Abril
2001
Ano III - nº 32 |
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Em todo o interior do Brasil e
especialmente no nordeste, onde mais vivas se conservam as tradições todas, é
inveterado costume justiçar um Judas no Sábado de Aleluia. Na manhã desse dia, à porta
de todas as casas, aparece, enforcado numa vara, ou num galho de árvore, um boneco de
pano, grande ou pequeno, conforme as posses dos seus habitantes. Nas fazendas mais
abastadas, ou nas povoações, fazem-se Judas de tamanho natural e arranja-se divertida
festa, para tocar-lhe fogo. Organiza-se um júri para julgá-lo, presidido por pessoa
respeitável. Dois moços, dos mais inteligentes, fazem de promotor e advogado do réu,
que é sempre condenado à forca e à fogueira. Após a leitura da sentença, o escrivão
lê também o testamento do traidor. É uma peça em verso, na qual o Judas deixa legados
mordazes a todos os presentes, motivo para intimar com todos os conhecidos e
amigos. Esses testamentos em verso dariam, por si sós, um grande e interessante capítulo
folclórico. Após o enforcamento e queima do boneco, há danças, cantigas e comes e
bebes.
O cearense emigrado para a Amazônia levou para lá o seu Judas. Mas não o enforcou mais;
largou-o numa balsa ao sabor das águas do rio - como símbolo, talvez, do seu destino
errante. Com esse admirável tema, Euclides da Cunha escreveu aquele poema do Judas
Ashverus.
Nessa festa popular da execução de Judas, não se deve somente ver a repulsa de todas as
almas à traição infame do apóstolo vendido, o castigo cruel e contínuo, através dos
milênios, do sinistro guia dos Nethenins do Templo, que beijou tredamente a face pura de
Jesus, no Horto das Oliveiras. Não, nela se é obrigado a verificar mais uma vez a imensa
e sutil habilidade da igreja no aproveitamento em seu favor, na adaptação, em seu
propósito, de todos os hábitos inveteradamente criados pelo paganismo, e que seria
loucura querer destruir. Nesse ecletismo sábio, o católico foi admirável.
Os nossos Judas sertanejos vêm através da tradição eclesiástica, das festas
Compitales romanas, em linha reta. Basta, unicamente, ler o que diz Pompeius Festus no De
significatione verborum (Paris, Ed. Panckoucke, 1846, v.2): "Pilae et Effigies
- viriles et muliebres ex lana esse deorum inferiorum, quos vocant Lares, putarent,
quibus tot pilae, quot capita servorum; tot effiges, quit essent liveri, ponebantur, ut
vivis parcerent, et essent his pilis et simulacris contenti". O que tudo se
traduz assim: "Nas festas Compitales, suspendiam-se, nas encruzilhadas, manequins e
efígies de homens e de mulher, feitos de lã, porque, segundo a opinião em voga, esse
dia era consagrado aos deuses infernais, que se chamam Lares. Ofereciam-lhes tantos
manequins quantas cabeças de escravos se possuíam e tantas efígies quantos homens
livres vivessem no local, a fim desses deuses ficarem contentes com esses simples
simulacros, poupando os vivos que eles representavam."
Assim, nasceram os Judas.
(BARROSO, Gustavo. O sertão e o mundo) |
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