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Abril 2002
Ano IV - nº 44

MINHA SOGRA NA ALGIBEIRA

Falar da sogra é tarefa delicadíssima. De antemão já peço desculpas a todas as sogras que por acaso forem ler estas linhas. Uma vez que a fala popular nem sempre se refere apenas às suas boas qualidades.

A cultura do povo é vida. Quando as pessoas acham tempo para brincar, dançar e cantar, seus textos falam daquilo que se passa naquele momento e naquele lugar. Também no Vale do Jequitinhonha é assim. Suas cantigas de roda falam de todos os que entram na dança: novos e velhos, feios e bonitos, pretos e brancos, solteiros e casados.

Fazer uma roda torna-se um acontecimento que mexe com todo mundo.

Você diz que não me quer
diga sua razão porque.
Você me chamou de pobre
que riqueza tem você?
(Rufina Teixeira Ramalho – Araçuaí, 1975)

Lá vem a lua saindo
por detrás do gravatá.
A mulher deu no marido
com uma tora do jabá.
(Josefa Alves dos Reis – Araçuaí, 1977)

Ó menina bonitinha
que entrou neste salão
parece uma beija-flor
no pezinho de um algodão.
(Povo do Lugar – Turmalina, 1978)

Em cima daquela serra
tem um pé de maxixeiro.
Quem quiser brincar com as meninas
põe as velhas no chiqueiro.
(Povo do lugar – Araçuaí, 1980)

Também a sogra mais o sogro não escaparam da atenção. Já desde o tempo de namoro os pais dos noivos são lembrados.

Minha mãe me pôs na escola
pra aprender o beabá.
Minha mestra me ensinou
namorar e não casar.
(Graça Gonçalves – Araçuaí, 1978)

Minha mãe me bateu
com pau de mexer sabão.
Minha mãe que não sabe
namorar como é bão.
(Maria Iraci – Turmalina, 1982)

Minha mãe me deu uma pisa
me passou um repelão
modo uma carta que eu tinha
debaixo de meu colchão.
(Filomena Maria de Jesus – Araçuaí, 1973)

Minha mãe quando me dava
me dava com cobertor.
Deu um vento na roseira
me cobriu toda de flor
(Filomena Maria de Jesus – Araçuaí, 1975)

Minha mãe, minha mãezinha,
que forte mãe tenho eu.
Ela brincou no seu tempo
não quer que eu brinco no meu.
(Filomena Maria de Jesus – Araçuaí, 1973)

Minha mãe me ensinou
como é que se namora.
Sentado bem juntinho
um beijo de hora e hora.
(Maria Iraci – Turmalina, 1982)

Minha mãe me chamou feia
ela só quer ser formosa.
Minha mãe é uma roseira
Eu vou ser botão de rosa.
(Lina Pereira – Araçuaí, 1975)

Minha mãe me deu uma surra
com um cipó de feijão.
Depois veio me adular
venha cá meu coração.
(Ana Ferreira Mendes – Araçuaí, 1978)

Minha mãe me xingou feio
eu não era feio assim.
Foi um feio muito feio
Que pegou feiura em mim.
(Povo do Lugar – Araçuaí, 1976)

Minha mãe me deu uma surra
com a pena de ariri.
Eu chorei a noite inteira
não deixei mamãe dormir.
(Graça Gonçalves – Araçuaí, 1978)

Minha mãe, minha mãezinha,
minha mãe que Deus me deu
eu imagino é só casar
minha mãe ficar sem eu.
(Maria da Conceição G. J. – Araçuaí, 1977)

Minha mãe me casa logo
enquanto sou uma rapariga (Português!)
O milho plantado cedo
dá folha, não dá espiga.
(Filomena Maria de Jesus – Araçuaí, 1973)

Minha mãe diz que sou dela
isto lá que eu não sei.
O mundo dá tantas voltas
e não sei de quem serei.
(Luiza Teixeira Ramalho – Araçuaí, 1979)

Minha mãe me casa cedo
que eu não quero envelhecer.
Eu não sou soca de cana
que corta e torna nascer.
(Graça Gonçalves – Araçuaí, 1978)

Minha mãe me perguntou
quantos namorados eu tinha.
Mas eu disse para ela:
eu agora estou sozinha.
(Maria Esteves Vieira – Itinga, 1975)

Minha mãe você me casa
pois eu quero dormir junto.
Eu sou muito mofina
tenho medo de defunto.
(Maria Lira Marques – Araçuaí, 1973)

Minha mãe me perguntou:
como é que rapaz namora?
Ponho o lenço na (al-)gibeira
e deixo as pontinhas de fora.
(Graça Gonçalves – Araçuaí, 1977)

