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RESPOSTAS

Certas expressões de uso freqüente na linguagem cotidiana tinham complementos rimados, ou respostas que faziam parte do repertório infantil em todo o país. Embora de uma para outra região sofressem pequenas modificações, eram basicamente as mesmas, e muitas ainda hoje perduram, principalmente no interior.

Era assim, generalizada, esta resposta à frase:

- Tô com fome!
- Vai na rua, mata um home, tira a tripa e come...

No Estado do Rio de Janeiro encontrava-se esta outra forma:

- Tô com fome!
- Vai na rua, mata um home, come a perna de João Gome!

E replicava-se, de modo prosaico e cortante, quando alguém dizia:

- Tô com frio!
- Mete o c... no rio e dá um assovio!


Ou, ao contrário:

- Tô com calor!
- Bota o c... no vapor!


Já a frase "quero mas não posso", ou sua semelhante "bem que eu queria", mereciam toda essa longa filosofia:

O querê e não podê são dois sentimentos junto,
Quem morre logo se acaba, quem fica padece munto...


Ao passo que se demonstrava a mais completa indiferença, quando a declaração de rompimento provocava apenas esta reação:

- Tô de mal!
- Come toicinho sem sal!


O mesmo se pode dizer da despedida que tinha essa rima:

- Vou m’embora!
- Eu quero vê quem chora...


A saudação matinal tinha em seu eco um laivo de hospitalidade, o mesmo acontecendo com sua correspondente noturna:

- Bom dia!
- Só não dô café purque não tenho vasia (vasilha)...


- Boa noite!
- Só não dô café purque não tenho biscoito...


A eclosão da impaciência ainda é igual em toda parte:

- Tá na hora!
- Bota o bacalhau pra fora!


Adaptada aos espetáculos de circo, até hoje se ouve:

- Tá na hora!
- Bota o palhaço pra fora!


Também generalizada era a manifestação de intensa apreciação:

- Você gosta?
- Gosto que me inrosco...


Em Campos, Estado do Rio de Janeiro, assim revidava quem de "bobo" era chamado:

- ... Bobo!
- Bobo é ovo, que bota na mesa e não dá pro teu povo!

Muitas crianças foram castigadas por brincar dessa maneira quando alguém batia à porta de casa:

- Quem fuça?
- É o filho da porca ruça...


E quando, à vista de extravagância ou trela perigosa, alguém advertia, assim ou com palavras semelhantes:

- Você morre!
- Pra quem morre, sepultura!
Pra quem vive, banana dura!...


A descrença nos juramentos freqüentes exprimia-se desse modo:

- Juro!!!
- Você jura?
Feijão sem gordura!

- Torna a jurá?
- Feijão sem sá...

- Jurô os dois!
Feijão c’arrôs...

- Juramento?
Feijão sem pimenta...


E o espanto, em suas duas manifestações mais populares e correntes tinha seu eco:

- Oxente!
- Dá co’a língua no dente!

- Credo, cruz!
- O nome de Jesus!...


A curiosidade ou ânsia por saber das novidades freqüentemente recebiam a zombeteira explicação:

- Que há de novo?
- Um ovo...


E nessas circunstâncias, o pouco caso da resposta provocava a tréplica.

- Você come a casca e eu como o ovo...

Em Pernambuco, idêntico menosprezo era assim retribuído:

- ... Uma banda pr’ocê outra pro povo!

Embora punida e combatida, em ambas as regiões sobrevive a má-criação chocante:

- Que me importa?...
- Bate com o c... na porta!


Quase tão prosaicas eram estas outras respostas malcriadas, também nordestinas:

- Qué fazê uma aposta?
- Eu como a galinha,
Você come a bosta...

- Fica calado!
- Teu furico tá inchado...


Quando havia oportunidade, aproveitava-se a contagem apontada a dedo, para responder, acompanhando-se do gesto imitativo correspondente:

- Olha um! Olha dois! Olha três!
- Olha a facada na barriga do freguês...


Ainda em Pernambuco, assim ressoava o apetite infantil:

- Tô com fome!
- Come um home...

- Quero mais!
- Come um rapaz!..

- Quero muito!
- Come um defunto...

- Quero não!
- Come um anão.
..

E o comentário ao tempo ameaçador provocava o complemento:

- Vai chovê...
- Quando bode espirra é sinal de chuva!


Mas não havia limites regionais para o revide à malquerença triunfante:

- Bem feito!
- Teu nariz tem defeito...


Nem para o petulante disfarce da decepção diante da negativa final e peremptória:

- Não pode!
- Quem tem cavanhaque é bode!


E a vista de três meninas ou moças endomingadas despertava o elogio zombeteiro:

- Três mocinhas elegantes, Cobra, jacaré, elefante...

Assim como, infalível e idêntica em toda parte era a justificativa do direito à posse da colocação que vagasse:

- Quem vai ao ar perde o lugar!

Ou, mais comumente ainda:

- Quem vai ao vento perde o assento!...


(Rodrigues, Anna Augusta. Rodas brincadeiras e costumes, p.265-268)