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Abril 2001
Ano III - nº 32

SEMANA SANTA

Passado o Domingo de Ramos, em que se traziam da igreja pedaços de palma benta, por muito tempo amarrados à cabeceira da cama, não havia mais nada de especial a mencionar, até a quarta-feira.

Na quinta-feira começavam os ofícios de endoenças.

Havia a procissão do encontro, no centro da cidade.

Eram duas procissões, saídas de duas igrejas. Numa vinha o Cristo no andor, carregando a cruz. Os que o transportavam eram da irmandade do Santíssimo Sacramento, com opas vermelhas. Na outra vinha Maria Santíssima, carregada no andor, por irmãos do Carmo, de opa branca.

De pontos a pontos a procissão em que vinha o Cristo, parava para celebrar um dos passos. Badalavam os sinos das igrejas mais próximas e ouviam-se cânticos religiosos.

No passo em que as duas se encontravam aproximava-se o andor de Maria Santíssima do de Cristo. Os sinos badalavam, depois silenciavam. Um sacerdote subia ao púlpito armado na rua, pregando o "sermão do encontro".

Depois seguiam na mesma direção, o andor de Cristo na frente, seguido do de Maria Santíssima.

* * *


No dia seguinte, Sexta-Feira da Paixão, badalavam a finados, de quarto em quarto de hora os sinos de todas as igrejas.

Havia silêncio por toda a parte. Os poucos vendedores que apareciam na rua vinham silenciosos, não apregoavam as mercadorias, apenas apertavam o botão da campainha de cada casa.

Os automóveis não tocavam a buzina. Os bondes atravessavam em silêncio as esquinas, sem que o motorneiro batesse o pé na campainha de aviso.

Dentro de casa, as crianças eram instruídas para não fazer barulho, não gritar nem rir, "que era pecado".

Toda gente que passava na rua, homem ou mulher, vestia de preto.

* * *


À tarde da Sexta-Feira Santa, passava no centro da cidade a procissão do enterro. "Procissão do Senhor Morto". Os lampiões das ruas estavam envolvidos em crepe. Os sinos continuavam a tocar a finados.

Vinha a banda de música Ettore Fieramosca atrás da procissão, tocando a marcha fúnebre de Beethoven.

Os sacerdotes, segundo a liturgia, passavam no centro. Aos dois lados da rua, as irmandades.

O andor do Senhor Morto, era carregado pela irmandade do Santíssimo Sacramento.

Em seguida a Verônica, de preto, com véu preto, trazendo enrolado um sudário. Desenrolava-o devagar, cantando, e exibia estampada, a cabeça de Cristo. Depois enrolava-o e a procissão seguia.

Mais sacerdotes e mais irmandades.

Numa delas estava Nhanã da Penha, viúva de Inácio Cigarro, do qual se dizia que costumava virar lobisomem nas noites de sexta-feira.

Por último, o bispo debaixo do pálio carregado por irmãos do Santíssimo Sacramento.

Atrás, soldados de polícia, para impedir que se acumulassem os acompanhantes por sobre o pálio.

Agora os acompanhantes. Gente pobre rezando terços. Mendigos, com vela numa das mãos, a outra estendendo o chapéu para esmolas. Depois os trôpegos e os aleijados, apoiados em muletas.

Aqui, os que ficavam nas janelas e nas calçadas ouviam a música e os cânticos que se esbatiam e enxergavam as luzes das velas, pisca-piscando.

* * *


No Sábado de Aleluia as crianças acordavam mais cedo, excitadas para ver os judas.

Em todas as esquinas havia judas enforcados em lampiões, ou pendentes de alguma árvore ou janela: uma bola feita de pano com enchimento de jornais, com dois olhos, nariz e boca traçados a carvão. Um chapéu velho. Casaco e calça esfarrapada cheios de papel. Sapatos velhos, costurados na ponta da calça.

Os sinos continuavam a dobrar a finados.

De repente deixavam de dobrar e passavam a repicar.

Estrondavam foguetes.

A molecada que estava à espera, com paus e panos embebidos em querosene, derrubava os judas, espancava-os, e lhes punha fogo. Estouravam bombas escondidas nas entranhas deles.

Abriam-se as portas das igrejas e a multidão saía ao sol, ouvindo ainda os órgãos misturados ao estrondo das bombas e rojões.


(AMERICANO, Jorge. São Paulo naquele tempo)

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