Minha mãe eu vou casar.
Minha filha, com quem?
vou casar com um vaqueirinho.
Minha filha, casou bem.
(Graça Gonçalves – Araçuaí, 1978)

Eu sai de lá de casa
minha mãe me encomendou
não cantasse de porfia
nem enjeitasse cantador.
(Maria Francisca da Silva – Turmalina, 1982)

Menina de olhos verdes
de camisa de "morim",
Deus que pague sua mãe
que criou você pra mim.
(Malvínia – Araçuaí, 1976)

Eu sai de lá de casa
minha mãe me encomendou
meu filho "ocê não apanha
que seu pai nunca apanhou.
(José Alves Pinheiro – Araçuaí, 1977)

Sereno da madrugada
cai na flor da melancia.
Estou conversando com a mãe
e o sentido está na filha.
(Maria Otoni – Araçuaí, 1974)

Minha mãe tem sua cama
eu tenho meu cortinado.
Minha mãe tem seu marido
e eu tenho meu namorado.
(Maria Lira Marques – Araçuaí, 1975)

Se eu fosse um passarinho
pra cantar no seu telhado,
chamava sua mãe de sogra,
seu irmão de meu cunhado.
(Povo do Lugar – Araçuaí, 1980)

Minha mãe é uma coruja
o meu pai um caburé
Minha mãe morreu de fome
meu pai de tanto comer.
(Filomena Maria de Jesus – Araçuaí, 1973)

Esta casa não tem nome,
mas agora eu vou pôr.
É a casa da minha sogra
onde mora meu amor.
(Clemência Santos Fernandes – Araçuaí, 1977)

Eu queria ter minha mãe
nem que fosse de cansanção.
Ainda mesmo que me queimasse
minha mãezinha do coração.
(Aminta Rocha Gusmão – Araçuaí, 1976)

Menina, seu pai é um cravo,
sua mãe Salve-Rainha.
Eu sou a vida doçura
você é a esperança minha.
(Povo do Lugar – Araçuaí, 1978)

Eu vi minha mãe rezando
nos pés da Virgem Maria.
Uma Santa escutando
o que a outra dizia.
(Luiza Esteves Gonçalves – Itinga, 1977)

As meninas de hoje em dia
só se fala em casar.
Põe a panela no fogo
minha mãe vem temperar.
(Filomena Maria de Jesus – Araçuaí, 1973)

Quando eu era pequenina
que não sabia falar,
minha mãe já me ensinava
a Deus do céu adorá.
(Geralda Pereira Rodrigues – Itinga, 1974)

Menina me dá um beijo
ou na porta ou na janela.
Se sua mãe for ciumenta
dá uma volta e engana ela.
(Geraldo Ornelas Chaves – Itinga, 1974)

Assim encontramos ainda muito mais (!) versos sobre a mãe, futura sogra dos namorados.

Mas pensemos agora um pouco no pai. Ele aparece em versos parecidos e outros totalmente novos.

Os rapazes de hoje em dia
já conversa em casar.
Põe a foice na carcunda
papaizinho, não sei roçar.
(Valtemir – Araçuaí, 1976)

Lá na casa do meu sogro
não precisa mais chover.
Só os olhos do meu bem
faz o mato enverdecer.
(Graça Gonçalves – Araçuaí, 1978)

Papai, eu quero me casar
com um vaqueirinho.
O gibão está rasgado
mas ele tem um garrotinho.
(Janair da Costa Novais – Araçuaí, 1978)

Na fazenda do meu pai
não precisa mais chover.
Só os olhos daquele ingrato
faz as matas enverdecer.
(Josefa Maria Franco – Araçuaí, 1976)

Papai me deu uma surra
Sexta-feira da Paixão.
A surra que ele me deu
foi café com requeijão.
(Valtemir – Araçuaí, 1976)

Na porta da minha casa
tem um banquinho danado.
De dia senta meu pai
de noite meu namorado.
(Terezinha Gonçalves – Araçuaí, 1978)

Papai tem sua cama
e eu tenho meu colchãozinho.
Papai tem sua esposa
e eu tenho meu amorzinho.
(Povo do Lugar – Araçuaí, 1973)

Menina de olho preto
sobrancelha de veludo,
se seu pai não tem dinheiro
seu semblante vale tudo.
(Povo do Lugar – Araçuaí, 1976)

Menina me dá um beijo
ou na porta ou na janela
aonde teu pai não vê
o rastinho de tua chinela.
(Filomena Maria de Jesus – Araçuaí, 1973)

