1. No princípio, contam, havia só água,
céu.2. Tudo era vazio, tudo noite grande.
3. Um dia, contam, Tupana desceu de cima no meio de vento grande, quando já queria
encostar na água saiu do fundo uma terra pequena, pisou nela.
4. Nesse momento Sol apareceu no tronco do céu, Tupana olhou para ele.
5. Quando Sol chegou no meio do céu seu calor rachou a pele de Tupana, a pele de
Tupana começou logo a escorregar pelas pernas dele abaixo.
6. Quando Sol ia desaparecer para o outro lado do céu a pele de Tupana caiu do corpo
dele, estendeu-se por cima da água para já ficar terra grande.
7. No outro Sol já havia terra, ainda não havia gente.
8. Quando Sol chegou no meio do céu Tupana pegou em uma mão cheia de terra, amassou-a
bem, depois fez uma figura de gente, soprou-lhe no nariz, deixou no chão.
9. Essa figura de gente começou a engatinhar, não comia, não chorava, rolava à toa
pelo chão.
10. Ela foi crescendo, ficou grande como Tupana, ainda não sabia falar.
11. Tupana ao vê-lo já grande soprou fumaça dentro da boca dele, entâo começou já
querendo falar.
12. No outro dia Tupana soprou também na boca dele, já então, contam, ele falou.
13. Ele falou assim:
14. Como tudo é bonito para mim!
15. Aqui está água com que hei de esfriar minha sede.
16. Ali está fogo do céu com que hei de aquecer meu corpo quando ele estiver frio.
17. Eu hei de brincar com água, hei de correr por cima da terra, como o fogo do céu
está no alto hei de falar com ele aqui de baixo.
18. Tupana, contam, estava junto dele, ele não viu Tupana.
19. Noite veio, Lua apareceu no tronco do céu, ele a viu, disse:
20. Que fogo é aquele?
21. Chama dele não aquece, não alumia, é frio como água.
22. Ele via a água, a terra, o céu, o Sol, a Lua, a Noite, não via Tupana que estava
sempre junto dele.
23. Ele corria, tomava banho, falava com o Sol, com a Lua, eles não respondiam.
24. Um dia, quando Sol já ia dormir, ele sentou-se, olhando direito para a Lua.
25. Quando noite chegou, quando Lua alumiava já bonito, pareceu-lhe ouvir para a banda
do céu barulhar alguma cousa.
26. Ele escutou bem, ouviu uma cantiga.
27. Sentiu alegre seu coração, cantou também.
28. Ele calou-se quando o dia já vinha vermelho.
29. Enquanto ele cantava olhando para o céu Tupana estava fazendo as plantas.
30. Quando noite desapareceu. Sol mostrou tudo a seus olhos, ele disse:
31. Ah! como tudo que eu vejo é bonito!
32. Que então é isto, de cabelos que dançam com o sopro do céu?
33. Foi para junto de uma árvore, perguntou:
34. Quem és tu, por um pouquinho chegas no céu!
35. A árvore, contam, respondeu:
36. Eu sou o cabelo da terra.
37. Que é aquilo que está em ti, em cima, amarelo como a Lua?
38. São minhas frutas, donde hão de nascer outras como eu para encherem a terra.
39. Nesse momento caiu uma fruta junto dele, ele pegou nela.
40. Apeteceu de repente, não sabia bem o que, disse para a árvore:
41. Vigia, tua fruta caiu do teu corpo, que é que fazes dela agora?
42. A árvore, contam, respondeu:
43. Como só tu podes andar de um lugar para outro, come a carne da fruta, depois a
semente mete debaixo da terra.
44. Como, contam, ele ainda não sabia o jeito de gente comer, perguntou:
45. Como eu faço então para comer?
46. Mete essa fruta na tua boca, engole dela o que é mole, depois mete embaixo da
terra a semente.
47. Aí mesmo já, contam, sua mão levou a fruta à boca, bonito ele sentiu.
48. Imediatamente seus olhos se abriram, teve fome, comeu.
49. Quando acabou de comer essa fruta cavou a terra, meteu dentro, enterrou.
50. Queria comer ainda dessa fruta, disse:
51. Como é gostosa a tua fruta, deixa comer mais porque hei de plantar todas elas.
52. A árvore respondeu:
53. Se queres comer sobe, apanha, não tires aquelas que ainda não estão boas, não
jogues as sementes para o chão porque se podem estragar.
