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Abril 2001
Ano III - nº 32

DO MANTIMENTO DO BRASIL
(Capítulo oitavo)

É o Brasil mais abastado de mantimentos que quantas terras há no mundo, porque nele se dão os mantimentos de todas as outras.

Dá-se trigo em São Vicente em muita quantidade, e dar-se-á nas mais partes cansando primeiro as terras, porque o viço lhe faz mal.

Dá-se também em todo o Brasil muito arroz, que é o mantimento da Índia Oriental, e muito milho zaburro que é o das Antilhas e Índia Ocidental. Dão-se muitos inhames grandes, que é o mantimento de São Tomé e Cabo Verde, e outros mais pequenos, e muitas batatas, as quais plantadas uma só vez sempre fica a terra inçada destas.

Mas o ordinário é o que se faz da mandioca, que são umas raízes maiores que nabos e de admirável propriedade, porque, se as comem cruas ou assadas, são mortífera peçonha, mas, raladas, espremidas e desfeitas em farinha, fazem delas uns bolos delgados, que cozem em uma bacia ou alguidar, e se chamam beijus, que é muito bom mantimento e de fácil digestão. Ou cozem a mesma farinha mexendo-a na bacia como confeitos, e esta, se a torram bem, dura mais que os beijus, e por isso é chamada farinha de guerra, porque os índios a levam quando vão à guerra londe de suas casas, e os marinheiros fazem dela sua matalotage daqui para o reino.

Outra farinha se faz fresca, que não é tão cozida, e para esta (se a querem regalada) deitam primeiro as raízes de molho, até que amoleçam e se façam brandas, e então as espremem, et cetera... E, se estas raízes assim moles as põem a secar ao sol, chama-se carimã, e as guardam ao fumo em caniços muito tempo, as quais pisadas se fazem em pó tão alvo como o da farinha de trigo, e dele amassado fazem pão, que, se é de leite ou misturado com farinha de milho e de arroz, é muito bom, mas extreme é algum tanto corriento. E assim o para que mais o querem é para papas, que fazem para os doentes com açúcar e as têm por melhores que tizanas, e para os sãos as fazem de caldo de peixe ou de carne ou só de água, e esta é a melhor triaga que há contra toda peçonha. E por isso disse destas raízes que tinham propriedade admirável, porque, sendo cruas mortífera peçonha, só com uma pouca de água e sal se fazem mantimento e salutífera triaga. E ainda têm outra a meu ver mais admirável que, sendo estas raízes cruas mantimento com que sustentam e engordam cevados e cavalos, se as espremem e lhe bebem só o sumo, morrem logo e, com ser este sumo tão fina peçonha, se o deixam assentar-se, coalha em um polme a que chamam tapioca, de que se faz mais gostosa farinha e beijus que da mandioca, e cru é bela goma para engomar mantéus.

Outra casta há de mandioca a que chamam aipins, que se pode comer crus sem fazer dano, e assados sabem a castanhas de Portugal assadas, e assim de uma como da outra não é necessário perder-se a semente quando se planta, como no trigo; mas só se planta a rama feita em pedaços de pouco mais de um palmo, os quais, metidos até o meio na terra cavada, dão muitas e grandes raízes. Nem se recolhem em celeiros donde se comam de gorgulho como o trigo, mas colhem-as do campo pouco a pouco quando querem, e até as folhas pisadas e cozidas se comem.


(SALVADOR, frei Vicente do. História do Brasil 1500-1627)

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