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Abril 2001
Ano III - nº 32

MÉTRICA CABOCLA

Os poetas urbanos controlam suas composições tamborilando nas escrivaninhas. O poeta caboclo metrifica "repinicando" a viola. Pois a poesia é gêmea da música.

Foi em Bela Vista, com o Anicondes. Risonho, ele ia ditando a moda. Depois do sexto verso, parou e disse:

- Agora é outro verso.

Eu, que já havia escrito seis, hesitei...

Logo porém entendi. Verso era estrofe.

- Esta moda é de "pegada e meia", - explicou Anicondes. Afoitei então uma pergunta:

- Como é que você compõe a moda?

- A gente inventa ca viola. Repinica nela e vai cantanu, siguinu a musga, consoante o assunto dá. O dispois, repete até firmá.

Eis a beleza da poesia popular! Poesia e música têm um só berço. A primeira forma de expressão da poesia foi o canto. Desde os hinos sagrados de Rig-Veda, na Índia, os salmos bíblicos, entre os hebreus, os himeneus, entre os gregos, ou as laudes romanas e nênias ibéricas. E estava intimamente associada à música. Os poemas homéricos, a mais antiga poesia helênica, não eram primitivamente cantados pelos rapsodos nas reuniões festivas? A própria poesia lírica, cultivada no berço da civilização ocidental, que deu tão esplêndidos florões na literatura latina e nas literaturas ocidentais, não deriva seu nome da lira, com que eram acompanhadas aquelas poesias? O mesmo quadro nos oferece a matriz das modernas literaturas, a Escola Provençal, com suas "cantigas de amor", que os jograis e trovadores levaram aos mais longínquos recantos da Europa. As "cantigas de amigo" da velha lusitânia, bem como os "romances" da vizinha Espanha, também estavam associados ao canto e à música. E vários eram os instrumentos que acompanham os trovadores medievais: violars, joglars e os musars. E freqüentemente a cantiga se associava à dança, como na dança-prima das Astúrias, na muinera da Galiza, em Espanha, ou nas bailias lusas, para só citarmos as de casa. Só depois é que a poesia se desgarra, tornando-se autônoma.

Anicondes definiu bem esse estágio primário de nossa poesia popular: "esta moda é de pegada e meia de viola". E eu o havia compreendido. Não me atrapalhei mais quando, no casebre de Antônio Brás, em Atolador, "debitava" uma moda, e ele foi logo dizendo:

- A moda é de duas pegadas. E começou:

Ajuntaro a bicharada
Fisero combinação
Pra fazê festa de fama
Lá no centro do sertão
O urso tinha uma fia
Dilicada de feição
Pra num separá da raça
Feis casá cum primo irmão


A estrofe, além de verso, é chamada também "obra".


Rima tem o nome de "atrovo". Moda bem arovada é, portanto, moda bem rimada.

A obra pode ser:

de 4 pés,
de 5 pés,
de 6 pés,
de 7 pés,
de 8 pés,
de 9 pés,
décima,
de 12 pés,
de 18 pés,

Em Jaraguá ouvi o velhinho Pedro Nolasco dizer: - Tenho uma décima sobre a vaca.

Quadra, sextilha, etc., nunca ouvi. A quadra equivale a uma pegada de viola. A sextilha, a pegada e meia. E assim por diante.

Strubi é o nome de estribilho.

A medieval redondilha maior é o verso preferido pelo caboclo quer em suas expansões amorosas, quer nas narrativas de façanhas, de pequenos romances da sua vida pastoril, celebrando bravuras de bois e de cavalos ou fatos sociais e políticos do meio rural. Quanto às "obras" ou estrofes, a quadra - uma pegada de viola - tem a preferência da poesia popular goiana. Das 63 composições insertas neste cancioneiro por mim coligidas, vinte são quadras, dezoito oitavas, doze sextilhas, sete décimas, duas quintilhas, uma sétilha, e uma obra de nove pés. Conforme se observa, a ela se segue a oitava, depois a sextilha e finalmente a décima. Registro dois desafios em quadras e um ABC. A quadra, setissilábica, possui as seguintes estruturas de rima: abcb-freqüente; abab, abba, aabb, raras.