54. Ele trepou imediatamente na árvore, foi comendo.
55. esqueceu-se do que a árvore lhe disse, jogou as sementes para o chão.
56. Quando não quis comer mais disse:
57. Árvore, já estou cheio, já não quero comer mais da tua fruta, são gostosas de
verdade.
58. A árvore respondeu:
59. Como já não queres comer mais desce, não olhes ainda para baixo, porque tudo
pode ficar estragado a teus olhos.
60. ele, contam, veio descendo logo, quando estava no meio da árvore olhou para baixo.
61. Ele ficou espantado de ver embaixo tapir, veado, cotia, taiaçu, tamanduá,
capivara, para, e outros animais.
62. Voltou para cima da árvore, perguntou:
63. Que são aquelas cousas que andam embaixo de nós?
64. A árvore respondeu:
65. Tu estragaste tudo porque não juntaste minhas sementes, nem as levaste contigo
para terra como eu te disse.
66. Foste-as jogando, elas se bateram no chão, foram virando esses animais que estão
embaixo de nós.
67. Ele perguntou de novo:
68. Como então agora eu vou para o chão?
69. A árvore, contam, respondeu:
70. Vai passando por cima destas árvores, desce na beirada do rio.
71. Ele, contam, foi passando por cima das outras árvores, como todas elas também
tinham fruta foi comendo de todas, guardou as sementes embaixo dos braços.
72. Como seus sovacos já estavam cheios, foi deixando as outras sementes por cima dos
ramos.
73. Já queria anoitecer quando ele chegou na margem do rio.
74. pegou nas sementes que estavam debaixo de seus braços, aturou-as uma por uma
dentro d'água, disse:
75. Quero ver agora como vocês hão de virar animal para estarem olhando para mim.
76. Como as frutas da árvore onde ele estava eram cheirosas também delas comeu.
77. Das sementes ele jogava uma porção para o rio, outra porção deixava por cima
dos galhos.
78. Só descansou de comer quando a Lua começou aparecendo.
79. Ele olhava para ela, quando já ia descendo o céu, ouviu barulho por toda a parte.
80. Mutum, saracura, maçarico, carão, guariba, outros muitos cantavam por cima das
árvores.
81. No rio jacaré, sucuriju, piraíba, outras espécies cantavam também.
82. Ele estava espantado, perguntou à árvore onde estava:
83. Árvore, que barulho é este que eu estou ouvindo?
84. Essa árvore não respondeu.
85. Perguntou de novo, ninguém respondeu.
86. Ele sentiu triste seu coração.
87. O dia já vinha avermelhando o tronco do céu quando tudo se calou.
88. Quando Sol já alumiava ele viu então por toda a parte bichos, animais, pássaros,
peixes.
89. Como ele agora já não tinha para onde fugir desceu.
90. Os animais que estavam pelo chão ainda não eram bravos, cheiraram-no,
lamberam-no, esfregaram-se nele.
91. Já era tarde, contam, ele sentiu fome, subiu para cima daquela árvore que falava,
apanhou frutas dela, comeu.
92. Quando não quis mais, contam, foi apanhando, jogando as frutas com força para o
chão.
93. As frutas batiam no chão, espedaçavam-se.
94. Ele assim fazia porque pensava que os animais que estavam embaixo dele já comiam
também como ele.
95. As migalhas das frutas foram virando aranha, lacrau, caba, formiga, que se foram
logo espalhando pela terra, subindo pelas árvores.
96. Ele estava ainda trepado quando formiga de fogo chegou nele, começou mordendo.
97. Embaixo dele os animais começaram correndo de um para outro lado.
98. Ele já não sabia que fazer, seu corpo doía, perguntou à árvore:
99. Árvore, que é que me morde!
100. A árvore respondeu:
101. Tu já estragaste a terra.
102. Para que jogaste minhas frutas para o chão!
103. Não vês aqueles animais será na carreira.
104. São bichos virados da carne das frutas que o estão mordendo.
105. No mesmo instante, contam, porção de cabas chegou nele, começou a mordê-lo.
106. Ele desceu depressa da árvore.
107. Já embaixo aranha, tucandera, lacrau começaram também a mordê-lo.
108. Como agora não tinha para onde fugir começou também correndo como os animais.
109. A noite já estava no meio quando ele com todo animal se meteu dentro d'água para
fugir deles.
