Abril
2002
Ano IV - nº 44 |
|
Nhô Thomé está bem disposto. Hoje deu
para bulir com os pretos, agradando os piazinhos que rodeiam o fogo em suas tripeças.
- Dito! perguntou ele a um dos crioulinhos de seus doze anos ocê sabe
porque é que os home e as muié não tem a mesma cor?
- Nha- não.
- Puis eu vô contá; botem bem o sentido...
No escuro, deitado na rede, descanço, a ver as sombras bailando nas paredes, ao
labaredear do fogo aos estalos, escutando a "história".
- Puis é. Nosso Sinhô, despois de criá tudas as coisa, garrô num pelote de barro e
garrô damninhá, por não ter o que fazê. Damninhô, damninhô, e feis um home chamado
Adão; deu um assopro e ele virô gente.
Despois Adão garrô a ficar esquisito: hora tava triste, ora tava assanhado, cantadô
divirtido e contente. Deus pensô: "Tudas as coisa tem muié... Chamô Adão:
- Venha aqui!
Grudô e rancô ua costela dele e feis Eva pra casá coele. Ante de
Adão e Eva já tinha gente, mais não erum fios de Deus, porque eles não forum assoprado
co Esprito Santo e quem soprô eles foi o Cuzarruim e é purisso que hai gente
rúim na terra; são os tar que não recebero o Esprito-Bão. Mais isso ocês num
intende.
Adão casô cum Eva e nascero os fio e crescero e acharo muié e casaro e o mundo umentô
in quistan de pocos anno. Moravum tudo no mesmo sítio, um lugá como num hai de havê
otro iguá; só no céo. O sítio chamava Paraízo. Naquele tempo tudos os home e muié
erum preto...
Neste ponto Nhô Thomé descreveu a vida de então. Adão, depois do casamento, perdeu a
alegria: tornou-se ajuizado, pois entendia que ser alegre e brincalhão como em solteiro
não era próprio de homem casado... É um descrédito ser divertido e alegre.
A vida era fácil: frutas por toda a parte sazonavam o ano inteiro, ora esta, ora aquela,
sem ser preciso plantar e tudo era "reiuno", não pertencendo a ninguém e a
todos pertencendo.
- Ocês num vê que ninguém prantô fruitêra no mato? E ótras fruita? Ponhema,
guabiroba, pitanga, jaracatiá, arixicú, vapacary, amora, cambucy, joá, jovéva,
cabeça-de-negro, castanha-de-ioçá, figo-manso, caju, banana, coquinho...
- Mandioca tamém é fruita ? interroga um dos pequenos.
- É... responde bonachão e sossegado o velho.
- I batata-doce? perguntou outro.
- Tamêm...
- I batata-roxa?
- Tamem... tamêm... Mais iscuitem!...
Despois o Cuzarruim botô veneno nua proção de culidade de fruita, pra
judiá de nóis; mas Deus, que é muito bão, deferençô ua das ôtra e criô os
passarinho pra insiná nóis a quar que não fais mar. O Cuzarruim intãoce inxeu a
cabeça de uns home e de uas muiá, insinô preeles os venenoso e eles
viraro fiticêro, esses praga que custumum a botá as coisa-feita nos ôtro.
Eu, na rede, espero ansioso a explicação sobre as diversidades de cores nos homens, mas
Nhô Thomé, como todos os contadores de histórias para crianças, parece "não ter
fim".
- Mais, cumo ia dizeno, Nosso Sinhô garrô a repará: puis sa as fror, as arve, os
alimar, os passarinho, a terra, o céo, tudo tinha cor deferente um dos ôtro, mórde o
quê que os home e as muié só havéra de sê preto, tudo preto, sem graça, iguá,
pareio, que inté injuava a vista?
Intãoce Deus mandô pubricá pro mundo intero, que era o Sítio, que quem fosse se
lavá nua lagoa, ficava branco. Aquilo foi um corre-corre que Deus nos acuda!
Animou-se o pé-do-fogo! Curiosos os pretos arregalam os olhos e os mulatinhos ficam de
"olhos compridos" no velho.
- Os mais ligêro, mais vivo, mais ladino, avuaro pra lá. Um bando de homes e
muié, na correria, da desparada, pra chegá premêro, machucava e matava os que
ascançava:
- Os premêro chegado ficaro arvo são os alamão.
- Os seguinte acharo aua meio sujo são os branco.
- Os ôtro acharo aua turva são os moreno.
- Ôtros acharo aua escura, a lagoa tava secano são os triguêro.
- Ôtros acharo um fiapico daua vermeia misturada cum táuá são os cabocro.
- E os turco? interrompeu o Dito.
- Isso mêmo... Isso... Eles garraro a brigá e gritá tudo no mermo tempo e é purisso
que eles faum tudo trapaiado.
Não me seguro... Solto uma gargalhada gostosa!
- Uéi! Pensei que mecê tava drumino... Tô contano aqui uas patacuada pros
crioulinho...
- Continue, Nhô Thomé: estou gostando.
- Intãoce os turco sujaro demais o restico daua e levantô um tijuco mais escuro e
a aua garrô minguá tanto, que os ôtro que chegaro naquele mingau, sahiro mulato, cumo
ocês tão sahino.
- E os ôtro?
- Os ôtro, os priguiçoso, os bobo, os durminhoco que vivia cuchilano no pé-do-fogo e no
sór e arguns que num tivero jeito de chegá mórde os da frente, esses quano chegaro
acharo sú um tiquinho de umidade, que mar deu pra moiarem as sola dos pé e as
parma da mão... Arreparem nas mão de Tia Pulicena e de suas mãe...
E os pequenos, de boca aberta, assustados, exclamam uns em seguida aos outros, olhando
para as mãos de Tia Polycena que, bondosa e sorridente, as mostra.
- É meeeeemo!!!
- Os que ficaro preto num desanimaro e é purisso que preto num póde vê biquinha
daua nem tornera, nem reberão, que não vá ligêro lavá as mão, a cara, o
pescoço e os pé, que dão sempre na vista.
Depois, Nhô Thomé, chegando o "isqueiro" ao cigarro, tosse e termina,
malicioso:
- Ocêis sabe mórde o que que ocês tão sahino tudo mulatinho? É que Chica, Zabé e
Chistina custumum lavá rôpa lá no reberão craco do Manéco Portuguêis...
Pra mim aquela aua é virtuosa...
- Aá... Maria credo! Sinhô tem cada lembrança! bradou Tia Polycena, rindo,
enquanto a Chica, a Zabé e a Christina correm para a cozinha. E, daqui da rede, depois de
esplêndidas gargalhadas, ouço-as comentando:
- Sinhô tem cada uma! O moço tá lá na rede que num pode mais de tanto sirri...
(Pires, Cornélio. Conversas
ao pé do fogo) |
|