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Abril 2001
Ano III - nº 32

NO TEMPO DO SERRA VELHO

Um testamento que não é testamento-perguntas e respostas esperadas... - Reação da velha da rua da Pimenta - O cego Nocilau, guardado por um bamarte, nunca foi serrado

Irineu Lopes foi o camarada mais brincalhão que eu conheci na minha juventude. Filho de considerada família de União dos Palmares, Irineu não se incomodava demasiado com a vida, no que fazia muito bem, pois, se assim não fosse teria o mesmo fim: morrer. É o que sucederá a mim, a você, ao que vive cheio de resmungos e ao que é amigo de brincar e de galhofar.

Quando se aproximava a Quaresma, o meu conterrâneo Irineu programava divertimentos para si e para um grupo de amigos.

Serrote barrica vazia


"Serrar" velhos estava no seu plano de brincalhão. Arrebanhava dez a doze rapazotes e numa quarta-feira, pouco depois da meia-noite, saía pelas ruas da cidade.

Conduzia um serrote, uma barrica vazia de bacalhau da Noruega e no bolso um papel, que era um singular "testamento" com perguntas e respostas as mais disparatadas. Seria recitado o "testamento" na porta do ancião ou anciã escolhido.

A turma festiva e irreverente largava-se pelas ruas da Cana Brava, Terra Cavada e Jatobá.

- Ali mora a velha Chiquinha, - dizia Irineu e apontava uma casinha de taipa, e com porta e janelas feitas com tábuas de caixão da fazenda.


O testamento


Começava a "serra". A leitura do "testamento" e as perguntas, feitas por Irineu, entremeadas de ditos cômicos, causavam hilaridade na turma.

- Pra quem você deixa a almofada, sinhá Chiquinha?

- Pra quem deixa o vestido de porongo?

- E essa lata de dinheiro, sinhá Chiquinha?

- Posso cavar a cova?

Tudo silêncio na morada da anciã.

O serrote na barrica de bacalhau prosseguia no seu rên, rên, rên impertinente.

De repente a janela se abriu e a velha Chiquinha, sem ninguém vê-la cá de fora, falou xingando, aborrecida:

- Vão dormir, vagabundos!

E fechou bruscamente a janela.

Um fracasso para os "serradores". O ideal seria que a velha desfiasse um rosário de malcriações e de insultos ou imitasse a preta nonagenária da rua das Pimentas.


Incidentes...


Quando o serrote começou a cortar a barrica de bacalhau e Irineu, em falsete, recitava o "testamento" com interrogações, a preta da Pimenta escancarou a porta e jogou em direção do grupo o conteúdo de uma vasilha que trouxera lá de dentro.

O líquido fedorento, repugnante, não atingiu os farsantes, que correram em debandada, às gargalhadas.

- Vão "serrar" a mãe! Corja de brancos sem vergonha!


O perigoso velho Nicolau


Mas o velho Nicolau que era cego e tinha uma quitanda na rua Frei João, nunca se deixou "serrar".

Na noite da "serra", ele não dormia. Que dormir! Passava as horas sentado num banco "pela-porco", tendo entre as pernas um bacamarte do tempo do ronca, bem carregado até de pregos.

E o cego Nicolau, a quem comprava pitombas e piris quando eu ia tomar banho no Porto dos Homens, na rua da Cachoeira, nunca foi "serrado".

Com semelhante trabuco, quem se aventurava?

Era de graça, Irineu, levar um tiro preparado pelo velho Nicolau, não tinha graça nenhuma.

Estou por estas plagas maceioenses há uns quarenta anos bem batidos, nada sei de União dos Palmares e das suas usanças.

Talvez "serrar" velhos ali seja até um crime agora.

Naquele tempo de Irineu e sua troupe, tudo eram gracejos que a maioria aceitava, como costume, como tradição.

(Da Gazeta de Alagoas, 29 de março de 1960)


(DIAS, J. Em Boletim alagoano de folclore)

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