Exemplos:

Eu queru mi espandi
Premeru peçu licença
Pra cantá in Ipameri
Mi achu sem competença


U povu di hoji in dia
Todu usu qué fazê
Agora já tão usanu
Pegá genti prá vendê


Camarada num sô não
Num queru sê camarada
Aminhã tô na ribada
Sô mandadu dum meu patrão


Meu patrão falô pra mim:
- Meu boi preto tem di vim
Meu boi preto é mascaradu
Cabecêra du meu gadu


Os estilos das poesias, o assunto, a rusticidade dos cantadores, a linguagem popular, não autorizam a supor colaboração erudita nessas estrofes. As quadras veiculam os temas tradicionais da poesia religiosa - folia de Reis, folia do Divino, celebrações do Rosário, letra da dança de São Gonçalo bem como as letras das danças tradicionais dos tapuias, congo, moçambique, etc.

As sextilhas, na sua maioria, compõem-se de versos de rimas pares: abcbdb; encontram-se ainda ababcb, ababab, abbcbb, abcbab.

Exemplos:

A mão a pena toquei
Fazendo esta poesia
De uma eleição que trabalhei
Assujeitando arrilia
Partido de fraco elemento
Foi que teve maioria


U sapu e u papa ventu
Já fizeru u seus contratu
Di fazê a cantarola
Nu mutirão du macacu
Mutirão di fazê roça
La numatu du ressacu


Creio que vai melhorar
Segundo vejo os projeto
Precisa vigorar
Um governo mais correto
Se assim continuar
Meus desejo estão completo


A respeitu a pagodera
Vô dá mêa opinião
U pagodi é muntu bão
Havenu boas concurrença
U povo tudu em lôvação
U pagodi é munto bão

Quanu eles vão nas função
Já vão di causu pensadu
Leva pinga, põe na moita
Toda hora bebe um mucadu
Em quarque repartição
Já fica adiantadu


A sextilha parece ser preferida para as composições poéticas do ABC. Registrei quatro neste cancioneiro e ainda em desafio, neste gênero de estrofe.

A obra de oito pés, ou oitava, apresenta as seguintes composições de rimas: abcbdfeb, abcdcded, abcbdede, sendo a primeira e última as mais habituais.

Exemplos:

Agora u lobu foi pra viola
A onça foi prorela
U cuei ficô na porta
Botanu sintidu nela
Uma mão tava na chavi
I a ôtra na tramela:
- Us bichu ganharu u matu
Quanu o lobu abriu a guela


Quanu eu cheguei lá na festa
Us bichu tudu mi sòdô
Vei di lá tamanduá véiu
Disse adeus, mi abraçô


Eu entrei nu salão
E peguei prestá assunto
Cavaiêru tinha bem
I dama tamém era muntu


Registrei um ABC em oitavas - ABC do amor.

Em quarto lugar vem a décima, da qual sete registradas, com as disposições de rimas: abcbdbebfb habitual, e abcbdefege, pouco encontrada. Repare-se que difere tanto das décimas portuguesas - abbaeccdde, quanto das brasílias - abbacde - citadas como gerais no Brasil sertanejo por Câmara Cascudo.

Exemplos:

Sinhoris mi dê licença
Minha moda eu vô contá
Eu inventei esta moda
Foi memo pra conseiá
Tantu moçu cumu moça
Qui deseja si casá
Faça bom procidimento
Pra não dá u qui falá
Deve namorá seguru
Pru povo não defamá


Coração qui é amoroso
Quanu chega a querê bem
Passa u tempu que passá
Lialdade sempre tem
Moça si vois mi ama
Eu queru ficá ciente
Mi dá sintoma di amô
Queru sabê perfeitamente
Quem ama recrama e chora
Suspira e sente


As quintilhas que encontrei compõem a Moda da revolução de trinta, de A. Mariano. São de rimas ricas e excelentes, que assim se dispõem: abaab.

Enfins todos que governam
O nosso grande Brasil
Só arranja dívida externa
Mi come por uma perna
Não me dá nem um ceitil


Destoando da uniformidade do setissilábico da poesia popular, encontrei e vão registradas duas "obras" de oito pés, de versos pentassílabos. A moda é de autoria de Pascoal Guimarães, de Morrinhos, e se intitula Lindra morena; compõe-se de cinco estrofes, sendo as duas primeiras oitavas e as três últimas sextilhas. Vejamos as oitavas de versos pentassílabos:

Qui lindra morena
Qui lindra facera
Essi seu geitim
É di enganadera
É patrístia mïa
Ela é brasilera
Essas cô morena
É matadera


Eu pri vois padeço
Desta manera
Eu tem qui ti amá
Inquantu fô sortera
Qui lindra morena
Qui lindru oiá
Fais um cabrinha
Passá má


A disposição das rimas da primeira estrofe é a mais comum: abcbdbeb; e da segunda: abcbdefe.

