Falar da sogra é tarefa
delicadíssima. De antemão já peço desculpas a todas as sogras que por acaso forem ler
estas linhas. Uma vez que a fala popular nem sempre se refere apenas às suas boas
qualidades.
A cultura do povo é vida. Quando as pessoas acham tempo para brincar, dançar e cantar,
seus textos falam daquilo que se passa naquele momento e naquele lugar. Também no Vale do
Jequitinhonha é assim. Suas cantigas de roda falam de todos os que entram na dança:
novos e velhos, feios e bonitos, pretos e brancos, solteiros e casados.
Fazer uma roda torna-se um acontecimento que mexe com todo mundo.
Você diz que não me quer
diga sua razão porque.
Você me chamou de pobre
que riqueza tem você?
(Rufina Teixeira Ramalho Araçuaí, 1975)
Lá vem a lua saindo
por detrás do gravatá.
A mulher deu no marido
com uma tora do jabá.
(Josefa Alves dos Reis Araçuaí, 1977)
Ó menina bonitinha
que entrou neste salão
parece uma beija-flor
no pezinho de um algodão.
(Povo do Lugar Turmalina, 1978)
Em cima daquela serra
tem um pé de maxixeiro.
Quem quiser brincar com as meninas
põe as velhas no chiqueiro.
(Povo do lugar Araçuaí, 1980)
Também a sogra mais o sogro não escaparam da atenção. Já desde o tempo de namoro
os pais dos noivos são lembrados.
Minha mãe me pôs na escola
pra aprender o beabá.
Minha mestra me ensinou
namorar e não casar.
(Graça Gonçalves Araçuaí, 1978)
Minha mãe me bateu
com pau de mexer sabão.
Minha mãe que não sabe
namorar como é bão.
(Maria Iraci Turmalina, 1982)
Minha mãe me deu uma pisa
me passou um repelão
modo uma carta que eu tinha
debaixo de meu colchão.
(Filomena Maria de Jesus Araçuaí, 1973)
Minha mãe quando me dava
me dava com cobertor.
Deu um vento na roseira
me cobriu toda de flor
(Filomena Maria de Jesus Araçuaí, 1975)
Minha mãe, minha mãezinha,
que forte mãe tenho eu.
Ela brincou no seu tempo
não quer que eu brinco no meu.
(Filomena Maria de Jesus Araçuaí, 1973)
Minha mãe me ensinou
como é que se namora.
Sentado bem juntinho
um beijo de hora e hora.
(Maria Iraci Turmalina, 1982)
Minha mãe me chamou feia
ela só quer ser formosa.
Minha mãe é uma roseira
Eu vou ser botão de rosa.
(Lina Pereira Araçuaí, 1975)
Minha mãe me deu uma surra
com um cipó de feijão.
Depois veio me adular
venha cá meu coração.
(Ana Ferreira Mendes Araçuaí, 1978)
Minha mãe me xingou feio
eu não era feio assim.
Foi um feio muito feio
Que pegou feiura em mim.
(Povo do Lugar Araçuaí, 1976)
Minha mãe me deu uma surra
com a pena de ariri.
Eu chorei a noite inteira
não deixei mamãe dormir.
(Graça Gonçalves Araçuaí, 1978)
Minha mãe, minha mãezinha,
minha mãe que Deus me deu
eu imagino é só casar
minha mãe ficar sem eu.
(Maria da Conceição G. J. Araçuaí, 1977)
Minha mãe me casa logo
enquanto sou uma rapariga (Português!)
O milho plantado cedo
dá folha, não dá espiga.
(Filomena Maria de Jesus Araçuaí, 1973)
Minha mãe diz que sou dela
isto lá que eu não sei.
O mundo dá tantas voltas
e não sei de quem serei.
(Luiza Teixeira Ramalho Araçuaí, 1979)
Minha mãe me casa cedo
que eu não quero envelhecer.
Eu não sou soca de cana
que corta e torna nascer.
(Graça Gonçalves Araçuaí, 1978)
Minha mãe me perguntou
quantos namorados eu tinha.
Mas eu disse para ela:
eu agora estou sozinha.
(Maria Esteves Vieira Itinga, 1975)
Minha mãe você me casa
pois eu quero dormir junto.
Eu sou muito mofina
tenho medo de defunto.
(Maria Lira Marques Araçuaí, 1973)
Minha mãe me perguntou:
como é que rapaz namora?
Ponho o lenço na (al-)gibeira
e deixo as pontinhas de fora.
(Graça Gonçalves Araçuaí, 1977)
Minha mãe eu vou casar.
