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Abril 2002
Ano IV - nº 44

EMBOLADAS

Emboladas são décimas generalizadamente cantadas em versos de quatro e de cinco sílabas, próprias para as pelejas incruentas, para os lances dos entreveros demolidores. Gênero em desuso pelos violeiros improvisadores, ou repentistas, é comum entre os cantadores de feira, ao chocalhar dos maracás e aos ruídos dos reco-recos, sob a percussão estridulante dos pandeiros, acompanhados pelos ganzás ensurdecedores e, às vezes, por violas e concertinas.

O cantador de emboladas, nas feiras, raramente improvisa, porém é hábil em decorar versos, seus e alheios.

As emboladas, quando cantadas pelos nossos repentistas, ao baião da viola, no ardor dos improvisos, aparecem como ferro em brasa, no repto e no revide.

Começando pela embolada composta em versos de quatro sílabas, apresento duas décimas de violenta competição, ainda corrente na memória do povo. Digladiavam-se os cantadores João Pedra Azul e Manuel da Luz Ventania:

P. A.
- Eu sou judeu
Para o duelo!
Cantar martelo
Queria eu!
O pau bateu
Subiu poeira!
Aqui na feira
Nao fica gente!
Queimo a semente
Da bananeira!...


M. V.
- Sou bananeira...
De alagadiço!
Você diz isso
Por brincadeira!
Meto a madeira.
Quebro a viola!
Só me consola
Te ver, um dia,
De vara e guia,
Pedindo esmola!


A palavra bananeira, nas estâncias citadas, é referência ao município das Bananeiras, no Estado da Paraíba, terra de nascimento do inesquecido e famoso repentista Manuel da Luz Ventania.

Agora, passo ao exemplo da embolada em versos de cinco sílabas, com a transcrição de duas décimas de um embate verificado entre os cantadores Manuel Gavião, de Pernambuco, e o paraibano Antônio Machado, de acordo com a tradição oral:

M. G.
- Andei no sertão,
Fui bem acolhido,
Fiquei conhecido
Como um Salomão!
Cantei num salão
Dum homem letrado,
Fui elogiado
Por quem me escutou,
Só porque não sou
Antônio Machado!...

A. M.
- Pedinte, sem nome,
Te lembra, em dois meses,
Três ou quatro vezes,
Matei tua fome!
Se alguém te consome
Vem outro e consola!
Se a crise te assola
Não morras calado!
Procura o Machado
Que dá-te uma esmola!


Vem sendo divulgada pelo nordeste inteiro, há mais de trinta anos, através da memória do povo, a falada peleja do cego Aderaldo Ferreira de Araújo, do Ceará, com o negro piauiense José Pretinho. A agressiva contenda, no excerto da embolada, está repleta de palavras injuriosas, em linguagem comburente. Apreciemos a ferocidade das investidas no entredevoramento do martelo:

J. P.
- Vou dar-te uma surra
Com cipó de urtiga,
Furo-te a barriga,
No ferrão tu urra!
Hoje o cego esturra
Pedindo socorro!
Sai dizendo: eu morro,
Meu Deus, que fadiga,
Vou deixar a briga,
Não agüento e corro!

A. F.
- Dando-te uma tapa
Tu perdes a fama,
Porque comes lama
Dizendo que é papa!
Eu rompo-te o mapa,
Te rasgo de espora!
O negro, então, chora,
Com febre e com íngua!
Eu lhe deixo a língua
Um palmo de fora!

J. P.
- No sertão peguei
Um cego danado,
Passei-lhe o machado,
Caiu, eu sangrei!
O couro tirei,
Em regra de escala,
Espichei, na sala,
Pus ao sol, num beco,
Depois dele seco,
Fiz um par de mala!

A. F.
- Negro, és monturo,
Molambo rasgado,
Cachimbo apagado,
Recanto de muro!
Negro sem futuro,
Perna de tição,
Boca de porão,
Beiço de gamela,
Venta de moela,
Moleque ladrão!

A peleja continuou, violenta e injuriosa. O cego venceu, e nada sofreu, porque os antagonistas ganhavam a vida brigando de boca. Se resvalassem para as vias de fato, podiam perdê-la.

Anotei as décimas registadas neste capítulo ouvindo o cego Francisco Bento.


(Coutinho Filho, F. Violas e repentes; repentes populares, em prosa e verso pesquisas folclóricas no nordeste brasileiro. Recife, 1953, p.39-42)

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