Abril
2002
Ano IV - nº 44 |
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PEQUI, RECURSO
ALIMENTAR DO SERTÃO |
Caryocar coriaceum,
Wittm, da famílias das Cariocaráceas (Rizoboláceas). Árvore de tronco grosos, até 2
metros de circunferência, com 12-15 metros de altura, revestido de casca escura e
gretada, com galhos grossos, compridos e um tanto inclinados, cuja ramificação começa
perto da base, formando longa e aprazível copa, folhas oposta, ternadas, de folíolos
ovais, glabros, verde-luzentes, mais ou menos coriáceos. Flores grandes, amarelo-vivo,
com estames vermelhos, reunidas em cachos terminais. Fruto drupáceo, globoso, do tamanho
de uma laranja, de casca verde amarelada, mesocarpo butiroso e brancacento, geralmente com
1, às vezes até 4 sementes volumosas, protegidas por endorcarpo lenhoso, eriçado de
espinhos delgados e agudos, com embrião (amêndoa) grande e carnoso. A polpa e a amêndoa
são altamentes nutritivas. Constituem precioso recurso alimentar para a gente pobre do
Cariri e sertões vizinhos de Pernambuco e Piauí. Ao tempo da safra, entre dezembro e
abril, centenas de pessoas sobem à chapada da serra do Araripe e, abrigadas à sombra dos
pequizeiros carregados de frutos, passam a viver dos mesmos e, em pouco tempo, ficam
fortes, robustas e coradas, atestando desse modo o valor dietético do pequi.
A colheita acarreta animado comércio entre o chapadão e as planícies circunvizinhas,
apreciadoras do fruto como alimento e tempero. Come-se a polpa crua, cozida ou assada.
Substitui perfeitamente a banha ou o toucinho e dá aos alimentos sabor e cheiros
especiais. As amêndoas são consumidas da mesma maneira.
O óleo extraído da polpa e da amêndoa, especialmente este último, equipara-se ao de
fígado de bacalhau, substituindo-o no tratamento das infecções broncopulmonares e
tomando parte em diversos preparados farmacêuticos. Os fazendeiros o aplicam nos cortes,
contusões, peladuras e inchaços dos animais. Madeira castanho-amarelada, excessivamente
fibrosa, de grande resistência, própria para berços de moendas, prensas de casas de
farinha, esteios, portais, moirões, estacas, gamelas. Sendo muito revessa, resiste de tal
modo aos choques, que a empregam como calço dos martelos dos bate-estacas. Densidade:
1.185.
A área da incidência desta espécie é bastante extensa, vai desde a Bahia, inclusive
Goiás, até Piauí, concentrando-se nos chapadões areníticos deste trecho brasileiro.
O nome vem de py-Qui, py, pele, casca e qui, espinho casca espinhenta
decorrente dos espinhos do endocarpo.
(Nota: Reproduzido de Plantas do Nordeste, especialmente do Ceará, 2ª ed..,
Imprensa Oficial, Fortaleza, Ceará, Brasil, 1960)
O capuchinho frei Claude dAbberville, residindo em São Luís do Maranhão, de julho
a dezembro de 1612, registra o pekéy: "Árvore tão alta e tão grossa que
dois ou três homens não a podem abraçar; tem as folhas semelhantes às da macieira e as
flores amarelas. O fruto é do tamanho de dois punhos e tem uma casca dura como a da noz,
porém duas vezes mais espessa; quando quebrada, encontram-se dentro de três a quatro
frutos muito amarelos em forma de rim; são excelentes e muito odoríficos; comportam,
porém, apenas meio dedo de polpa em cima dos caroços muitos espinhosos, o que faz com
que ao comê-los a gente arrisque-se a picar-se. Esses caroços secos e queimados dão
ainda uma pequena amêndoa semelhante às amêndoas européias, porém melhores de gosto.
Lançando três ou quatro frutos destes na água fervendo, fica esta com o gosto de carne
de vaca cozida, desprendendo uma gordura amarela que sobrenada". In História da
missão dos padres capuchinhos na Ilha do Maranhão e terras circunvizinhas, trad. de
Sérgio Milliet, introdução e notas de Rodolfo Garcia, Livraria Martins Editora, São
Paulo, 1945.
O Nordeste, de Fortaleza, edição de 13 de fevereiro de 1943, informava a
existência de dez mil flagelados da seca reinante, refugiados na chapada da serra
do Araripe, no Cariri, alimentando-se de pequi.
Arruda Câmara registrou, em 1810, o pequi, classificando-o Acantacaryx pinguis.
"Essa planta produz abundantes frutos do tamanho de uma laranja, de polpa oleosa e
feculenta, muito nutritiva. É a delícia para os moradores do Ceará e Piauí. A árvore
atinge a altura de cinqüenta pés, com grossura proporcional. Sua madeira é de tão boa
qualidade para a construção naval quanto a cicopira (Sucupira, Bowdíchia
virgilioides, H.B.K., dizemos hoje). Cresce muito bem nos terrenos arenosos chamados em
Pernambuco tabuleiros e no Piauí chapadas, sendo muitíssimo vantajoso o
seu cultivo nos tabuleiros que bordam o litoral e que estão presentemente inúteis.
Presta grande auxílio ao povo nas épocas de seca e de fome."
Ver na "Cozinha goiana" o arroz de pequi. Há o licor de pequi,
popularíssimo em Goiás e Mato Grosso.
(Braga, Renato. Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia
da alimentação no Brasil, p.187-188) |
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