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Abril 2001
Ano III - nº 32

DE COMO TRATAM OS SELVAGENS OS SEU DOENTES. DOS FUNERAIS E SEPULTURAS E DO MODO DE CHORAR OS SEUS DEFUNTOS

Terminando minhas observações acerca dos selvagens da América, direi como tratam os seus doentes e os assistem em seus últimos momentos ao aproximar-se a morte natural.

Se acontece cair doente algum deles, logo mostra a um amigo a parte do corpo em que sente mal e esta é imediatamente chupada pelo companheiro ou por algum pajé, embusteiro de gênero diverso dos caraíbas a que me referi no capítulo em que tratei de sua religião e que corresponde aos nossos barbeiros ou médicos. E tais pajés lhes fazem crer não somente que os curam mas ainda que lhes prolongam a vida.

Além das febres e doenças comuns, às quais, em razão do clima saudável estão menos sujeitos do que nós, sofrem os nossos americanos de uma moléstia incurável denominada pian e que tem por causa a luxúria, embora tenha visto meninos tão atacados dessa doença, que se pareciam com variolosos. Transformando-se o mal em pústulas mais grossas do que o polegar, que se espalham por todo o corpo, os indivíduos que o contraem ficam recobertos de marcas que se conservam durante a vida toda, tal como entre nós ocorre aos angalicados e cancerosos que se contagiaram na torpeza e na impudicícia. Com efeito, vi nesse país um intérprete natural de Ruão que, tendo chafurdado na obscenidade com as raparigas da terra, recebeu tão amplo e merecido salário que tinha o corpo coberto de pians e o rosto desfigurado a ponto de parecer com um desses leprosos em quem as cicatrizes se tornam indeléveis. É essa a moléstia mais perigosa do Brasil.

Os americanos têm por hábito, após a sucção da parte doente do corpo, nada dar aos doentes acamados a menos que o peçam. E se não o fazem ficam às vezes um mês inteiro sem comer e, por mais grave que seja a doença, nada impede os que estão com saúde de dançarem, cantarem, beberem e se divertirem com grande bulha em torno da vítima, a qual, consciente de que de nada adiantaria lastimar-se, se conforma em ouvir a algazarra silenciosamente. Todavia, se ocorre morrer o doente, principalmente em se tratando de um bom chefe de família, converte-se a cantoria em súbito pranto e tal barulho fazem que se nos encontrarmos em uma aldeia onde tenha morrido alguém não nos será possível fechar os olhos para dormir. As mulheres sobretudo se exaltam nas lamentações e gritam tão alto que mais parecem cães ou lobos a uivarem.

Berram umas, arrastando a voz: "Morreu quem era tão valente e tantos prisioneiros nos dava a devorar!"

E outras replicam no mesmo tom: "Era bom caçador e excelente pescador".

E outras acrescentam: "Que bravo matador de perôs e margaiá era ele, e como nos vingava". E assim, excitando-se mutuamente e se abraçando, não cessam a ladainha de seus louvores enquanto o cadáver estiver presente e dizem por miúdo, tudo o que em vida o defunto praticou.

Dizem que as mulheres de Béarn fazendo do vício virtude, assim cantam no pranto erguido em presença de seus maridos defuntos: La mi amon, la mi amon, cara rident, oeil de splendom; cama leugé, bel dansadou; lo me balen, lo m’es burbat; mati depes; fort tard au lheit, o que quer dizer: meu amor, meu amor, cara risonha, olhos brilhantes, perna ligeira, bom dançarino, homem valente, madrugador; cedo de pé, tarde na cama. E afirmam que as mulheres da Gasconha acrescentam: Vere, vere, ô le bet renegadon, ô le bet jougadom qu’here, ou seja: Ai de mim, ai de mim, que lindo renegado, que belo jogador era ele. Assim fazem as nossas americanas repetindo a cada estância o estribilho: "Morreu, morreu, aquele que agora carpimos". E os homens a isso respondem dizendo: "Em verdade não o veremos mais, a não ser quando formos para além das montanhas, onde como nos ensinam os nossos caraíbas, dançaremos com eles".

Tal cerimônia dura em geram apenas meio dia, pois não conservam mais tempo os cadáveres insepultos.

Depois de aberta a cova, não comprida como as nossas mas redonda e profunda como um tonel de vinho, curvam o corpo e amarram os braços em torno das pernas, enterrando-o quase de pé. Se o finado é pessoa de destaque sepultam-no na própria casa, envolvido em sua rede, juntamente com os seus colares, plumas e outros objetos de uso pessoal. É verdade que também os antigos se comportavam do mesmo modo e José nos diz que muitas coisas foram depositadas no túmulo de David; por outro lado vários historiadores profanos se referem à preciosas jóias que eram enterradas com os seus donos e apodreciam com o cadáver. Sem ir tão longe, direi que os índios do Peru, terra contígua à dos brasileiros, enterram com seus reis e caciques grande quantidade de ouro e pedras preciosas. Muitos entre os prisioneiros espanhóis que estiveram nesse país ficaram riquíssimos violando os túmulos e roubando o que podiam encontrar. E a esses avarentos bem se poderia aplicar o dístico que, segundo Plutarco, a rainha Semíramis mandara gravar na sua sepultura: "Quem quer que seja o rei ansioso por dinheiro, abrindo este meu túmulo tire quanto quiser". Aberto o sepulcro, porém, em vez de ouro se encontrava outra inscrição: "Se não fosses um miserável faminto de ouro, jamais teria violado cadáveres em busca de tesouros".

Voltando aos nossos tupinambás, direi que depois que entraram em contato com os franceses já não enterram mais coisas de valor como costumavam fazer; mantêm porém uma superstição muito extravagante, como vereis. Acreditam firmemente que se Anhánga não encontrar alimentos preparados junto das sepulturas, desenterrará e comerá o defunto; por isso colocam, na primeira noite depois de sepultado o cadáver, grandes alguidares de farinha, aves, peixes e outros alimentos e potes de cauim e continuam a prestar esse serviço verdadeiramente diabólico ao defunto, até que apodreça o corpo. Desse erro era muito difícil demovê-los, porquanto os intérpretes normandos que nos haviam precedido no país, imitando os sacerdotes Baal a que aludem as Escrituras, confirmavam os selvagens na supersticiosa crença a fim de se aproveitarem, à noite, da pitança excelente; e nunca nos foi possível levar os selvagens a compreender que os alimentos depositados não eram consumidos por Anhangá. Mas esse absurdo não me parece muito diferente da insânia dos rabinos que o defunto fica pertencendo a um diabo que chamam Zabel e que, segundo Levítico, é o príncipe do deserto; e para confirmar o erro, interpretam a seu modo a passagem bíblica em que se diz à serpente: "Tu comerás terra por todo o tempo de tua vida".

Afirmam eles que o nosso corpo é feito do limo e do pó da terra, que constitui a carne da serpente; portanto fica-lhe sujeito até transformar-se em natureza espiritual. Pausânias também se refere a outro diabo chamado Eurinomo, que, segundo os intérpretes dos Delfos, devorava a carne dos mortos até os ossos.

Já mostramos no capítulo precedente como os selvagens renovam e transferem suas aldeias de uns para outros lugares. Quanto às sepulturas costumam colocar pequenas coberturas de folhas de pindoba de modo a que os viandantes reconheçam a localização dos cemitérios e a que as mulheres lenhadoras, ao se lembrar de seus maridos, desatem a chorar com gritos de se ouvirem à distância de meia légua.

(...)

[século XVI]


(LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil)

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