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Abril 2001
Ano III - nº 32

TORTA DA SEMANA SANTA

A importância que têm tomado os estudos da ciência da alimentação nas últimas décadas, no Brasil e noutros países, traz especial relevo a este recanto do folclore: os pratos tradicionais populares.

O Espírito Santo tem seu bocado apetitoso neste substancioso capítulo. Há poucos anos, um especialista em ictiologia econômica, observou numa de suas publicações que o praiano espirito-santense é o que melhor sabe aproveitar a larga contribuição alimentar do baiacu sem nenhum transtorno para a saúde, - preparando-o de modo a retirar-lhe os tóxicos contidos na vesícula biliar e noutras partes do corpo.

Principalmente nos lugares de nossa orla marítima, encontramos interessantes pratos de peixe, muito simples, mas muito característicos e de inéditos sabores.

Sem contar aquelas tremendas peixadas de papaterra, onde a pimentaria faz soprar labaredas...

Pratos leves de peixe que são verdadeiros aperitivos...

Muma de siri. Siri picado cozido, com temperos de moqueca, retirando depois os pedaços de siri (servidos em separado) e preparando com o caldo o pirão de farinha de mandioca.

Caldeirada de calunga salgada com banana de são tomé verde (ou banana da terra madura), e de cujo caldo também se prepara o pirão.

Moqueca de búzio, moqueca de polvo novo batido e fermentado.

Comidas que variam conforme a fauna marinha regional e serão mais ou menos semelhantes pelo vasto litoral brasileiro.

Mas a melhor e talvez mais característica do Espírito Santo é a chamada torta de mariscos ou torta da Semana Santa, de que vai aqui uma das receitas:

Prepara-se um estrugido (refogado) com rodelas de cebola, alho, pimenta, azeite doce, banha de porco, azeitona, e leva-se ao fogo com palmito previamente cozido, mexendo até desaparecer a água do palmito e ganhar certa consistência. Juntam-se depois: ostra, sururu, camarão, siri e caranguejo desfiados, continuando a mexer até evaporar a água dos novos ingredientes. Retira-se então para arrefecer um pouco, e ajunta-se misturando uma parte da espuma de doze ou mais claras em neve com as respectivas batidas separadamente (comos e fosse para pão de ló).

Vai tudo a uma frigideira untada de banha ou azeite doce, cobrindo-se com o resto de ovos batidos e enfeitando-se com rodelas de cebola, salsa, tomate e azeitona, antes de levar ao forno. Não havendo forno pode-se corar colocando acima da torta um braseiro sobre um pedaço de flandres.

Embora um pouco gordurosa, é comida de apurado sabor, substancial e de fácil digestão, com boa quota de proteínas, sendo a falta de hidrocarbonados compensada com a presença de gorduras; tem também vitaminas e alguma celulose, e cálcio, ferro e iodo.

É necessário que os mariscos estejam em bom estado e sejam apanhados na época própria, o que é sempre fácil de conseguir, evitando alguma intoxicação desmancha-prazeres.

Alguns dispensam a diversidade de mariscos, e preferem a torta de puro caranguejo desfiado, a carne talvez mais fina e delicada entre todas.

Outros estragam a torta ajuntando bacalhau ou qualquer peixe salgado.

Pela Semana Santa de 1951, vimos em uma só agência de transporte aéreo, cerca de oitenta tortas alinhadas para serem remetidas de Vitória para o Rio de Janeiro. Muitas famílias capixabas residentes fora do estado, recebem ainda todos os anos a torta da terra natal enviada por parentes amigos.

Em diversos lugares do Espírito Santo, usa-se ainda a cortesia da troca de tortas da Semana Santa. À aproximação desses dias sobem os preços dos mariscos e palmitos, e por isso muitas famílias começam desde cedo a encomendar os ingredientes.

Quase sempre são as próprias donas de casa que se encarregam da preparação da torta, tarefa raramente confiada às cozinheiras.

(...)


[1952]


(FRAGA, Cristiano. Folclore)

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