Abril
2001
Ano III - nº 32 |
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As semanas dedicadas à quaresma têm na
imaginação popular uma série de crendices e de outros motivos folclóricos. Velhos
rituais e determinações da igreja são transformados pelo povo e dificilmente podemos
recolher a linha originária. As sete semanas dos padecimentos e crucificação de Jesus
tomam um aspecto singular, com o medo aos duendes que povoam as noites de quarta e
sexta-feiras. Os lobisomens e as visões fazem o seu aparecimento nesses dias, e os
relatos não omitem essas coincidências. Na semana da Paixão, mais se acentuam esses
fatos, e, entre tantos, relataremos os seguintes:
Com a proibição da igreja do uso de carne, há, naturalmente, no litoral, preferência
pelos mariscos, justamente na época em que os caranguejos estão "andando",
isto é, quando eles saem todos dos buracos e são apanhados com facilidade, o que
coincide com as fases da lua; "andam" três dias antes do crescente e do
plenilúnio.
Nunca tive oportunidade de ver, mas é voz corrente que, no Domingo de Ramos, eles
ostentam em uma das poãs um galhinho verde, e uma multidão de caranguejos assim
perambulam pelo mangue. Na ocasião em que eles "andam" é hábito, em
Conceição da Barra, tirar-lhes a poã maior, soltando-os em seguida. Tira-se facilmente
com um espeto ou outro instrumento ponteagudo. Segura-se a poã, com uma espetada na
primeira articulação, ela se larga do casco. Em seu lugar nascerá outra poã.
O caranguejo, no seu devotamento ao crucificado e rendendo sua homenagem à Semana Santa,
em expressão de sentimento, participa dos sons tristes das trevas, e, na quarta-feira,
segundo conta o povo que vai buscar o marisco para alimento, ele bate com as poãs,
ouvindo-se, então, no mangue, o martelar das trevas.
Não sei se ainda é uso em Conceição da Barra, na Quarta-Feira Santa, fazer uma
passeata noturna ao som triste das matracas. Os meninos, porém, ainda fabricam suas
matracas para naquele dia baterem-na o dia todo, enquanto o sacristão rodeia a igreja
fazendo soar o velho matracão.
Estou certo de que os meninos ainda usam, porque, quando lá estive o ano passado, levei a
preocupação de conseguir uma matraca para o nosso museu, e, à minha solicitação,
indicaram-me que a procurasse com qualquer menino; porém, preferiram ofertar dois
exemplares novos, que cuidadosamente me enviou dona Maria Soares, feitos por um de seus
filhos.
São dois tipos de matracas. Um, no formato de uma tábua igual à que as cozinheiras usam
para cortar carne, com um lugar ou cabo para se segurar, tendo dois arames grossos em
semicírculo, com as extremidades introduzidas num grampo que os prende, permitindo que
oscilem, batendo de um lado e de outro, com o movimento que se lhe dá com o braço
verticalmente estendido, e produzindo o som do metal contra a tábua. Outro, consiste em
duas tábuas retangulares, tamanho 8x12, com outra entre elas, da mesma dimensão, tendo
esta um cabo no qual se segura. Com dois furos numa extremidade, pelos quais passa um
cordão, prendendo as três tábuas, de maneira que as duas laterais, presas do lado do
cabo da do centro, abram-se na ponta, batendo as duas na tábua do centro, produzindo o
som.
Recordo-me que, em anos que lá se foram, um grupo de rapazes se dirigiram para os lados
do cemitério e de lá vieram, depois, cobertos com um lençol branco, trazendo, uns, um
mamão verde descascado com uma vela acesa dentro. Esse cortejo de fantasmas brancos, com
uma caveira iluminada, vinha acompanhado pela garotada a bater matraca. Era um espetáculo
macabro. Desfilavam solenemente a passos lentos e num matraquear lúgubre, fazendo volta
pela igreja e desfazendo-se depois.
A matraca é do ritual da igreja católica, para os sons tristes, pois já na quarta-feira
os sinos não tocam, os navios e trens não apitam, nos quartéis as cornetas emudecem e
as ordens são dadas no rufar das caixas. Mas, o que significam os fantasmas brancos? E os
caranguejos, porque empunham um ramo e batem com as poãs? É o povo, a imaginação
anônima, criando e alterando.
[1950]
(FONSECA, Lima. Folclore) |
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