foi severa ao denunciar o escândalo para o bom Manezinho Sacristão:

- Olhe, Mané, que Deus não me chame por testemunha, pois eu não vi nada. Mas a cidade está cheia de que padre Julião mancebou com a sem-vergonha da Maricota.

- Que horrô, Beata, num pode sê! Um home tão santo, tão vertuoso. Tadim do padre, num pode sê...

* * *


Era Quaresma. Naquele dia de sexta-feira, desde o anoitecer que Maricota esperava ansiosamente, mas o amigo custava a aparecer. A todo instante vinha para a janelinha que dava para a rua, de onde ficava espiando, espiando...

Da casa ao lado Ponciana observava os movimentos da vizinha, decidida que estava a permanecer de vigília até que tudo fosse descoberto.

Para satisfação da Ponciana, daí a instantes o padre apareceu olhando para os lados, preocupado com possibilidade de ser visto por alguém, e rápido, entrou.

Seguiu-se um longo silêncio, quebrado a espaços pelo coaxar de sapos de uma lagoa próxima. Nenhum ruído estranho, nada que denunciasse ocorrência anormal. E Ponciana à escuta, ouvidos colados à parede-meia que separava as duas casas, os olhos insistindo em furar a escuridão. Finalmente o moço saiu e Maricota ficou à porta acenando discretamente.

Precisamente quando o relógio da matriz soava as doze horas. Ponciana foi surpreendida com um barulho esquisito no quintal da vizinha. Com as luzes apagadas e a porta do quintal entreaberta, com assombro a tudo assistia atentamente.

Maricota veio roncando e gemendo como se sentisse algo angustiante, e livrando-se em segundos das roupas que vestia, atirou-se ao chão, no meio do quintal. Rolou seguida vezes para um e outro lado, igual a um cavalo, banhando-se na terra e sujeira. Soltava grunhidos terríveis até levantar-se de um salto.

Ponciana, aterrada com o que presenciava, tremendo como pinto molhado, estava prestes a desmaiar. E o que viu foi simplesmente terrificante: Maricota não era mais Maricota. Estava lá em seu lugar ("eu vi cum estes óio que a terra há de cumê") uma mula-sem-cabeça das verdadeiras, das grandalhonas a mulona preta que ninguém sabia onde estava a cabeça, pois não havia. A bicha pulava feito égua brava; bufando, berrando e relinchando como uma assombração de todos os infernos, soltando chispas de fogo pelas ventas e disparando coices contra o vento.

Outra coisa que a Ponciana ainda conseguiu descobrir (quase caindo desmaiada): a mula-sem-cabeça, no lugar da cabeça, tinha uma estrela na testa...

No dia seguinte, contando às amigas a cena de pavor a que assistira "por acaso", Ponciana não escondia sua apreensão quanto à sorte de Maricota, que sumira misteriosamente. Foi quando Maria Vergolina, famosa mandraqueira do lugar interveio, para tranqüilizar Ponciana:

- Num tem pobrema, comadre, e nem se avexe. A muié de padre que vira mula, só fica mula se quisé. É só ela rezá treis padre-nosso e treis glora-patris de diante pra trais e de trais pra diante, que logo vira muié outra veiz...


Notas:

1. No contenente – incontinenti, imediatamente.
2. Cair com todo o peso do corpo.
3. Então.
4. Confusão, mistura.
5. Quase.


(Ambrósio Júnior, Manuel. Em Boletim da Comissão Mineira de Folclore. p.35)

Topo

Jangada Brasil © 2002