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BRINQUEDOS

As meninas brincavam de roda. Para sortear quem ficaria no meio, ou de fora da roda, uma ia recitando, acentuando as sílabas, pondo a mão nos ombros das outras: "anga, panga, sete panga, pipirá que ti vá lá".

Aquela sobre quem recaía a sílaba lá era excluída. Prosseguia o sorteio com recitativo. A que sobrava ficava no meio da roda, ou do lado de fora, conforme o brinquedo.

Quando o sorteio era suspeitado de fraude mudava-se:

"Uma, duas, an-go-li-nha, mete o pé na pam-po-li-nha..."

Ou então:

"Uma, duna, tena, catena, catené, teté, currupi, currupé, contabém, quesãodez".

Então começava o brinquedo de roda.

Uma menina no centro da roda, com o rosto coberto pelas mãos, e as outras de mãos dadas, girando em torno:

Senhora dona Sancha
Coberta de ouro e prata
Descubra o seu rosto
Queremos ver sua cara

A do centro respondia:

Quem são estes anjos
Que estão me rodeando
De noite e de dia?
Padre Nosso, Ave Maria!

As da roda respondiam:

"Somos filhas de um conde e netas de um visconde..."

* * *


Cantavam também:

Nesta rua, nesta rua tem um bosque
Que se chama, que se chama Solidão
Dentro dele, dentro dele tem um anjo
Que roubou, que roubou meu coração!

E também:

Ciranda, cirandinha
Vamos nós a cirandar
Vamos dar a meia volta
Volta e meia vamos dar

Então uma das meninas virava-se de costas, continuando a rodar.

Cada vez que terminavam a estrofe, virava-se outra menina, até ficarem todas de costas.

Ou ainda:

Surupango da vingança
Toda gente passarão

(deformação da canção francesa do século XVII ou XVIII):

Sous le pont d’Avignon
Toute le monde passeront

* * *


Havia:

Bento! Que Bento? Frade!
Aonde ireis? Eis!
Tirar um bolo? Bolo!
Da boca de um forno? Forno!
Aonde o seu Mestre mandar?
Iremos todos com muito gosto!

E então as meninas da roda saíam correndo em busca de algum objeto escondido pela menina que estava no centro.

* * *


Ou cantavam, batendo os pés e as palmas das mãos:

Palma, palma, palma
Pé, pé, pé
...
Caranguejo peixe é

Outra canção dizia mais ou menos assim:

Eram dez meninas numa roca
Todas elas fazendo pipoca
Deu o tango no mango numa delas
Não ficaram senão nove

Eram nove meninas numa roça
Todas elas fazendo biscoito
Deu o tango no mango numa delas
Não ficaram senão oito

Eram oito meninas numa roca
Todas elas fazendo croquete
Deu o tango no mango numa delas
Não ficaram senão sete

Quando chegava a "não ficar senão uma", esta corria perseguida pelas outras tentando chegar até o "piques".

Se fosse alcançada, ficaria na "berlinda" no brinquedo seguinte.

Ainda:

Mas bom dia, vossa senhoria
Mato tiro, tiro lá
- O que quer Vossa Senhoria?
Mato tiro, tiro lá
- Quero uma de vossas filhas
Mato tiro, tiro lá
- Qual delas você quer?
Mato tiro, tiro lá
- Eu quero a menina Antonieta
Mato tiro, tiro lá
- Pra que é que você quer?
Mato tiro, tiro lá
- Quero ela para lavar roupa
Mato tiro, tiro lá
- Ela diz que não lhe agrada
Mato tiro, tiro lá

Então substituía-se a primeira pretendente por outra. E mais outra e mais outra. Afinal, uma dizia:

- Quero ela para pianista
Mato tiro, tiro lá
- Ela me diz que bem lhe agrada
Mato tiro, tiro lá

Ou então:

- Quero ela para manequim
Mato tiro, tiro lá
Ela lhe diz que bem lhe agrada...

Quando todas tinham arranjado emprego, o brinquedo acabava.

* * *


As meninas não eram fortes em invençao. Quando faltava outra coisa brincavam com bonecas.

Quanto aos meninos, as coisas eram mais violentas e mais simples de contar. Brincava-se de esconder, de "acusado", de "cacholeta", de "saute mouton", de bola, de sela (montados uns nos outros), de jogo de bola à mão, de frontão na parede, de bolinhas de gude e de futebol.

Ou com uma varinha, corriam pelo passeio, tangendo rodas de madeira leve.

Nos ventos de abril empinavam papagaios.

* * *


Meninas e meninos andavam de velocípede ou bicicleta, jogavam bola, peteca e mais tarde, diabolô.

* * *


À noite, as crianças sentavam-se no chão, fazendo roda, para ouvir histórias, contadas pela mãe. Às vezes, pelas empregadas.

Raríssimas vezes pelo pai: "... então outro sapo respondia lá na frente. E o veado corria, corria. E outro sapo respondia lá mais na frente. Quando o veado chegou ao fim, todo cansado e respirando forte, estava lá o sapo que tinha apostado com ele.

O coitado do veado teve que pagar a aposta, e o sapo distribuiu o dinheiro com os companheiros que tinham ajudado a enganar o veado".

O que mais emocionava quando o pai contava, era a "importância" dada às crianças. Além disso, o torneio da frase diferente do da mulher. Finalmente, a voz grossa, enrouquecida nas passagens mais importantes.



(AMERICANO, Jorge. São Paulo naquele tempo)