110. Todos estavam cansados de correr.
111. Eles beberam água, imediatamente sentiram seus olhos abrirem-se.
112. Lua cantava pelo céu, todos ouviam seu canto bonito.
113. Nesse mesmo instante, contam, um peixinho veio encostar-se no corpo desse homem.
114. Ele espantou-se, correu para terra.
115. Em terra os bichos encontraram-no com ferroadas.
116. Ele pulou de novo n'água, aí o peixe veio outra vez encostar-se nele, ele correu
ainda para terra.
117. Os bichos ferraram nele, ele pulou n'água.
118. Aquele peixe voltou, encostou-se nele.
119. Então, contam, ele ajuntou as mãos, pegou nesse peixe, atirou-se para terra.
120. Aqueles bichos, contam, se juntaram no peixe imediatamente, morderam.
121. O peixe pulou para sacudir do seu corpo esses bichos, os bichos se amontoaram
todos sobre ele.
122. Ele agora não é mais valente para pular, faz somente: hum!... hum!... hum!...
123. De repente a noite ficou comodia, esse homem olhou para o céu.
124. Da Lua saíam pedaços de fogo que voavam para todos os lados, se encostavam
depois no céu.
125. Amanheceu, o Sol veio ligeiro, seu fogo era quente.
126. Os bichos que ferroavam aquele peixe ao sentir o calor do Sol treparam nas
árvores, outros cavaram a terra, meteram-se pelo meio dela.
127. Aquele peixe com o calor do Sol foi crescendo.
128. Aquele homem sabia que ele estava vivo porque o via puxar a respiração.
129. Quando o dia chegou no meio lembrou-se que era ainda bom levar esse peixe para
dentro d'água.
130. Foi ligeiro para junto dele.
131. Quando pegou no rabo do peixe para arrastar, pele do peixe rebentou, quando
rebentou fez estrondo grande e vento forte que espantaram todos os animais.
132. Aquele homem com a força do vento foi cair na outra margem do rio.
133. De dentro do peixe saiu uma moça bonita que olhou logo para todos os lados como
quem procura alguém.
134. O vento, contam, soprou então frio, bonito, todos sentiram alegre seu coração.
135. Aquela moça, contam, comelou logo andando pelo meio dos animais, comia a fruta
que caía das árvores.
136. Anoiteceu, nessa noite a Lua fazia grande seu rosto, depressa apareceu no tronco
do céu.
137. A moça, todos os animais olhavam direito para o céu.
138. Daí a pouco, contam, a moça ouviu cantiga bonita para o outro lado do rio.
139. Ela, contam, voltou imediatamente seu rosto, ficou olhando para lá.
140. Quando a Lua chegou pelo meio do céu sentiu seu coração deveras triste, quis
chorar.
141. Aquela cantiga bonita, contam, calou-se então, nuvem tapou o rosto da Lua, a
Noite ficou mesmo negra.
142. Quando a madrugada já vinha aquele moço encostou na beirada, saiu para terra.
143. Aquela moça, contam, quando a Noite ficou mesmo negra deitou-se no chão, fechou
os olhos, aí mesmo adormeceu.
144. O moço ainda não sabia que esta moça estava aí.
145. Ele estava cansado, deitou-se ao tronco da árvore que falava, dormiu.
146. Sol lá estava saído quando essa moça acordou.
147. Ela levantou-se, olhou para toda a parte, aí então, contam, viu aquele moço.
148. O moço estava ainda dormindo.
149. A moça foi sentar-se junto dele, enxotava os bichos para não o aborrecerem.
150. Daí a pouco o moço acordou, viu a moça junto dele, não disse nada.
151. Foi ela, contam, que falou assim:
152. És tu mesmo que eu vi enquanto dormia.
153. Assim mesmo eu te vi.
154. Tu dormias, eu estava junto de ti, acordaste, não falaste comigo.
155. Eu vejo que trazes no coração uma lembrança que dança em tua cabeça.
156. Ele, contam, levantou-se calado, foi ver se o peixe que tinha deixado em terra
ainda estava lá.
157. É aqui mesmo, aqui está ainda o sinal do corpo dele.
