Moleque recém
saído dos cueiros, um dia, Manézinho engrossou a voz.
E que voz ele arrumou!
Em pequeno sua mãe o carregava pra cá e pra lá, nas festas,
batizados e afins, pra garantir um trocadinho. A voz de anjo embalava
belas cantigas, fazia o povo sonhar, encantando as festas do lugar.
Mas foi só a voz engrossar que Manézinho caiu no mundo e foi buscar
seu lugar no sol. E tome chuva. E tome voz grossa.
A cidade era perto de Tabuí, onde o cumpadre Orico morava, seus
causos, conhecidos em todas as vizinhanças, foram convidados pro casório.
Manézinho chegou, bateu as palmas no portão e foi logo contando as
novidades pro padrinho:
Também tinha sido chamado pro casamento do Coroné Helio Freire, que
ia ter festança comemorando a união. O cego Dió ia declamar seus
sonetos na beira da fogueira e seria a melhor ocasião pra Manézinho
inaugurar sua nova fase de cantoria: a embolada.
Foi a noitinha chegar e uma fila parecendo uma cobra, se desenroscava
pras bandas da fazenda. Lá pro final da fila vinha a bela professora
Dona Sterzinha, puxando seus filhos gêmeos Pedrim e Alvim que não
paravam de falar. Ô mininada encapetada! Manézinho tocou a conversar
com a professora e explicou que agora não cantava mais as musiquinhas
de igreja, agora era um versejador de emboladas e iria fazer sua estréia
na festança.
O terreiro todo enfeitado mostrava como a coisa ia ser grande,
fogueira, espetos de grande churrasco e o cego Dió (que enxergava
mais que metade do povo) puxando seus versos; ia começando a grande
reunião.
Manézinho, empurrado pelo colega de cantoria e versos nhô Filipi di
Paula, subiu num banco e bem antes do casamento começar, tascou sua
embolada:
Ôi, o peixe que eu pesquei lá numa pescaria
Botei no galinheiro ele se acostumou
E tão habituado que milho comia
Até junto do galo que não estranhou
Até pelo costume tinha liberdade
E muita vez na mão foi que se alimentou
Mas um dia que mal digo tive piedade
De ter tirado o peixe donde se criou
Levei-o para praia e fui botar no mar
Mas ele ao que parece disso não gostou
Pois tendo se esquecido de saber nadar
Coitadinho do peixe n'água se afogou!
Que sucesso! Que vozeirão! O povão
aplaudia, Manézinho envergonhado gaguejava, a cozinheira gritava, o
dono do boteco da cidade, Seu Josué, falava que ia contratar o
cantador pras noites de seu pé sujo. O noivo e a noiva ficaram pra trás,
a coisa agora era ouvir o novo cantador com sua verve e sua nova voz.
E que voz!
De manhãzinha, cinzas ainda quentes, lá no horizonte, deu pra
reparar o tal de Manézinho saindo enrabichado com uma dona, todo
feliz, arrastando sua nova conquista.
Foi só até a nova festa que o povo fez fofoca. De casa montada e
tudo, Manézinho agora vivia carregando pra cima e pra baixo sua senhôra.
Que se mais velha em idade, era mais nova nos folguedos do amor. Manézinho
exibia umas olheiras de causar inveja.
A festa, aniversário da professora Sterzinha, prometia ser das boas.
Os gêmeos, diferentes de rosto e iguais no vestir, vinham de
coletinho e goma no cabelo. Não durou muito, para o desespero do fotógrafo
Seu Barros, que tentava eternizar o momento. Logo, logo estavam todos
sujos e fazendo a maior bagunça. Só pararam quando o Seu Zé Bráz,
com um sotaque carregado de vinho, avisou que o cantador tinha
chegado, e sozinho. Rapidinho, arrumaram um caixote pra servir de
palco e todos se calaram esperando a embolada e a voz de veludo.
Oi, eu conheci um homem que era distraído
Fazia dessa vida uma atrapalhação
Andava pelo mundo tão absorvido
Que a nada de interesse prestava atenção
E contam mesmo dele um caso engraçado
Que eu não duvido mesmo que seja invenção
Dizem que chegou em casa muito preocupado
Com um grande charuto que trazia na mão
Entrando no seu quarto todo prazenteiro
Fez naquele momento uma tal confusão
Que deitando o charuto no seu travesseiro
Jogou-se no cinzeiro só por distração!
Novo sucesso, palmas, discursos, a platéia gargalhava, revirava os
oinhos; a embolada e a voz de locutor, foram novamente o ponto alto da
festa. Festa essa que contada em causo e verso pelo S'Ôrico, iria se
transformar no maior
acontecimento dos últimos tempos - ô homi danado de mentiroso!
O cego Dió (que visão!) fez até um sonetinho engrandecendo o
cantador:
Deus quando forma a humana criatura
põe na fornalha um tempo pra cozer
se sentir por alguns maior ternura
mais tempo na fornalha os vai reter
Mas a coisa não foi só assim, descobriram depois, que o cantador e
sua voz, tinham arrumado outra admiradora, e ele, tal qual da primeira
vez, tinha saído agarradinho! Foi um Deus nos acuda! Até a Diretora
do Ateneu, que de fofoqueira não tinha nada, falava no assunto!
Corria à boca pequena que Manézinho chegou em casa arrastando a nova
dona e foi logo dizendo pra outra com voz de rádio FM: ela fica também!
Que escândalo! Bigamia na cidade! Duas!
Se com uma a coisa já era difícil, que dirá com duas! Bofé!
As olheiras do coitado causavam mais e mais inveja nos homens. O
danado desfilava de braço dado com as duas, distribuindo sorrisos e
dando uma palinha da sua bela voz.
