Abril
2002
Ano IV - nº 44 |
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FESTAS POPULARES
para comemorar com brilho e pompa certas datas... |
As posses dos governadores e vice-reis
foram sempre marcadas com festas retumbantes que duravam vários dias: "houve seis
dias de luminárias e algumas ruas estavam magníficas porque além das luzes que havia
nas janelas eram lustres pelo meio da rua e em uma noite em que fui com o conde vice-rei
ver este obséquio o acrescentaram com bastante fogo de artifício e muito fogo do ar.
Têm havido três dias de outeiro e outros três de ópera, alternando estes dois
divertimentos entre si, e prevenida uma grande festa de touros e cavalhadas para o que se
está acabando uma praça que ficará magnífica; porém, todos esses divertimentos e
todas essas podres e abomináveis bajulações não têm tido o poder de me fazer
satisfação nem por um instante", etc. (Correspondência particular do vice-rei
marquês do Lavradio. Arquivo do senhor Hipólito Santos. Carta de amizade escrita ao
chanceler conselheiro na Bahia, em 8 de dezembro de 1769)
As luminárias festivas eram postas à janela das habitações obrigatoriamente, e punidos
os que não se submetessem à ordem. Ou se pagava o azeite ou se pagava a multa e ia-se
para a cadeia. Assim foi até pelo dia em que se matou Tiradentes, considerado pelos seus
cruéis matadores como de grande regozijo e gala. O povo obedecia com humildade a essas
marcas de contentamento, impostas violentamente por decreto, muitas vezes molhando de
lágrimas copinho de azeite da luminária oficial, como aconteceu no dia em que enforcaram
o alferes precursor da nossa independência.
Por occasião de se festejar o nascimento do Sereníssimo Príncipe da Beira, Nosso
Senhor, em 24 de janeiro de 1762, isto é, no ano que antecedeu a transferência da sede
do vice-rei para o Rio de Janeiro, houve pomposas festas com uma iluminação
extraordinária. Leia-se, por curiosidade, a descrição das mesmas por quem as viu:
"Iluminou-se toda a cidade: e, como se a terra fosse abreviado mapa para descrição
de tantas luzes, o mar se via opprimido de embarcações, e subjugado de fortalezas, se
viu também coalhado de chamas. Se perdera então o arbítrio só dos olhos, julgar-se-ia
que em bela metamorfose a ser elemento o fogo, tinha passado um e outro elemento, mas este
todo que infundia a vista, tomado em partes despertam mil atenções.
As luminárias que decoravam o paço episcopal eram de um modelo esquisito. Lavrou-se na
fachada daquele edifício um peristilo de chamas; e para que se não truncassem as peças
houve a prevenção de se embeberem as torcidas em uma substância, que as fazia indenes
aos esforços do vento. Em cada vão das nove áreas se divisavam umas letras pelo mesmo
elemento formadas, que juntas compunham estas palavras V I V A E L - R E I, os fustes
capitais, e tímpanos se representavam tanto ao natural, que pasmava a consideração em
ver que, desprezados os mármores, e cedros ministrasse o fogo matéria para a
arquitetura. Então se conheceu que se dava para gosto dos ouvidos harmonia de vozes,
havia delícia dos olhos para concerto de luzes. Subordinou esta iluminação pela
singeleza os agrados, que outras não conseguiram pelo artifício. O desenho foi todo de
S. Ex. Reverendíssima; porém muito longe de se submeterem os juízes à dignidade da
pessoa sentenciaram somente pela sublimidade da idéia.