158. Depois virou-se para a moça, disse:
159. Tu não sabes será para onde foi um peixe que estava deitado aqui?
160. Ela respondeu:
161. Não vi.
162. Então bicho já o comeu.
163. Aqui mesmo ele estava deitado.
164. Nesse momento, contam, trovejou forte por cima da cabeça deles, a terra tremeu.
165. Os animais começaram correndo logo de um lugar para outro, eles dois foram para
baixo da árvore que falava.
166. Chuva fria, contam, caiu sem demora.
167. Os animais procuravam onde esconder-se da chuva, encostaram seu corpo um no outro
para não sentirem frio.
168. Anoiteceu, chuva, vento, escuridão, ninguém sabe como cada um deles passou.
169. Quando o Sol do outro dia apareceu aqueles dois entes não se deixaram mais, assim
também, contam, cada um dos animais andava com sua fêmea.
170. Depois de porção de luas aquela moça teve uma menina, os animais também
filharam.
171. Assim foi, contam, que gente, animais principiaram a aumentar-se na terra.
172. Depois de se passarem muitos anos, bem como nossos cabelos, gentes, animais,
começaram-se estragando.
173. Os homens, contam, se matavam, roubavam mulher um do outro, faziam toda cousa
feia.
174. Os animais matavam-se, comiam-se estragavam tudo que encontravam.
175. Foi então, contam, que Tupana mandou Papá e Piá para afundar a terra, matar as
gentes, os animais, os bichos.
176. Tupana, Papá e Piá desceram na serra de Ururoíma.
177. Papá começou juntando de todas as plantas para não se perderem.
178. Piá foi marcando as terras, as serras que não deviam ir ao fundo.
179. Depois de fazerem tudo desse modo Tupana subiu para o céu, eles ficaram no alto
da serra de Ururoíma.
180. Imediatamente, contam, água cresceu ligeiro, três dias depois toda a terra ficou
no fundo.
181. Tudo desapareceu, embaixo d'água.
182. Aí então, contam, Tupana desceu à serra de Ururoíma onde estavam Papá e Piá,
perguntou:
183. Vocês sabem será se já desapareceu tudo que estava sobre a terra?
184. Eles responderam:
185. Desapareceu tudo.
186. Água, contam, começou logo a descer, no fim de uma lua a terra estava fora.
187. Tupana, Papá e Piá desceram para o tronco da serra, aí Tupana disse:
188. Tu, Papá, vai plantar sementes por toda a terra, volta aqui no fim de uma lua.
189. Tu, Piá, vai fazer novos animais em lugar dos que morreram, volta aqui no fim de
uma lua.
190. Papá, contam foi plantando sementes. Piá foi fazendo de terra os animais, cada
macho com sua fêmea, depois soprou-lhes no nariz, correram já vivos.
191. Tupana, contam, tirou um bocado de tabatinga ainda molhada, dela fez uma figura de
mulher.
192. Depois soprou-lhe no nariz deixou no sol para secar.
193. Depois na contagem de duas mãos de dias Tupana trouxe-a para dentro de uma gruta,
aí se deitou com ela.
194. Quando ia entrar nela a concha dela esmigalhou-se toda.
195. Tupã zangou-se, embolou a tabatinga, atirou-a para donde a tirou.
196. Aí mesmo, contam, estava uma samaumeira que a água grande tinha trazido, dela
Tupana fez outra figura de mulher.
197. Ele soprou na figura da mulher, a figura da mulher começou a mexer-se.
198. No outro dia, contam, ela já falava.
199. No outro dia levantou-se, andou.
200. Já, então, contam. Tupana deitou-se com ela.
201. No fim de algumas luas ela filhou de duas crianças, uma fêmea, outra macho.
202. Estas crianças, contam, é que povoaram a terra, são nosso princípio.
203. Os animais, os bichos que hoje andam na terra são bravos, medrosos.
204. As plantas umas são boas, outras matam, são venenosas.
205. As mulheres são doidas, são enganosas porque nasceram da samaumeira.
206. Nós homens somos como elas porque delas saímos.
207. Por isso, contam, como tudo está estragado nunca mais a terra há de ir ao fundo.
(Amorim, Brandão de. Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia
do folclore brasileiro, v.2, p.439-449)