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Abril 2001
Ano III - nº 32

O TRABALHO NA SEMANA SANTA

Durante a Semana Santa, em que se comemora o sacrifício de Jesus Cristo pela salvação do gênero humano, há dois dias em que os católicos não admitem o trabalho: quinta e sexta-feira.

Antes de falar dessa proibição, lembramos que o dia da morte de Cristo varia de ano para ano, porque se trata de uma efeméride móvel.

Muita gente implica com isso, perguntando: se o Salvador teve um dia certo para nascer - 25 de dezembro - por que não se marcou direitinho a data de sua morte?

A data não foi fixada, mas o doloroso acontecimento é sempre comemorado numa sexta-feira.

Presentemente já fazem certos trabalhos nesse dia.

Outrora parava tudo.

Assim mesmo, quando acontece algo prejudicial a quem desenvolve certa atividade nos dois grandes dias da Semana Santa, a consciência religiosa dos católicos toma em conta de castigo, por infrigência do preceito proibitivo.

Até os seres irracionais apresentam, nesses dias, atitudes de retraimento.

Romeu de Avelar, nome literário de um ilustre intelectual conterrâneo, conta, num de seus trabalhos, o seguinte:

- Chegamos ao Pilar com a cidadezinha de minha doce e longínqua infância recolhida na tristeza religiosa da Quinta-Feira Maior. Como antecipada homenagem ao Cristo, que ressuscitaria dali a dois dias, e à minha presença de alagoano derreado pela terra, foram abertas excepcional e extravagantemente, no barzinho da praça da igreja, uma garrafa de "Cavalo Branco" e uma bojuda champanha. Sacrilegamente eufóricos, pela ascensão do vinho, da marcha legal da digestão e dos ares picantes das chãs, esquecemos a grande agonia do Horto e as penas eclesiásticas.

Felizmente um alto-falante, que gemia fanhosas músicas sacras, abafava a quente e profana atmosfera do bar.

Mas ir-se ao Pilar sem comer uma bagrada? - Ao bagre! Gritamos em coro, como judeus convertidos à fé cristã. Porém os pescadores do Pilar, como seus irmãos da Galiléia, guardavam a velha data bíblica: suas redes secavam nos varais e as canoas descansavam, de proas bicudas para a terra.

Aquele dia nenhum se atrevia a fisgar nem mesmo uma piaba.

Para quem apelar? Nós, os bárbaros, estávamos indóceis, queríamos uma caldeirada de bagre. Durval Rosa, que desde o caminho gabava-se de suas "piscatóricas" relações com a gente da rede e do anzol, prontificou-se a agir. O homem providencial, porém, foi o Américo Gonçalves de Lima, o manda-chuva da colônia nº 8, que despachou uma canoa com dois pescadores, rumo ao Oitizeiro - afamado e fervilhante pesqueiro desses rápidos silurídeos, como diria um sócio do nosso Instituto Histórico.

Enquanto aguardavam o resultado da pescaria, os visitantes se entretiveram com outras coisas da cidade.

Depois de registrar o que ocorreu nesse interim, o narrador informa:

- Já anoitecia, quando os dois pescadores aprearam de Oitizeiro, com três bagres dependurados de uma embira.

Parecia castigo! - exclamaram com humilde desapontamento - Olhe que no Oitizeiro bagre é mundiça. Só é o que dá. Recebi os bagres com resignada ternura.

As histórias contadas pelo povo mais velho, assim como muitas apresentadas pelos nossos literatos, transmitem curiosas informações sobre decepções criadas por serviços praticados durante a Semana Santa.

Walter Spalding, em seu trabalho intitulado Tradições e superstições do Brasil Sul, afirma:

"O povoado em que nascemos, nas Sextas-Feiras Santas parecia verdadeiro cemitério, pois nem mesmo as casas de família abriam as portas ou janelas. Tudo hermeticamente fechado. Só pelos fundos se notava algum movimento.

Casas havia - e muitas - onde nem sequer o fogão acendiam. Limitavam-se a almoçar e jantar o que haviam preparado especialmente para esse dia santo, na véspera. As crianças não faziam barulho algum. Chorar, assustava. Rir, e especialmente rir alto, causava terror aos pais e demais pessoas, pois podia acarretar algum mal, pelo desrespeito à data.

Aliás, as crianças todas viviam cheias de pavores pela Sexta-Feira Santa, porque já semanas antes vinham os pais ou as empregadas domésticas matracando no que se podia e não podia fazer naquele dia. E lá vinham, de cambulhada, os castigos e desgostos que a desobediência àqueles preceitos trazia. Havia "castigos" de arrepiar."

O estado emocional oriundo desses pavores transmite ao espírito uma tonalidade angustiosa.


[1960-1961]


(CAJUEIRO, José. Em Boletim alagoano de folclore)

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