Na poesia popular goiana, como em todo o país, gozam de grande prestígio as modas em ABC em que se celebram fatos ocorridos na vida rural. Dos seis ABC recolhidos do cancioneiro, dois registram o episódio importantíssimo da revolução de 1924 chefiada por Luiz Carlos Prestes e Siqueira Campos, enquanto o terceiro celebra o regime revolucionário instalado pela vitória da revolução de 1930 que, na expressão do caboclo, "acabou com a exploração política e trouxe a paz". A Moda da revolução de trinta, de Adolfo Mariano, com a Moda da revolução, de Henrique Pedro da Silva, e mais as primeiras citadas, formam o que denominei o "ciclo revolucionário", cuja importância soube apreciar o ilustre professor Roger Bastide, na carta que vai em apêndice. Voltando aos ABC, outros três dos registrados no cancioneiro são líricos, sendo que um amoroso - ABC do amor. Essa forma de poesia popular veio-nos de Portugal, onde foi largamente cultivada na época do Renascimento, embora suas raízes se insiram em fases românticas. A estrofe preferida para essa espécie da poesia popular é a sextilha, ainda que se encontrem quadras e oitavas.

Na sextilha, as rimas têm a seguinte disposição: ababab

Recortado, aqueles versos alegres que seguem a moda, ouvi chamar de "alto" em Jaraguá. Foi com Joaquim Alves de Oliveira, que depois de ditar a moda disse: "agora é o alto".

O recortado, aliás, é uma composição poética que merece reparos. Como complemento da moda, sua finalidade é provocar hilaridade. A toada também difere do tom melancólico da moda. É alegre e ligeira. Por isso quase sempre o recortado é uma colcha de retalhos costurada no momento. Vejam, por exemplo, este caso: estamos ouvindo a Moda do boiadeiro, que descreve a vida trabalhosa do pião, tocando a boiada. Cantada naquele tom dolente das toadas catireiras, e ouvida em silêncio religioso por todos.

Finda, vem o recortado:

Ai dona, hoji num cumi nada
Eu cumi uma vaca assada
Deis caxa de marmelada
Vinti garrafa de vim
Deis lata de cocada
Dona, eu hoji num cumi nada


Há, entretanto, alguns, feitos a capricho pelos autores, para complemento do sentido da moda. São verdadeiros apêndices. Mesmo nesse caso, a expressão é chocarreira. O recortado da Moda da revolução, recolhida de José Brás, obedece esse plano proposital, conservando, todavia, o tom zombeiro. Diz:

U povu de hoje in dia
Todu usu qué fazê
Agora já tão usanu
Pegá genti prá vendê

Vieru peganu genti
Cumo vem peganu gadu
Foi peganu i riuninu
Pra levá pru Totó Caiado

Nesti istadu di Goiás
U Inaçu é diferenti
Us ôtro fais boiada é di boi
Êli fais boiada é di genti

Eu façu a cumparação
Nem assim eu digu beim
U Inaçu só paga i vendi
Mas num compra di ningueim


Dos "versos" usados, parece que os preferidos dos cantadores são: quadras, sextilhas, oitavas e décimas, em nossa linguagem.

Alguns de perfeita forma. Vejam esta oitava:

Na mata bêra das carda
Eu tem lá uma roquêra
Quanu chega a dá um tiro
Estremece a mata intêra
Tiro zôa mata abaxu
Zôa até nas cabicêra
Atiranu nu dumingu
Zôa até sigunda-fêra


O "atrovo" é estético: 2, 4, 6, 8.

Aliás, noto que as rimas dos nossos menestréis se fazem comumente nos versos pares. Foge a este uso a "obra" de cinco pés do grande Adolfo Mariano, verdadeira jóia da poesia popular:

Disculpe franquezas minhas
Liceça, caro leitor
Vou rabiscar estas linhas
Com certas frases mesquinhas
De mau improvisador

De minha livre vontade
Vô fazer uma pequena crítica
Não tenho capacidade
Mas estou na liberdade
Vamos falar na política

O ponto que me desgosto
No estado de Goiás
Em vez de abaixar os imposto
Como agora eu amostro
Estô pagando muito mais

E seguem cerca de 15 estrofes nessa riqueza de rimas. Isso na boca de um homem que apenas aprendeu a ler e escrever. No gênero de modas, tem largo uso o ABC de tradição portuguesa.


[1940]


(TEIXEIRA, José A. Folclore goiano)

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