Na sua História literária
do Rio Grande do Sul, o escritor João Pinto da Silva afirma que o gaúcho brasileiro
é, sobretudo, um soldado. E, acrescenta: "Foi, sem sombra de dúvida, a sua
posição de fronteiriço que lhe desenvolveu soberanamente o instinto de luta, o ânimo
belicoso. O meio físico agiu, apenas, no sentido de lhe determinar a forma específica do
exercício da atividade guerreira, obrigando-o, diante das planícies vastas, a procurar a
colaboração do cavalo para vencer, com rapidez, as distâncias, ao encontro ou em
perseguição do inimigo."
Tenho em mãos o Cancioneiro guasca, de Simões Lopes Neto, e, lendo essa obra
antológica, reconheço que assiste razão plena ao crítico sulista. Estas confirmativas
quadras do folclore dos pampas ilustrariam irrecusavelmente os conceitos de João Pinto da
Silva:
Menina da saia branca
Lencinho da mesma cor
Quem não ama militar
Não sabe o que é ter amor
Fui soldado, sentei praça
No Regimento do Amor
Agora sou ordenança
De toda moça bonita
Sou soldado, sentei praça
No Regimento do Amor
Como sentei por meu gosto
Não posso ser desertor
Tenho meu cavalo baio
Do andar de saracura
Quando quero ver as moças
Meu cavalo me procura
Toda moça que não ama
Um mocinho militar
Pode viver na certeza
Que no céu não há de entrar
Ouvi tropel de cavalo
Esporinhas a tinir:
Era meu amante firme
Que vinha se despedir
O encarnado dis: - guerra
Eu não venho guerrear
Venho só dizer adeus
E também vos visitar
Quem foi que disse não sei
Mas quem disse não mentiu
As moças de São Gabriel
Farda nunca resistiu
Ao botar o pé no estribo
Meu cavalo estremeceu
Adeus, morena que ficas
Quem vai-se embora sou eu!
Tenho meu cavalo escuro
Com uma lista na barriga
Se a morena quer garupa
Faça senha, mas não diga...
E não só na poesia popular do Rio Grande do Sul se espelha o amor dos gaúchos ao
cavalo. São versos da mocidade fogosa de Múcio Teixeira:
Meu bravo ginete, upa!Upa, meu bravo corcel!
Eu levo sobre a garupa
Minha estrela e meu laurel...
Esse caráter de soldado e cavaleiro, do nativo de nosso extremo estado meridional, é
acusado, segundo Romanguera Correia, nos próprios termos gaúcho e guasca,
que perderam a primitiva acepção pejorativa e definiam, respectivamente, uma casta de
índios guerreiros dados à equitação e a indefectível tira de couro de que os
rio-grandenses, em geral, se utilizavam para os misteres da vida campesina.
O Vocabulário gaúcho, de Roque Callage, é repleto de termos bizarros,
incompreensíveis para os vaqueiros nortistas, os centauros celebrizados pelo grande
Euclides. Bem diversa da dos nossos é a terminologia dos recados ou arreios
gaúchos, com aquela complicação toda de buçal, buçalete, badana,
maneia, coxinilho, tentos, pessuelos, guasquinhas, copas,
coscos etc... Não possuímos as armas e utensílios do campeiro pampiano: o laço
e as bolas, inadaptáveis às caatingas nordestinas; nem as peças da
indumentária: o pala, o poncho e o bichará. Para os gaúchos o
cavalo ruim é pilungo, matungo, bem como teatino é o de dono
desconhecido, malacara é o que tem uma "estrela" na testa, pangaré
é o "melado" claro (baio), sapiroca o de olhos brancos, urcaço o
de tamanho avantajado, chimarrão ou bagual o "brabo", redomão
o mal domado, pingo o bom e vistoso ou "famoso", flete ou fletaco
o bom, bonito e elegantemente arreado.
Tão ciosos são os gaúchos da sua fama de cavaleiros destros e exímios que a um
indivíduo que monte mal chamam desprezivelmente baiano ou maturrengo. Não
esquecer que baiano é, em todo o sul, sinônimo de nortista...
Não nos servindo para correrias e escaramuças guerreiras, não estimamos, por estas
bandas do norte, o árdego corcel marcial, sim o manso cavalo de sela, de bralha
macia ou esquipado faceiro. Mesmo os vaqueiros preferem o cavalo manso, embora
resistente e veloz. É o que lhes convém às atitudes de desleixo e aparente cansaço,
quando deixam cair o corpo para um lado da sela, apoiando-se num só estribo. Mas, ainda
assim, tem o cavalo presepeiro os seus incensadores entre os violeiros do nordeste.
É conhecida a quadra:
Já sou velho e tive gosto
Morro quando Deus quiser...
Duas coisas me acompanham:
Cavalo bom e mulher!
São também versos da musa do povo e inéditos:
Com cavalo e com mulher
Toda vida eu fui unido
Cavalo bom tive muito
Por mulher eu sou perdido...
Fui à missa na Pendença
Fui ao sermão na Jubaia
Cavalo que não esquipa
Na minha mão sempre braia
Quem quiser ser bem querido
Das morenas do sertão
Nas costas de bom cavalo
De guarda-peito e gibão
Chinela de sola e vira
Espora de rosetão
Chapéu novo na cabeça
Redor da copa um cordão...
No seu cinismo de capadócio arrogante, dizia o cantador alagoano Jaqueira:
Eu andei de déo em déo
E desci da galho em galho
Jota-a já, queira ou não queira
Eu não gosto é de trabalho
Por três coisas sou perdido
Mulher, cavalo e baralho...
(MOTA, Leonardo. Sertão alegre) |