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Abril 2001
Ano III - nº 32

JUDAS, O DE KARIOTH

Por que se queimam Judas?

Não será para punir a delação. Entre os supliciadores do bisonho boneco, haverá traidores, proxenetas, vigaristas, policiais, gente afeita a todas as tricas para perder os seus semelhantes. Não será para castigar a traição. Diante das chamas que lambem a tosca e ridícula figura, brilharão os olhos da esposa infiel, do desertor, do difamador e do poltrão. Não será para vingar o Cristo. O Filho do Homem já se foi há muito tempo - e, afinal, quem pensa mesmo no romântico judeu da Galiléia durante a queima do homem leviano de Karioth?

Esta orgia selvagem, uma barbaridade impossível de enquadrar-se na doutrina do reformador nazareno, será uma prática anti-cristã. Os evangelhos contam que o Filho do Homem perdoou, à hora da morte, o homem fácil que, por trinta dinheiros, o perdera. O arrependimento nunca vinha tarde para o Cristo - e Judas, o de Karioth, procurou no enforcamento a expiação da sua culpa. Cristão seria perdoar o traidor, o delator, mesmo quando prejudicado fosse, como foi, aquele que se dizia a Encarnação do Verbo Divino. Prática anti-cristã, mas humana, e de cunho político. Nos primeiros séculos de Cristianismo, haveria a necessidade - a bem dizer política - dessa triste cerimônia. Os cristãos, partidários de uma religião ilegal dentro do onipotente Império Romano, reuniam-se em catacumbas, em lugares esconsos, sob o maior mistério, - e era necessário criar uma consciência contra o delator, contra os possíveis Judas, que poderiam determinar, não já a crucificação do Cristo, que afinal de contas viera mesmo ao mundo para, com o seu sacrifício, redimir a humanidade, mas a dos propagadores dos seus ideais de fraternidade, pobres e humildes elementos do underground. A queima do Judas se tornou, se não cristã, uma prática católica. Com que insistência a Igreja Católica - entre todas as seitas cristãs a que mais traiu os ensinamentos do Cristo, de maneira a desfigurá-los, a torná-los irreconhecíveis, criando abismos entre a prática e a teoria, - denunciou os traidores e os apóstatas e perseguiu os hereges! Evidentemente, a necessidade político-religiosa dessa cerimônia medieval não tem mais razão de ser. O hábito, entretanto, ficou. Por quê?

Haverá traidores, prostitutas, caloteiros, esposas infiéis, difamadores, covardes, policiais, toda a escória da humanidade, a apreciar o ato selvagem da queima, em efígie, do homem de Karioth. "Quem lhe poderá atirar a primeira pedra?" - perguntaria o Cristo. Toda essa assistência - sem dúvida seleta - sabe apenas que ali está por se tratar de um divertimento cujo caráter popular aumenta a capacidade de difusão das dores e atribulações individuais, dissolvendo-se no meio da massa anônima que ri, que grita, que se enrosca de prazer, vendo o sofrimento simbólico do autor da mais sensacional das traições. Ninguém se lembrará do Cristo. O homem de Karioth encarna, não uma coisa abstrata como a delação, a traição, a deslealdade, mas o vendeiro da esquina, o chefe de seção, o proprietário da casa de aluguel, a dona da pensão de mulheres, o turco da prestação, o cobrador do gás, o tio rico que não quer morrer, o rival político, o homem importante que passa de automóvel acendendo invejas impotentes. Estralejando, iluminado pelas chamas que o consomem, injuriado e coberto de infâmia, Judas, o de Karioth, centraliza, por um momento, o ódio e a desesperança do homem comum contra o sofrimento a que está condenado, sentimentos inconsciente e grosseiramente voltados contra as categorias sociais imediatamente superiores à sua humilde condição - contra os burgueses das cidades e os latifundiários do interior. Judas vale como um desabafo, como uma explosão contra as amarguras da inferioridade social, a que somente a luta política comum pode dar conteúdo e forma superiores e mais vigorosos.

O chamado "sentido de ordem" do catolicismo se anula nessa orgia - nessa forma rudimentar de luta política - em que o povo se afirma contra seus exploradores econômicos, intelectuais e políticos, na sua eterna e insaciada sede de justiça.


(CARNEIRO, Edison. A sabedoria popular)

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