Nas luminárias do excelentíssimo conde governador se desempenhou o gosto às expensas da
grandeza. Encostado à face primeira do seu palácio se formou um belíssimo pórtico
executado com tanto artifício, que a estratagemos do pincel muitas vezes se enganaram os
olhos. Nem foi ordinário o modo porque se iluminou esta fachada; pois, prendendo-se o
fogo cai um fio, e deste comunicando-se por outros aos vasos, em breve instante se mostrou
semeada de quatro mil estrelas: lá sobem da balaustrada superior em fogo de artifício
tantas luminárias volantes; e cá se despegam dos pedestais inferiores andantes
luminárias, que bipartidas em carros de triunfos, precedidos estes do general a cavalo
com numerosa comitiva, ilustravam as duas por enobrecer os moradores. Mas não eram só as
línguas do fútil elemento as únicas que ocupavam o âmbito destas máquinas; outras
humanas em vozes acordes, e em cadências bem notadas ao som de instrumentos vários
rompiam também a diafaneidade dos ares. E porque foi de três dias a duração das
luminárias, em escaleres se estendeu ao mar o divertimento deste passeio. A
plausibilidade dele inteiramente foi obséquio à custa das músicas que enunciando davam
muitos atados elogios do Rei, requebros ao real Menino, com não pequeno argumento do seu
amor, generosamente guapos, sacrificaram à liberalidade os exercícios do interesse.
Outras iluminações houveram não vulgares pelo gosto, pelo culto respeitáveis. O
desembargador chanceler João Alberto de Castelo Branco, o desembargador agravista
Agostinho Félix dos Santos Capelo, e o corregedor da comarca Alexandre Nunes Leal, parece
que a empenhos da profusão se disputavam a glória. Entre as suas luminárias
intercortado o discurso a cada passo por uma admiração em todas, pelas pinturas, pelo
asseio, e pela disposição, sentia bem a magnificência, não sabia a qual delas
adjudicasse as vantagens. Eu lhe tecera o louvor com descrever-lhe a estrutura; porém,
sendo o detalhe prolongado, servirá a fazer esta relação prolixa. As do corregedor
contudo alguma superioridade, mas no que não era iluminação; porque a favor de um
concerto músico, que percorria a extensão da noite, e de vários emblemas, e poesias
alusivas ao festejo, teve a satisfação de ver que o povo ocupava ali dois sentidos e uma
faculdade.
O senado da câmara o desembargador Manuel Fonseca Brandão, o doutor juiz de fora José
Maurício da Gama Freitas, o juiz da alfândega Antônio Martins Brito, e o tenente
coronel da cavalaria Joaquim José Ribeiro da Costa, deixando aos de cima a glória do
modelo, se levantaram com parte da grandeza. Entre os conventos, igrejas e moradores
também se contestava o merecimento; mas desdenhando os efeitos da arte só procuravam a
vitória pelo número das luzes." (Epanofora festiva)
Encamisadas que eram festas noturnas, com máscaras os foliões organizadores da mesma, à
cavalo, envoltos em camisas, capas ou panos brancos, seguidos de archotes, ainda se
conheciam no tempo dos vice-reis. Foram, porém, diversões de maior repercussão em
épocas anteriores. E o carnaval?
Veio do Reino. Quando, porém? Um tanto difícil de dizer:
Nas Memoires instructives pour un voyageur, livro impresso em 1738, lê-se o
seguinte: "Não se conhece carnaval em Lisboa; a Quaresma porém dá ocasião a
procissões que são tão divertidas como as mascaradas de Veneza", (p.135). O
Carnaval já era, porém, conhecido. E desde o século anterior, tanto que, para
reprimi-lo, inventou-se o jubileu das quarenta horas, que foi uma espécie de
fantochada religiosa, organizada pelo clero para ver se arrancava o povo das brutalidades
folionas que caracterizavam as folganças de Momo, no Reino, por aquela época. A igreja,
ingênua, pensou que poderia afastar o povo das alegrias tradicionaes, dando-lhe, em troca
das festas que organizava, procissões e sermões feitos embora numa feição um tanto
profana. Ribeiro Guimarães, no seu Sumário de vária história, (v.II p.79 e
seguintes), explica-nos o caso, dizendo que nessa luta entre a igreja e o diabo, o diabo
acabou vencendo, uma vez que o povo, na hora de divertir-se, não quis ouvir o sacerdote
de Deus. E, a propósito, fala daquele bom frade que se chamou João de Nossa Senhora, que
se conheceu também por poeta de Xabregas, alma cheia da mais viva ingenuidade e que,
anunciando que pregaria na ermida de Santo Eloy, com intuito de afastar o povo das
corridas de touros que se faziam no Rocio, teve que falar às paredes do templo, uma vez
que o povo não trocou a tourada pelo pregador.