Minha filha, com quem?
vou casar com um vaqueirinho.
Minha filha, casou bem.
(Graça Gonçalves Araçuaí, 1978)
Eu sai de lá de casa
minha mãe me encomendou
não cantasse de porfia
nem enjeitasse cantador.
(Maria Francisca da Silva Turmalina, 1982)
Menina de olhos verdes
de camisa de "morim",
Deus que pague sua mãe
que criou você pra mim.
(Malvínia Araçuaí, 1976)
Eu sai de lá de casa
minha mãe me encomendou
meu filho "ocê não apanha
que seu pai nunca apanhou.
(José Alves Pinheiro Araçuaí, 1977)
Sereno da madrugada
cai na flor da melancia.
Estou conversando com a mãe
e o sentido está na filha.
(Maria Otoni Araçuaí, 1974)
Minha mãe tem sua cama
eu tenho meu cortinado.
Minha mãe tem seu marido
e eu tenho meu namorado.
(Maria Lira Marques Araçuaí, 1975)
Se eu fosse um passarinho
pra cantar no seu telhado,
chamava sua mãe de sogra,
seu irmão de meu cunhado.
(Povo do Lugar Araçuaí, 1980)
Minha mãe é uma coruja
o meu pai um caburé
Minha mãe morreu de fome
meu pai de tanto comer.
(Filomena Maria de Jesus Araçuaí, 1973)
Esta casa não tem nome,
mas agora eu vou pôr.
É a casa da minha sogra
onde mora meu amor.
(Clemência Santos Fernandes Araçuaí, 1977)
Eu queria ter minha mãe
nem que fosse de cansanção.
Ainda mesmo que me queimasse
minha mãezinha do coração.
(Aminta Rocha Gusmão Araçuaí, 1976)
Menina, seu pai é um cravo,
sua mãe Salve-Rainha.
Eu sou a vida doçura
você é a esperança minha.
(Povo do Lugar Araçuaí, 1978)
Eu vi minha mãe rezando
nos pés da Virgem Maria.
Uma Santa escutando
o que a outra dizia.
(Luiza Esteves Gonçalves Itinga, 1977)
As meninas de hoje em dia
só se fala em casar.
Põe a panela no fogo
minha mãe vem temperar.
(Filomena Maria de Jesus Araçuaí, 1973)
Quando eu era pequenina
que não sabia falar,
minha mãe já me ensinava
a Deus do céu adorá.
(Geralda Pereira Rodrigues Itinga, 1974)
Menina me dá um beijo
ou na porta ou na janela.
Se sua mãe for ciumenta
dá uma volta e engana ela.
(Geraldo Ornelas Chaves Itinga, 1974)
Assim encontramos ainda muito mais (!) versos sobre a mãe, futura sogra dos namorados.
Mas pensemos agora um pouco no pai. Ele aparece em versos parecidos e outros totalmente
novos.
Os rapazes de hoje em dia
já conversa em casar.
Põe a foice na carcunda
papaizinho, não sei roçar.
(Valtemir Araçuaí, 1976)
Lá na casa do meu sogro
não precisa mais chover.
Só os olhos do meu bem
faz o mato enverdecer.
(Graça Gonçalves Araçuaí, 1978)
Papai, eu quero me casar
com um vaqueirinho.
O gibão está rasgado
mas ele tem um garrotinho.
(Janair da Costa Novais Araçuaí, 1978)
Na fazenda do meu pai
não precisa mais chover.
Só os olhos daquele ingrato
faz as matas enverdecer.
(Josefa Maria Franco Araçuaí, 1976)
Papai me deu uma surra
Sexta-feira da Paixão.
A surra que ele me deu
foi café com requeijão.
(Valtemir Araçuaí, 1976)
Na porta da minha casa
tem um banquinho danado.
De dia senta meu pai
de noite meu namorado.
(Terezinha Gonçalves Araçuaí, 1978)
Papai tem sua cama
e eu tenho meu colchãozinho.
Papai tem sua esposa
e eu tenho meu amorzinho.
(Povo do Lugar Araçuaí, 1973)
Menina de olho preto
sobrancelha de veludo,
se seu pai não tem dinheiro
seu semblante vale tudo.
(Povo do Lugar Araçuaí, 1976)
Menina me dá um beijo
ou na porta ou na janela
aonde teu pai não vê
o rastinho de tua chinela.
(Filomena Maria de Jesus Araçuaí, 1973)
Desde o dia que eu te vi
na rua do cai e cai
Te achei engraçadinho
pra ser genro do meu pai.
