Abril
2001
Ano III - nº 32 |
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Era no tempo em que a Vitória se
assemelhava a uma tapera, lamentavelmente iluminada a querosene, quando nem mesmo existia
a "cidade de palha" encerrada entre as Pedreiras e a colina da Santa Casa, de
ruas estreitas e ladeiras íngremes, havendo apenas uma escadaria, denominada pelo povo de
"escadinha do céu". Era no tempo em que a cidade, em sua pequenez, possuía
nada menos de que dez igrejas, quatro das quais, no decurso dos anos, as exigências do
nosso desenvolvimento dizeram desaparecer. Era naquela época quando não possuíamos
cinemas nem teatros, aparecendo, de longe em longe, como diversão o Circo Peri, ou o
Temperani, com os seus palhaços alegres, os seus equilibristas e trapezistas, as suas
pantomimas, sem os dramalhões de capa e espada que hoje impingem ao nosso público a troupe
do Liendo. Era quando a nossa gente, nos dias da Semana Santa, não trocava os templos
pelas exibições cinematográficas, talvez porque, então, não existisse ainda a arte da
tela. Era aquele tempo.
Dentro da Quaresma, a semana em que estamos, chamava-se Semana de Ramos, iniciando-se a
festividade da liturgia católica no Carmo pequeno, hoje desaparecido, então erguido à
sombra do Carmo grande, ao qual o bispo João Nery veio dar vida religiosa com a
institutição do culto à Maria Auxiliadora.
O Carmo pequeno levantava-se junto ao grande, dando para a rua Coronel Monjardim, alargada
com a sua demolição. Realizavam-se nele apenas duas festividades anualmente: a da
Senhora do Monte Carmelo ou Senhora do Carmo, cuja imagem se achava no altar-mor e as
cerimônias da Páscoa, existindo nos altares laterais, em tamanho natural, imagens de
Jesus, nas posições várias dos chamados Passos do Senhor, desde o Cristo de pé, de
mãos amarradas, ostentando entre elas um ramo de cana, o que lhe valia o nome de Senhora
da Cana Verde, até o Nazareno caído ao solo, o peso do madeiro. A missa de Ramos abria a
semana festiva, com farta distribuição de palmas de coqueiro, uns trazendo laços de
fita, outros simples, sem qualquer adorno. A meninada ia desfolhando as palmas e fazendo
gaitas, com que se divertiam à saída da igreja após a cerimônia. As matronas, porém,
e as avozinhas, as guardavam com cuidado, deixando-as secar, para queimá-las nos momentos
tempestuosos, quando os trovões abalavam os ares, e os relâmpagos rasgavam os espaços,
ajudados de chuvas copiosas. Então as palhas secas, ardendo e fumegando, possuíam o
condão de amortecer trovões e relâmpagos, afugentando para bem longe as faíscas
elétricas, os raios e os coriscos. E, mesmo que a tempestade prosseguisse, fuzilando ao
alto e abalando os céus, com os seus estrondos, havia uma paz, sempre, na alma daquela
gente simples, uma atmosfera de confiança inundando corações em todo lar, rico ou
pobre, onde existisse uma palma de palha benta, para ser queimada.
Naquela mesma tarde de Ramos, saía do referido templo um préstito religioso, com número
apreciável de imagens, tomando parte irmandades, confrarias e ordens terceiras, além da
massa popular que o fechava em respeitoso acompanhamento. Era a procissão do Triunfo,
simbolizando e rememorando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. O cortejo percorria,
a cidade, ao espoucar das girândolas e repicar dos sinos, engalanadas as ruas por ele
percorridas em profunda demonstração de fé religiosa.
Na noite de quinta-feira, cerca de dez horas, saía da igreja da Penitência a procissão
do Fogaréu, percorrendo as ruas, no maior silêncio e apressadamente, munidos todos de
archotes de palha, pichados e acesos, simbolizando ainda a procura de Jesus, para a
prisão. E assim, todos os atos da Semana Santa se efetuavam no Carmo pequeno, quer as
cerimônias internas e processionais.
Consetâneo, até certo ponto com a lógica evangélica, o encontro de Maria com Jesus se
verificava duas vezes: a primeira, na procissão do Enterro, e a segunda na da
Ressurreição. Havia, contudo, uma cerimônia que se efetuava na matriz, depois catedral.
Era a do chamado beija-pé. Só depois da chegada do bispo João Nery, foi que os atos da
Semana Santa passaram a ser realizados na catedral.
Foi essa a Páscoa que eu vi, quando menino, no longo tempo em que, antes de comparecer-se
à procissão do fogaréu, nos lares capixabas, às oito da noite, era servida a torta
tradicional, recordação da ceia do Senhor, apenas com a circunstância de que, no
repasto não podiam tomar parte treze pessoas, porque a crendice, passada de geração em
geração, considerava esse número fatídico, de mau presságio.
(Transcrito, pelo seu valor folclórico, de A Tribuna, de 01/04/1950)
(LELLIS, Areobaldo. Folclore) |
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