Pois foi a fama que o tal cantador conquistou que fez com que a festa
da cidade, que já já ia acontecer, fosse cada vez mais esperada.
Contam que só lá de Tabúi vieram 3 caminhões! A cidade estava toda
engalanada, o Prefeito Waldir do Vau, prometeu dar a chave da cidade;
todinha pintada de dourado ao mais novo felómeno da região - Manézinho
Rei da Voz, o embolador de corações!
No dia, chuva fininha no horizonte, palanque pintado de branco
escorrido com microfone da rádio montado, o Seu Barros ajeitava o
tripé de sua caixa preta, preparando a fota do ano. O pessoal foi
chegando, um e outro discurso falado e o povão já inquieto murmurava
algo sobre o cantador.
Manézinho se chegou todo enfatiado e sozinho de novo. Um zumzum
correu pela praça. Sozinho! Logo ele que tinha duas!
E tome embolada.
Apresentado (e precisava?) como o filho pródigo da região, Manézinho
atacou:
Oi, lá vinha pelo rio uma pedra boiando
Em riba dessa pedra 3 navegador
Um deles era cego nada enxergando
Outro não tinha braço pois o trem cortou
Mas deles o sem vergonha era o terceiro
Pois estava nuzinho como Deus criou
E eis que adiante o cego num berreiro
Olhando para o fundo um tostão gritou
Então ouvindo aquilo o tal que era aleijado
Passando a mão no fundo o níquel apanhou
E o tal que estava nu tendo o tostão tomado
Mais do que ligeirinho no bolso guardou!
Novamente foi uma loucura, aplausos, a chave da cidade trocando de mãos,
apupos, assovios, discursos e lá pro final, sem que ninguém
percebesse, Manézinho saiu com outra.
Manhã seguinte, charrete na porta, Manézinho se mudava com suas,
agora 3 mulheres, para uma fazenda lá pros cafundós. O sorriso das
senhôras dava um toque melancólico.
Manézinho, em suas palavras: deixava a vida pública para entrar na
privada!
Iria viver de amor, plantar e colher filhos e filhas. Uma multidão de
umas 20 pessoas se aglomerou ao redor dos retirantes.
Um coro se formou: Canta! Canta!
Manézinho, em pé na caçamba da charrete, como um político
atendendo seus eleitores, soltou sua maviosa voz:
Oi, um homem que comprou um burro numa feira
E quando para casa ela ia levar
Foi que ele arreparou olhando a dianteira
Que fartava dois dentes no maquiçilarrrrrr
E o r foi prolongado e prolongado e foi sumindo e foi ficando fino e
fino até que a velha vozinha de menino tomou seu lugar.
Voltou para fazer sua reclamação
Ao homem de quem acabou de comprar
E este respondeu cheio de conviquição
Depois de ter ouvido o comprador falarrrr
E a voz fininha foi ficando sumidinha, sumidinha.
Lá do alto da charrete, uma das mulheres, perguntou a hora e foi
saindo devagarinho, carregando sua maleta de papelão.
As duas restantes se olharam, se mediram, lançaram um olhar de
esguela pro cantador que se esgoelava tentando fazer sua voz voltar,
deram-se as mãos e uma delas chicoteou o cavalinho.
A charrete andou e jogou lá do alto o Manézinho, que caiu de cara
numa poça de lama. Uma das partes da dentadura voou longe, a roupa
nova toda manchada parecia camuflagem de exército. Manézinho se
levantou e começou a correr atrás das mulheres, e gritava e gritava
e só saía um fiapinho de voz.
O povo sem entender o que ele falava corria atrás.
Um cachorro latia, o cego Dió sacudia a cabeça perguntando o que
acontecia prele fazer um soneto, os gêmeos Pedrim e Alvim, jogavam
pedras nas poças d'água molhando todo mundo e o coitado do Mané
corria e caía e corria.
Quando percebeu que não ia conseguir, Mané caiu. Sentado no chão
meteu a cara entre as pernas e chorou.
O povo se chegou perto e em silêncio ficou.
Um minuto, dois, três, cinco.
Só se ouvia o choro descontrolado do Manézinho.
Foi quando uma das pessoas arriscou:
Seu Manézinho, será que dá pro sinhô cantá o restinho da
embolada?
Ora que despautério, não estava então vendo a situação?
Mas que coisa!
Ora Seu Mané, squece essas sirigaitas, cantaí o restinho, farta tão
pouco pro finar! Falou uma das mulheres da roda.
E parece que a coisa pegou, logo estavam todos ajudando o coitado e
pedindo, implorando, exigindo o final, vamos, cante, cante mesmo com
essa vozinha de bosta, cante!
Como que recobrando sua postura, Manézinho se ajeitou, limpou uns
pigarros inexistentes, e sem cantar declamou.
Oi, e disse com toda força que a razão lhe dava
Ô meu caro senhor queira me descurpar
Quando vendi o burro não adivinhava
Que o senhor queria para assoviar
Fraquinha essa não? Falou alguém lá do meio do povão.
Ruinzinha mermo! Respondeu outro.
E assim, reclamando foram saindo, deixando o pobre Mané, lá, em pé,
todo sujo, sem suas mulheres, sem sua bagagem, sem sua voz.
Agora, que a história tá contada, aparece sempre alguém
acrescentando algo, é a coisa do quem conta um ponto...
Pois bem, andam dizendo por aí, que o cego Dió viu o Manézinho lá
pelas bandas da Cascatinha, vestido de coroinha e cantando um Te
Deum fraquinho, com uma voz de menina moça chatinha e acabando
sempre com um soluço de cortar o coração.
Sei não!
(Colaboração de JPVeiga
à Jangada Brasil)
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