Desde o dia que eu te vi
na rua do cai e cai
Te achei engraçadinho
pra ser genro do meu pai.
(Clemência Santos Fernandes – Araçuaí, 1975)

Menino de calça escura
camisa de "amurim"
Eu agradeço o teu pai
que criou você pra mim.
(Povo do Lugar – Araçuaí, 1975)

Menina aperta minha mão
não aperta meu dedinho
que eu não quero que papai sabe
desse nosso segredinho.
(Domingos Félix – Itinga, 1974)

Sacudi o pé de lima
pra cair os "oruvai" (orvalhos).
Que menina bonitinha
vai ser nora de papai.
(Povo do Lugar – Araçuaí, 1977)

Lá em casa foi um moço
prá casar não casou
Lá na mesa está escrito:
pranchão ele já tomou.
(Povo do Lugar – Araçuaí, 1977)

Por detrás daquela serra
tem um ninho de papagaio.
Quem quiser casar comigo
manda carta pra papai.
(Maria Angela Ornelas Chaves – Itinga, 1974)

A folha da bananeira
pinga ouro e pinga prata.
Na família de meu sogro
tem um roxo que me mata.
(Roque Alves do Santos – Araçuaí, 1977)

Menina diga a seu pai
que dele eu não tenho medo.
Mandei fazer um anel
somente para seu dedo.
(Luiza Teixeira Ramalho – Araçuaí, 1975)

Mas vamos ao nosso caso: a sogra na algibeira... será o quê que houve na vida de genros e noras, para existirem versos como estes?

Minha sogra é bonitinha
bonitinha ela é
parecendo um sapo inchado
na boca de um jacaré.
(Leonida – Araçuaí, 1974)

Minha sogra me xingou
a cunhada xingou também.
Não me importo com isso
que o seu filho me quer bem.
(Maria Alves da Silva – Itaobim, 1978)

Minha sogra é muito boa
pra fazer judiação.
Judia com meu benzinho.
pra me dar tanta aflição.
(Ana Ferreira Mendes – Araçuaí, 1978)

Minha sogra me xingou
a cunhada ajudou
Mas eu tenho me amor
prá falar a meu favor.
(Maria dos Anjos – Itinga, 1975)

Minha sogra me xingou
caco de torrar miséria
Eu não gosto da minha sogra
mas só gosto da filha dela.
(Crianças – Araçuaí, 1977)

Minha sogra me pediu
quatro ovos de gambá.
Eu mandei dizer a ela
Nunca vi gambá botar.
(Crianças – Araçuaí, 1974)

Minha mãe, quando eu casei
ela me deu três ovelhas.
Uma cega, outra magra
outra troncha da orelha.
(Generosa – Araçuaí, 1977)

Felizmente existem junto ao xingatório outros versos mais amorosos.

Travessei o rio a nado
na raiz da gameleira
com meu amor nos braços
minha sogra na (al-)gibeira.
(Josefa Maria França – Araçuaí, 1978)

Borboleta pintadinha
pinta-aqui, pinta acolá
Pinta a casa da minha sogra
que "tá de banda de lá
(Clarice – Araçuaí, 1978)

Minha sogra é uma rosa,
o meu sogro é um botão.
Eu estimo eles dois
dentro do meu coração.
(Maria Francisca da Silva – Turmalina, 1982)

O cabelo do meu sogro
não precisa pentear.
Passa o pente prá-lá, prá-cá
pra os cachinhos balancear.
(Janice Mendes – Araçuaí, 1978)

Por fim vão aqui dois versos e alguns textos de pára-choques de caminhão.

A todas as sogras digo sinceramente que escrevi este artigo apenas para registrar o folclore a seu respeito. Não tive nenhuma intenção, nem motivo, para irá-las. Afinal sou frade, não tenho sogra!

Quem tiver raiva de mim
eu não sei por que razão.
Se for falta de carinho
dou procê meu coração.
(Filomena Maria de Jesus – Araçuaí, 1971)

Vamos dar a despedida
como deu a saracura.
Bateu asa e foi dizendo:
Paixão de amor não tem cura.
(Filomena Maria de Jesus – Araçuaí, 1976)

Textos de pára-choques de caminhão:

Deus bebeu, quando esta sogra me deu.

Feliz foi Adão,
Que não teve sogra nem caminhão.

Não mando minha sogra para o inferno,
Porque tenho dó do capeta.

Para mim sogra não é parente, é castigo.

Casei-me com a cunhada
Para economizar a sogra.

O que mata de repente
É vento pelas costas e sogra pela frente.


(Van der Poel, frei Francisco. Em Boletim da Comissão Mineira de Folclore, Belo Horizonte, ano 7, nº 10, agosto de 1986, p.14)

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