
Muitos dos contos ou das lendas populares que a
tradição oral vai passando adiante, modificados ou alterados na sua forma primitiva, na
sua tessitura íntima, mas conservado o sentido original, vieram de outras plagas
longínquas, de além-mar. São contos ou histórias da península na maior parte.
Portugal foi a tal respeito o nosso maior celeiro. Mandou-nos inúmeros deles que aqui se
perpetuaram e se incorporaram definitivamente ao nosso folclore. O conto, de que a seguir
reproduzo uma variante, está nesse caso. Proveio da boa cepa portuguesa.
Teófilo Braga apresenta em seus Contos tradicionais do povo português, uma
versão do Algarve sob o título de A mulher curiosa, e Barros Ferreira inclui
também, nas suas Lendas da Península, uma outra versão lusitana, tida como real,
dando-lhe o nome de O fêmur do defunto. Lindolfo Gomes, consagrado folclorista e
autor de várias obras consideradas de subido valor, na sua rica coletânea de contos
populares consigna uma variante brasileira colhida em São João del Rei, Minas Gerais.
Leio, porém, em Contos tradicionais do Brasil, de Luís da Câmara Cascudo, que a
"tradição é comum a Portugal e Espanha, onde os episódios são
incontáveis". O insigne mestre professor Aurélio Espinosa possui duas versões
recolhidas em terras de Espanha - La calle de la pierna (em Córdoba) e La
averiguarana (em Ciudad Real).
Nas versões peninsulares, como na versão brasileira, a narração se prende a uma
procissão das almas-do-outro-mundo ou das almas penadas do Purgatório, noite alta,
percorrendo invisivelmente as ruas tranqüilas e desertas. Afirma a tradição que a
criatura que a presencia morre nesse mesmo ano, não dura seis meses. Há também a
suposição de que quem a vê fica pateta, amalucado, ou só pode avistá-la "quem
tem uma palavra a menos no latim do batismo". O conto refere sempre a uma moça ou a
uma velha curiosa, bisbilhotando o que se passa na rua, à meia-noite, e recebe como
castigo um círio aceso que se transforma em osso de defunto ou num esqueleto.
A variante que recolhi é a seguinte: A canela do defunto.
Havia em certo lugar uma velha muito beata e curiosa, que, às horas caladas da noite, se
deixava ficar postada à janela da sala, vendo e ouvindo o que se passava na rua. Era um
hábito que conservava de longa data. Certa vez, viu um cortejo fúnebre, que outro não
era senão a procissão das almas penadas do Purgatório conduzindo um caixão de defunto,
ao clarão de velas acesas. Aguçou-se-lhe mais a curiosidade e não se contentou de olhar
apenas, através do vidro da janela ou das venezianas, a lúgubre jornada das
almas-do-outro-mundo, vestidas nas suas mortalhas. Quis vê-las mais de perto. Abriu de
par em par a janela. Aconteceu-lhe, entretanto, um fato estranho. Viu, estarrecida,
deslocar-se do cortejo e encaminhar-se rapidamente para ela uma das almas, cujos segredos
tentava desvendar na sua bisbilhotice. E antes que pudesse fechar a janela, o vulto
entregou-lhe um círio aceso dizendo-lhe na sua voz fanhosa, como só devem possuir as
almas-do-outro-mundo: - Amanhã, virei buscá-lo, às mesmas horas. Guarde-o bem guardado.
Mal pôde recobrar o ânimo, qual não foi o seu espanto quando notou que sustentava nas
mãos ainda trêmulas e gélidas, uma canela de defunto. Entre horrorizada e arrependida,
correu a colocá-lo no santuário, rezando o credo. Na noite seguinte, transida de medo,
devolveu-lha com duas velas bentas, ao que lhe retrucou, na sua voz de falsete, ao
recebê-la, a alma-penada: - Foi o que te valeu. Que te sirva esta de lição.
(Recolhida em Maceió)
(DUARTE, Abelardo. Em Boletim alagoano de folclore) |