O jubileu das quarenta horas, inventado pela igreja, não conseguia derrotar
Satanás. O jubileu das quarenta horas durou, assim posto, pouco mais que isso, e o
carnaval desfreado pelo século a dentro, rolou, mostrando o prestígio do inimigo num
país onde quem não acreditava em Deus era levado às fogueiras da Inquisição.
Já escrevia Ollivier de la Brairie no seu livro Lisbonne et les portugais (p.11),
falando dos folguedos carnavalescos da capital do Reino: "Durante o carnaval, a
canalha gozou dos mesmos direitos, e maiores ainda que antigamente os escravos em Roma,
durante as Saturnais. Não somente tem o direito de vos atormentar impunemente com todas
as injúrias possíveis, mas ainda esborracham-vos laranjas podres, atiram-vos com pacotes
de pós aos olhos e sobre as roupas", etc.
Eram essas festas conhecidas sob a denominação de entrudo. Morais e Silva fala-nos dele
como de festas de três dias imediatamente precedentes à Quaresma, nas quais "é uso
entre nós divertir-se o povo com o se molhar, empoar, fazer peças e outras brincadeiras,
e banquetear-se".
E, aqui, entre nós?
Dias de folia indômita e brutal, tradição das chocarrices e facécias mais violentas,
mais grosseiras e selvagens que aqui chegou de Portugal tal como se vê na descrição de
Pinto Carvalho, (Lisboa de outrora, v.1, p.161), pintando-as em Lisboa no começo
do século XIX: "Chegavam-se para junto das janelas os cestos dovos de gema e
de farinha, cartuchos de pós de goma, cabacinhas de cera pintada, com água de cheiro
dentro, os sacos dalqueire de tremoços, os tubos de vidro para os soprar, os
papelinhos, as laranjas, as batatas, a luva com areia destinada a cair de chofre,
espipando o enfático chapéu alto, os púcaros de barro e até os fogareiros, os tachos e
os alguidares inválidos, para serem despedaçados com ligeireza ginástica.
Nos escusos das escadas exerciam-se sevícias graves, garotices inéditas, ataques a mão
armada; aplicava-se a velha gebada portuguesa puxada com força galaica; suprimiam-se os
cordões de campainhas, os degraus eram besuntados com sebo, os fechos das portas untados
com substâncias tresandando a fétida perfumaria latrinária."
Era tambem esse, aqui, o carnaval dos tempos do vice-reinado, como foi depois, o carnaval
do senhor dom João VI. Que
As modas todas de cá
Vêm de lá,
Menos as modas do Sarará.
No primitivo carnaval brasileiro, eram uso a que ninguém fugia os grandes banquetes, as
formidáveis pançadas, tal qual como se fazia no Reino. O seguinte soneto, escrito
nessa época, dá idéia do que era o entrudo do reinado de dom João V:
Filhós, fatias, sonhos, mal assadas
Galinhas, porco, vaca e mais carneiro,
Os prus em poder do pasteleiro
Esguichar, deitar pulhas, laranjadas.
Esfarinhar, pôr rabos, dar risadas,
Gastar para comer muito dinheiro,
Não ter mãos a medir o taberneiro,
Com réstias de cebolas dar pancadas,
Das janelas com tanhos dar na gente,
A buzina tanger, quebrar panelas,
Querer em um só dia comer tudo.
Não perdoar a arroz, nem cuscuz quentes
Despejar pratos, e limpar tigelas
Estas as festas são do gordo entrudo.
(Edmundo, Luiz. O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis, p.539-543) |
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