(Clemência Santos Fernandes Araçuaí, 1975)
Menino de calça escura
camisa de "amurim"
Eu agradeço o teu pai
que criou você pra mim.
(Povo do Lugar Araçuaí, 1975)
Menina aperta minha mão
não aperta meu dedinho
que eu não quero que papai sabe
desse nosso segredinho.
(Domingos Félix Itinga, 1974)
Sacudi o pé de lima
pra cair os "oruvai" (orvalhos).
Que menina bonitinha
vai ser nora de papai.
(Povo do Lugar Araçuaí, 1977)
Lá em casa foi um moço
prá casar não casou
Lá na mesa está escrito:
pranchão ele já tomou.
(Povo do Lugar Araçuaí, 1977)
Por detrás daquela serra
tem um ninho de papagaio.
Quem quiser casar comigo
manda carta pra papai.
(Maria Angela Ornelas Chaves Itinga, 1974)
A folha da bananeira
pinga ouro e pinga prata.
Na família de meu sogro
tem um roxo que me mata.
(Roque Alves do Santos Araçuaí, 1977)
Menina diga a seu pai
que dele eu não tenho medo.
Mandei fazer um anel
somente para seu dedo.
(Luiza Teixeira Ramalho Araçuaí, 1975)
Mas vamos ao nosso caso: a sogra na algibeira... será o quê que houve na vida de
genros e noras, para existirem versos como estes?
Minha sogra é bonitinha
bonitinha ela é
parecendo um sapo inchado
na boca de um jacaré.
(Leonida Araçuaí, 1974)
Minha sogra me xingou
a cunhada xingou também.
Não me importo com isso
que o seu filho me quer bem.
(Maria Alves da Silva Itaobim, 1978)
Minha sogra é muito boa
pra fazer judiação.
Judia com meu benzinho.
pra me dar tanta aflição.
(Ana Ferreira Mendes Araçuaí, 1978)
Minha sogra me xingou
a cunhada ajudou
Mas eu tenho me amor
prá falar a meu favor.
(Maria dos Anjos Itinga, 1975)
Minha sogra me xingou
caco de torrar miséria
Eu não gosto da minha sogra
mas só gosto da filha dela.
(Crianças Araçuaí, 1977)
Minha sogra me pediu
quatro ovos de gambá.
Eu mandei dizer a ela
Nunca vi gambá botar.
(Crianças Araçuaí, 1974)
Minha mãe, quando eu casei
ela me deu três ovelhas.
Uma cega, outra magra
outra troncha da orelha.
(Generosa Araçuaí, 1977)
Felizmente existem junto ao xingatório outros versos mais amorosos.
Travessei o rio a nado
na raiz da gameleira
com meu amor nos braços
minha sogra na (al-)gibeira.
(Josefa Maria França Araçuaí, 1978)
Borboleta pintadinha
pinta-aqui, pinta acolá
Pinta a casa da minha sogra
que "tá de banda de lá
(Clarice Araçuaí, 1978)
Minha sogra é uma rosa,
o meu sogro é um botão.
Eu estimo eles dois
dentro do meu coração.
(Maria Francisca da Silva Turmalina, 1982)
O cabelo do meu sogro
não precisa pentear.
Passa o pente prá-lá, prá-cá
pra os cachinhos balancear.
(Janice Mendes Araçuaí, 1978)
Por fim vão aqui dois versos e alguns textos de pára-choques de caminhão.
A todas as sogras digo sinceramente que escrevi este artigo apenas para registrar o
folclore a seu respeito. Não tive nenhuma intenção, nem motivo, para irá-las. Afinal
sou frade, não tenho sogra!
Quem tiver raiva de mim
eu não sei por que razão.
Se for falta de carinho
dou procê meu coração.
(Filomena Maria de Jesus Araçuaí, 1971)
Vamos dar a despedida
como deu a saracura.
Bateu asa e foi dizendo:
Paixão de amor não tem cura.
(Filomena Maria de Jesus Araçuaí, 1976)
Textos de pára-choques de caminhão:
Deus bebeu, quando esta sogra me deu.
Feliz foi Adão,
Que não teve sogra nem caminhão.
Não mando minha sogra para o inferno,
Porque tenho dó do capeta.
Para mim sogra não é parente, é castigo.
Casei-me com a cunhada
Para economizar a sogra.
O que mata de repente
É vento pelas costas e sogra pela frente.
(Van der Poel, frei Francisco. Em Boletim
da Comissão Mineira de Folclore, Belo Horizonte, ano 7, nº 10, agosto de 1986,
p.14)