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Abril 2002
Ano IV - nº 44

A-BÊ-CÊ DOS CASADOS

Nº 182
Sítio do Mato
28/8/49


A vida dos home casado
tá u’a vida disgraçada,
pru via dos propres home;
traz a famía incomodada,
sai iscurecendo,
vem chegá de madrugada.

 


B
atê um home casado
no batente da janela...
Home casado e vadio
o diabo bota a sela;
merece levá um tiro
de quebrá cinco costela.

 


Ç
alvo em reservos
[1]
os que trabalha e prospera,
pra não ficá na putaria,
pra não ficá na miséra.
Onde tem home de respeito
muié-dama não rebéra.
[2]


Deve os home casado
tomá um pouco de respeito,
pra vê se o mundo conserta
ou se anda mais dereito,
que os home casado e vadio
do diabo ele é sujeito.


É certo que os casado
véve de mal a pió,
não magina o ôtro mundo,
nem se tem um’alma só;
os soltêro anda ruim,
e os casado inda pió.


Fique certo, os homes casado,
que os sortêro é quem vadia;
Deus deixô a mulé-dama
para imparo das famía;
tomando nossos pôsto,
de vocês o que seria?


Goza os home casado
duma vida tão ingrata,
que muié-dama só serve
pra deixá um n’alpracata;
conta muito por feliz
aquele qu’elas não mata.


Há noteza nos casado:
não prosperam pra sê home;
se fô rico passa mal,
se fô pobre morre a fome;
home casado e vadio
o diabo é quem consome.


I estes sem-vergonha
que dão na vaidade,
disprezando suas sinhora
e perdendo as amizade;
a muié deseja um tiro
por obra de caridade.


Já se vê, que grande clamô
de quem anda vadiando,
sai de suas casa de noite,
deixa suas muié chorando;
a alma deste malvado
‘stá no inferno dismaiando...


Kachorro seja os casado
que anda na baderna;
[3]
vem da rua de noite
cheio de bicheira nas perna;
quem morrê cum este mal
vai às profundas eterna.


Lembrai, homes casado,
que tomaste o sacramento;
home casado e vadio
tem o diabo por dentro,
vem da rua de noite
parecendo um papa-vento.
[4]


Miseraves é os casado
que dá a vida pelas rua,
gastando co’as muié-dama
sem pudê vistí as sua;
traz as dama bem vistida,
deixa a sua famía nua.


Não precisa, sínhoras dona,
se morrê por eles não,
que home casado e vadio
faz a pintura do cão;
vem da rua de noite
parecendo um lubisão.
[5]


Os filho desses home
cumo não há de ficá...
Além do aprendê,
e o que é de puxá;
pur cima da influênça
tem seus pais pra ensiná.


Pensais, homes casado,
qu’esta vida é ruim oção,
[6]
disprezando suas sinhora,
sofrendo suas tenção;
não magina, quando morre,
se perdê a salvação.


Quem tem amô encuberto
corre uma grande censura,
cada pulo que dá
salta sete sepultura,
no meio da cachorrada
dismanchando suas figura.


Respondeu a rapaziada,
todos por esta manêra:
- Feliz do home casado
que levá uma carrêra,
disprezando suas sinhora
para amá muié soltêra.


Se o mundo das muié-dama,
disprezando suas sinhora,
bem pudia maginá
que os casado é noves fora;
tenho visto até inzemplo
de ‘panhá de palmatóra.


Tem muitos sem-vergonhos
que as muiés fala, eles zanga;
merecia sê matado
ou tirados as capanga,
[7]
pra fazê como a boi magro,
e cumê capim na manga.
[8]


U favô que Deus fazia
era mandá um castigo
pr’acabá cum esses homes
que tivesse neste artigo;
[9]
além deles tá perdido
joga a muié no pirigo.


Veja lá, homes casado,
qu’isto não é boa vida.
Que resultado vocês tira
ir onde ‘stá muié perdida?
Não magma a falsidade
nem se morre na durmida.


Xêga os home cásado
querê tomá da rapaziada;
quando nóis num intrega,
fica de cabeça inchada,
[10]
nos jurando todo dia
nos batê pelas istrada.


Zangados ficam eles
brigando com as famía;
passa a noite intêra
só fazendo fantasmía;
[11]
sai ás sete horas
só chega ao rompê do dia.


Til, por sê do fim,
porém de grande valô;
a vergonha deste mundo
o diabo carregô,
principalmente dos casado,
que nem um pingo ficô—.



Notas:

1. Ressalvando, excluindo.
2. Não toma chegada, não se aproxima.
3. Farra, pândega.
4. Indivíduo dissimulado, fingindo uma virtude que não tem, procedendo conforme seus interesses.
5. Lobisomem.
6. Ruim oção: praticar maus atos.
7. Castrado.
8. Mangueira, pastagem cercada onde se pôe o gado magro.
9. Nesta condição.
10. Enciumado.
11. Exibição afetada e ilusória.


(Souza, Oswaldo de. Música folclórica do Médio São Francisco.   p.121-123)

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