Abril
2001
Ano III - nº 32 |
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Já se foi o tempo em que uma viagem de
trem era para qualquer cidadão deste velho mundo um acontecimento na vida.
As viagens para cidadezinhas do então ramal de Viçosa ou mesmo da estrada de ferro de
Pernambuco, mais afastadas da capital, eram preparadas com meses de antecedência.
Especialmente quando se ia passar "tempos" em Maceió e Recife. Preparavam-se as
"munições de boca"; as cestas de vime recheadas de perus e galinhas assadas,
os lombos cheios, as fatias de pão-de-ló torrado, as fritadas de camarão ou de galinha,
os sequilhos ou as broas de goma, as garrafas ou melhor, as "quartinhas" com
água fresca, com que se haveria de encher o estômago nas espichadas horas da travessia.
Ainda há vinte anos atrás, Jorge de Lima fixava no seu poema GWBR a incômoda mas
certamente pitoresca viagem pelos trens da Great Western.
Contudo, ainda muito de pitoresco e de tradicional há para o folclorista anotar uma
viagem pela velha estrada. Por exemplo, os pregões de trem, dos quais Jorge de Lima só
muito por alto falou, os anúncios de moleques magros e meninos amarelos, de mulheres
esqueléticas e de velhos trôpegos, cantados à beira das estações ou ao longo dos
carros, mercando para os que não quiseram ou puderam trazer as "munições de
boca".
Para quem vinha de Viçosa, naqueles velhos tempos, na época sobretudo do verão, e que
tinha saído da então Princesa das Matas com o estômago confortado pelo bom café com
leite, pelo pão de padaria de seu Joca, generosamente untado com a saborosa Esbense,
somente em Bittencourt começava a dar sinais de apetite, quando apareciam as cestas de
folhas de palmeiras entrançadas, repletas de maravilhosos cajus ou belas jacas moles de
bago roxo, ou pacotinhos de castanhas assadas:
- Ôie a jaca mole!
- Ôie o caju doce, quem qué caju, quem qué chupá caju?
- Ôie a castanha, assada, castanha assada, um tustão o pacote.
Mas era e é ainda inegavelmente em Lourenço de Albuquerque e Rio Largo - pontos de
demora do comboio à espera do de Pernambuco, onde os pregões invadem os carros, entram
por nossos ouvidos e atingem o mais fundo de nossas vísceras, principalmente quando estas
vísceras andam de dieta efetiva e não mais poderão se deliciar com o encanto das
guloseimas que os pregões proclamam.
O homem do cavaco chinês - estranha massa de farinha de trigo, parece que feita
exclusivamente para aguçar a fome - com um baú cilíndrico às costas e a agitar o
característico triângulo numa incosciente aplicação prática da ação do som sobre a
secreção salivar, vibrava nesses tímpanos e espremia nossas glândulas salivares
enquanto anunciava:
- Ôie o cavaquinho chinês.
- Ôie o pacotinho de cavao, novinho na hora...
E, após ele, sucediam-se os pregões. Um anuncia bananas:
- Ei, madurinha, a banana...
- Ôie o rolete de cana,
De cana caiana
Ôie o rolete...
Aqui o amendoim torrado, o velho mudubim querido por adultos e crianças:
- Vamos acabá o mudubim torrado, vamos acabá...
Ali, exposto à vista dos fregueses e das moscas, um prato com os tradicionais suspiros,
broas e pães-de-ló, pães-de-ló naturalmente sem mais aqueles coloridos enfeites de
papelotes de seda recortados que eram há trinta anos atrás uma arte desenvolvida e que a
confeitaria moderna destruiu de uma vez.
- Olha a broa, o suspiro e o pão-de-ló!...
Eram os pregões de pão - os pães doces feitos nas padarias de Rio Largo, ainda quentes
do forno e reluzentes com o verniz açucarado com que eram e são vendidos - o grosso dos
pregões.
Pão doce, dez tões
Dez tões, tá chegando quentinho... Olha aqui o novinho
Dez tões, chega tá se derretendo
E eram mesmo quentinhos, e tinham as formas pitorescas de jacarés, de cavalos, etc.
Não ouvi, contudo, serem apregoados os tarecos - tarecos que eram vendidos a tostão o
pacotinho, e com os quais sonhava mais que com a própria viagem naqueles tempos em que
com um tostão se podia comprar alguma coisa.
Por fim, já em Fernão Velho, ao descortinar o panorama maravilhoso de Mundan, vinham os
pratos dos pitus, vermelho-carmesim, barbados pitus que justificaram e certamente ainda
justificam muitos incômodos aos que vinham a Maceió e que se deliciavam não só com
saída de tão saborosos cavaleiros de Netuno quanto com os acepipes não menos deleitosos
das cozinhas de Vênus.
- Olha o pitu, olha o pi-tu...
(O Jornal. Rio de Janeiro, 03/09/1950)
(BRANDÃO, Téo. Em Boletim trimestral da Comissão Catarinense de Folclore) |
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