Originária do Paquistão,
conforme uns, ou da vasta região situada entre a Palestina e a Índia, segundo outros,
era a cebola cultivada pelos egípcios desde épocas remotas, tendo sido encontrados em
seus antigos monumentos desenhos da planta cujos bulbos o povo da terra dos faraós tanto
apreciava. A Bíblia faz-lhe alusão, concluindo-se que os hebreus, durante o seu
cativeiro no Egito, também não a dispensavam em seus repastos, a ponto de suspirarem por
ela na longa caminhada em busca da Terra da Promissão.
Ao parecer de João Ribeiro [1], o provérbio - voltar às antigas cebolas do
Egito, é a forma que tomara a verdadeira expressão - voltar à carne ou à panela (ôlha)
do Egito, isto é, retornar à vida regalada, como era desejo dos hebreus já afadigados
de andarem pelo deserto, sem terem o que comer, murmurando contra Moisés, como vem no Êxodo,
XVI,, 3: "Provera a Deus que nós fôssemos mortos no Egito pela mão do Senhor,
quando lá estávamos assentados junto às panelas das carnes e comíamos pão com
fartura." - "Ou - diz o citado autor - conforme o texto: super OLLAS carnium
et comedebamus panem (in saturitate)". E continuando a explicação: "Tinham
pois saudades da ôlha do Egito. E ôlha é panela e cozido de carne e
hortaliça". Vai João Ribeiro buscar argumento em apoio de sua conjetura na variante
espanhola encontrada em Cervante, no Dom Quixote: bolver a las ollas de Egito.
Em conclusão: "de ôlhas fizeram cebolas". E como adminículo cita este
passo do jesuíta Alexandre de Gusmão, em seu romance Predestinado peregrino:
"Ó se gostásseis o mel e manteiga desta terra da Promissão, como vos enfastiarem
as cebolas e alhos do Egito!"
Mas existe no quarto livro do Pentateuco outra versão dos reclamos que os
israelitas dirigiram a Moisés. Acha-se ela nos Números, XI, 5, com a diferença
de que no Êxodo os hebreus, famintos, se lembravam das panelas das carnes a cujo
redor se assentavam na terra do cativeiro, tendo, então, o Senhor feito chover maná. E
no livro agora citado, os israelitas, enfastiados de tanto maná, recordavam-se do peixe
que comiam no Egito, gratuitamente, e acudiam-lhes à memória os pepinos, os porros, as
cebolas e os alhos: "... in mentem nobis veniunt cucumeres, et pepones,
porrique, et cepe et allia."
Parece que aí se inspirou o jesuíta na passagem citada pelo autor de Frases feitas.
E de como também o provérbio português teve a sua origem nesse versículo dos Números,
onde vem narrado que o clamor dos israelitas ocorrera depois que eles se vinham
alimentando de maná, encontra-se a prova neste passo de Manuel Bernardes [2]: "Quem tem olhos em Sião, pátria sua, junto aos rios de
Babilônia faz dos seus olhos rios; quem se não lembra de Sião, como há de chorar em
Babilônia? E, se tem o sentido vivo para as cebolas do Egito, como o não terá boto
para o maná do deserto?"
À mesma origem prende-se a locução francesa - regretter les oignons dEgypte,
equivalente à variante em nossa língua - chorar pelas cebolas do Egito, tendo uma
e outra o mesmo significado, isto é, sentir saudades do passado, a despeito de não haver
sido este muito feliz.
Tem a expressão um sentido irônico, desde que por muito pouco preferissem os israelitas
a escravidão à liberdade. Devemos, entretanto, levar em conta que a cebola, como o
pepino, o porro e o alho, para egípcios e judeus, tinha a mesma importância da carne e
do pão.
Conta Heródoto em suas Histórias [3], referindo-se à construção da pirâmide de Quéops, que nela
se encontravam anotados os gastos feitos na alimentação dos operários, com rábanos,
cebolas e alhos, atingindo eles a soma de 1.600 talentos. Acrescenta o Pai da História
que, a ser assim, a quanto não teriam chegado as despesas com ferramentas para o
trabalho, e outros víveres e roupas para os mesmos obreiros.
