Abril
2002
Ano IV - nº 44 |
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Sobre carreiras de bois das quais tínhamos
notícias orais de sua existência no Rio Grande do Sul e uns poucos dados sobre o
assunto, em correspondência com o saudoso folclorista gaúcho Othelo Rosa, em carta que
nos enviou obtivemos seu depoimento o qual inserimos nestas páginas, com um preito de
saudade àquele escritor.
"O depoimento que posso prestar sobre a carreira de bois é o seguinte: na
região à margem direita e esquerda do rio Taquari (município de Santo Amaro,
compreendendo o que hoje se chama Venâncio Aires, à esquerda, e município de Taquari,
à direita), havia o uso de "atar" carreiras de bois, à semelhança das
carreiras de cavalo. Para este efeito eram treinadas certas juntas de bois que nos
trabalhos comuns, como lavração de terras, o transporte em carretos, etc., revelaram
melhores qualidades de força e resistência. "Atada" a carreira, por uma certa
e determinada parada, marcado o dia e escolhido o local, aí se reunia o
vizindário. Apostava-se nas juntas de bois como se apostava nos "parelheiros",
na carreira de cavalos, em cancha reta. Os presentes se definiam por uma ou outra das
competidoras, entusiasmavam-se e arriscavam o dinheiro."
"Nas duas vezes que assisti à diversão, ela se processou assim: em local plano,
previamente preparado, era colocado um toro de madeira, pesado e resistente; nesse local
era traçado um raio máximo de oscilação, durante a luta, ficando vitoriosa a junta de
bois que conseguisse ultrapassá-lo, de modo claro, insuscetível de dúvida, proclamado
pelo juiz da carreira, anteriormente designado. Colocadas as duas juntas rivais, em
sentido inverso e ligados por correntes de ferro ao toro de madeira, os proprietários, ou
pessoas de confiança deles, empunhavam as aguilhadas e, ao sinal dado pelo juiz, picavam
os bois, estimulando-os ainda com os gritos peculiares aos carreteiros. A cena, então,
animava-se, pois os assistentes e apostadores seguiam interessadamente o desenrolar da
luta, soltavam exclamações e corriam em torno da arena, acompanhando diretamente as
peripécias da competição que terminava, como disse, quando uma das juntas conseguia,
dominando a contrária, ultrapassar o limite da raia."
"A carreira de bois era uma festa. A ela acorriam homens e mulheres da
vizinhança, e mesmo de distâncias maiores. Praticamente, durava todo o dia pois, como
nas carreiras de cavalo, quase nunca era uma só: corria-se a carreira
"principal" e outras menores, algumas "atadas" no próprio local.
Reunião de agricultores, apesar do entusiasmo que às vezes despertava, tinha um cunho de
pacatez que a diferençava da carreira de cavalos, em cujas canchas eram
freqüentes as desordens e os conflitos".
"Creio que a carreira de bois tem origem genuinamente portuguesa. A região em que
ela se fez tradicional existindo ainda agora, se bem que menos freqüentemente
foi de colonização açoriana. Foram os casais de ilhéus que fundaram Taquari e
Santo Amaro".
Além dos informes de Otelo Rosa do Rio Grande do Sul, (fora de lá, não há notícia em
nenhum outro estado brasileiro), conseguimos apenas mais alguns detalhes sobre a carreira
de bois: chama-se zorra o atrelo de couro ou de correntes que vai da tora de
madeira à junta de bois, tomando forma triangular: a tora e as duas pontas da zorra.
No local de disputa, chegavam as juntas porfiadoras, os carreiros recebiam das mãos dos
juízes as zorras e a partir desse momento até à chegada ao final da carreira, estavam
em disputa. Aquele que atrelasse melhor e mais rapidamente na certa venceria a carreira.
Outra variante era a de iniciar a carreira só depois do juiz de partida ter verificado se
as zorras estavam em ordem, determinado com um tiro de garrucha ou apenas com um estalo de
relho a partida das duas juntas disputantes. Nesse caso as toras eram maiores,
necessitando especial cuidado com a colocação da zorra, porque, muitas vezes, disto
dependia a vitória. Caso escapasse ou fosse mal colocada redundaria na derrota. Esta
forma de iniciar a carreira só após terem sido colocadas as zorras, estava reservada
para as disputas mais importantes desse dia das carreiras de bois.
(Araújo. Alceu Maynard, Folclore nacional. p.296-297) |
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