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Abril 2001
Ano III - nº 32

A FESTA DA PENHA NO ESPÍRITO SANTO

Meu estado guarda tradições ainda dos tempos das Capitanias. A festa da Penha (17 de abril) vem de muitos anos, de 1570, e nela participou a imagem de Nossa Senhora da Penha que fora encomendada por frei Palácios, sendo ele mesmo que iniciara a edificação da ermida das Palmeiras (1566) no Alto da Penha, tendo antes construído a capelinha consagrada a São Francisco (1562 ou 1564) no campinho do Monte da Penha.

E através dos anos: reforma da ermida das Palmeiras, lançamento da pedra fundamental do convento (1651), conclusão do cenóbio da Penha (1664), reconstrução parcial do convento (1770), e, finalmente, em 1774, melhoramentos, construção da casa dos romeiros, reforma do calçamento das ladeiras, muros laterais (hoje em dia, musgosos, esverdeados à luz indireta que se filtra das ramagens ensombrecedoras).

Lembro-me da minha primeira festa da Penha! Confesso que meus sentidos não estavam muito distantes daqueles primeiros moradores da antiga Vila Velha do Espírito Santo, na sua maioria índios catequizados por Anchieta.

Foi em... nem me lembro mais. Eu era pequeno, pequeno-pequeno, como dizem os índios, que não têm superlativos, e as crianças que não têm imaginação. Lembro-me da baía de Vitória cheia de lanchas, canoas de pesca, baleeiras, lanchões, embarcações engalanadas transportando romeiros e peregrinos. Havia também o transporte a bonde (ainda há) mas eu sempre achei mais graça e encanto nos transportes marítimos. Sem o cais atual, e as construções dando os fundos para o mar, a cidade se estendia subindo os morros ou serpenteando os seus mangues. Era pobre, sim, sem recursos, mas de um pitoresco! E na festa da Penha, Vitória despertava com outras cores e novas alegrias. Gentes de todos os recantos do estado se aglomeravam nos cais para tomar as lanchas que o levassem a Vila Velha para a festa da sua padroeira. Levavam as refeições, e, também, as célebres tortas, preparadas à base de mariscos: o prato típico da Semana Santa capixaba.

E toda essa gente afluía para Vila Velha. Lá chegando, a serpentina humana subia as escadas; velhas rezando velhos terços, moças descalças feriam os pés nas pedras da ladeira, cumprindo - quem sabe lá - uma promessa inconfessável. Finalmente a multidão ganhava o cimo do Monte olhava a paisagem que se estendia pelo mar afora, mar verdejante, manchado aqui e ali, por velas brancas, e pelas asas também brancas das gaivotas; olhava para terra-a-dentro, e via aos pés do Monte da Penha, ilhas e rios, vales e montanhas, caprichosamente recortadas. E entrava no convento, ouvia missa, acompanhava a procissão que descia, e tornava a subir a ladeira do convento, depois de passar pelas ruas estreitas de Vila Velha, participava das novenas e ladainhas, e finalmente, à noite, depois do dever cumprido, entregava-se aos folguedos que Vila Velha, antiga sede da capitania, oferecia. E as quermesses com os quebra-postes, os paus-de-sebo, os prêmios, etc., os bailes e as serenatas enchiam de vozes e de luz, pela noite a dentro, a pequena cidade que só despertava uma noite por ano: dia da festa da Penha!...

Voltei este ano a Vitória e assisti à festa da Penha. Trasnportei-me desta vez num Jeep de um velho amigo e atingi o continente por uma ponte metálica. Mas subi com meus pés a ladeira, à antiga, e pisei os mesmos lajedos de outrora, ainda cheirando à cera pingada por velas de séculos, e senti nos olhos os musgos que esverdeam os muros e sobre meu corpo o mesmo sol de outros tempos. Tentei ver os rastos de outrora, conhecidos e amigos. Debalde!... E os que encontrava estavam envelhecidos mais diferentes do que os antigos lugares que meus olhos de menino tinham fixado.

E desci a ladeira, ao cair dessa linda tarde de abril, constatando que minha memória é tão velha como este convento, que durante séculos foi devoção e consolo, e também fortaleza, e aonde os primitivos moradores da antiga capitania do Espírito Santo, se defendiam de piratas e índios selvagens...

(Transcrito do documento 184 da CNFL)

[1950]


(FREITAS, Newton. Folclore)

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