Os egípcios não só apreciavam enormemente a cebola e o alho como os considerava, coisa
sagrada, segundo se deduz do que diz Juvenal, quando profliga as superstições [4].
Os romanos também cultivavam a cebola e os seus soldados consumiam-na em grande
quantidade, a fim de adquirirem vigor e coragem.
Tinha ela em latim a denominação de cepa. E, pertencendo a uma sub-família das
Liliáceas - as Alióideas, que têm como tipo o alho (Allium sativum) - recebeu em
botânica o nome de Allium cepa. A outra alióidea, a ascalônia ou cebola de
Ascalão (Allium ascalonicum), os romanos deram a designação de cepulla,
diminutivo de cepa, e daí cipolla, ciboule, cebolla e cebola,em
italiano, francês, espanhol e português, respectivamente, com a diferença, porém, de
que em francês, ciboule é o designativo do Allium fistulosum dos
botânicos, conhecido entre nós por cebola de todo ano ou cebolinha [5].
De cepa originaram-se o adjetivo cepáceo, que tem a forma de cebola,
que cheira a cebola, e o substantivo cipolino, através do italiano cipollino,
"mármore cujos veios lembram as folhas de cebola", conforme nos explica Augusto
Magne [6].
O termo cebola entrou na formação de nomes de diversas plantas da nossa flora
(cebola-cecém, cebola-grande-da-mata, cebola-brava, etc.). Dão-se também os nomes de
cebola e cebolão ao relógio de algibeira, grande e ordinário, e empregam-se na
linguagem popular os termos cebolas e cebolório, como interjeições, exprimindo desprezo
ou descontentamento, equivalentes a - ora bolas! ora pílulas! Cebolão é ainda a
designação da "árvore-padrão de terras próprias para a cultura do café".
Diz-se de quem usa muita roupa que se parece com uma cebola, em alusão às películas e
às camadas que envolvem e de que se compõe o bulbo dessa liliácea, e dá-se o
designativo de cebola à "pessoa muito fraca, indolente, fatigada", e ao
"cavalo mole, que não é sensível às espora".
Cebola é o nome de uma serra do estado de Minas Gerais e Cebolas era ou ainda é
topônimo existente no município de Paraíba do Sul, estado do Rio de Janeiro.
Finalmente, tem a designação de cebola o bulbo de plantas como a dália, a tulipa, etc.
Esperar pelas cebolas do Egito, é outra variante das expressões citadas de
início, esta com o sentido de contar alguém com coisa imaginária ou impossível de
obter-se, e à falta de capão, cebola e pão, é um provérbio português
correspondente ao conhecido e muito empregado - "quem não tem cão, caça com
gato".
Registra Leite de Vasconcelos, em Tradições populares de Portugal, a seguinte
adivinha referente à cebola:
Chapéu sobre chapéu
Chapéu do mais fino pano
Não adivinhas este ano
Nem pra o outro que vier
Se não se to eu disser
Existem no Brasil diversas variantes, inclusive esta, citada por José Maria de Melo, em Enigmas
populares:
Capinha sobre capinha
Capinhas do mesmo pano
Se tu não adivinhar
Não acertas nem pro ano
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Notas:
[1]. Frases feitas,
2ª e última série, Rio de Janeiro, 1909, p. 133-134.
[2]. Nova floresta.
Porto, 1949, v. 1, p. 24.
[3]. Histórias,
livro 2º, CXXV.
[4]. Sátiras,
XV.
[5]. A cebola comum
tem em francês o nome de oignon, forma divergente de union (união), pois o
bulbo dessa planta, ao contrário do alho, "na quune gousse"
(Cledat).
[6]. Dicionário
etimológico da língua latina. Rio de Janeiro, v. III, v. cepa.
(PEREIRA, Carlos da Costa. "Da cebola e do alho". Em Boletim
da Comissão Catarinense de Folclore)
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