A HABITAÇÃO DO
CABOCLO
A casa do caboclo lembra as pallafitti, mas, ao contrário destas, que são
conglomerados de habitações, a chaumière amazônica está sempre isolada,
entre a floresta e o rio. Houve quem chamasse essas habitações rústicas de "casas
de perna de pau", pois nunca são construídas diretamente sobre o chão por amor das
cheias.O telhado é de palha de buçu, que é uma palmeira, cujas folhas
semelham às da bananeira.
As paredes, quando não são de tábuas de paxiúba, fazem-se também de buçu.
As tábuas de paxiúba servem, igualmente, para o assoalho.
A paxiúba existe em abundância no vale amazônico.
Já o mesmo não acontece com o buçu, que é numeroso apenas no Baixo
Amazonas; a sua palha, entretanto, é vendida nas povoações da planície.
No recesso da mata, na caa-eté, os caçadores costumam levantar pequenos
abrigos, cobertos de palmas, a que dão nome de paperi, nome, aliás, que os
nordestinos, domiciliados na Amazônia, corrompem em taperi.
A iluminação das casas de caboclo ainda é feita com candeias e lamparinas,
alimentadas com azeite de andiroba.
A andiroba é, pois, uma das árvores mais úteis da Amazônia.
Quase sempre ao lado das casas de caboclo erguem-se palanques, onde se fazem hortas, a
fim de livrá-las das enchentes. A esses palanques chamam comumente jiraus e,
quando são grandes, podendo conter além de hortas pequenos currais de gado, denominam-se
marombas.
Não raras vezes, quando a cheia é violenta, essas marombas são arrastadas
pela correnteza como verdadeiras ilhas flutuantes.
Na Amazônia, na hora do pôr-do-sol, o caboclo costuma fechar a casa e fazer em torno
dela a fumaça. É uma prática destinada a afugentar os carapanãs, os
terríveis mosquitos da região beira-rio.
Quem se aproxima de uma casa de caboclo tem logo atenção voltada para os xerimbabos.
Os xerimbabos constituem a criação caseira do caboclo. São bichinhos
domésticos ou domesticados: papagaios, araras, passarinhos e outras aves, jabotis. Entre
eles figuram os macacos, sendo o mais comum o barrigudo, com o qual as crianças gostam de
brincar.
Bem estimados são outras castas de macacos: o coatá, apreciado pela carne
saborosa; o macaco prego, o macaco inglês de pelo avermelhado, também chamado caiarara,
o macaco cabeludo ou parauacu e o macaco de cheiro, bastante catinguento.
Os saguis numerosos, vivem soltos pela habitação.
Entre os xerimbabos costumam ter uma jibóia, cobra escura de pintas negras.
Não é venenosa e defende a casa contra os ratos.
Dizem os caboclos que a jibóia, por vezes, alcança cerca de doze metros e, depois de
velha, foge para o fundo do rio e nunca mais volta.
Uma nota típica da casa de caboclo é a riqueza de cestaria.
Os cestos são os móveis do homem da Amazônia.
Geralmente fazem os cestos com os talos de arumanduba ou de jacitara.
É pitoresca a variedade desses cestos.
O uru, feitos de talos, com tampa, serve para guardar miudezas: cachimbo,
tabaco, fósforo, etc.
Nos paneiros, grandes ou pequenos, guardam farinha d água.
Os aturás, da forma dos paneiros, destinam-se a conduzir da roça à
casa mandioca e outros produtos da terra.
Para transporte de roupas nas viagens usam-se cestos cônicos, chamados panacus.
Em toda casa há sempre uma arupema ou gurupema, espécie de peneira,
onde se coam o açaí, a mandioca, a bacaba, etc.
Persiste ainda, na Amazônia, o uso do tipiti, cilindro feito de talas de
palmeira que, esticado nas extremidades, serve para espremer a mandioca brava. É
vestígio da prensa ameríndia, utilizada no fabrico da farinha.
Os caboclos dormem, de regra, em redes feitas de tucum ou de algodão. Algumas
delas tem varandas, isto é, abas ornamentais, às vezes feitas de chita.
Essas redes apresentam desenhos coloridos que revelam a arte decorativa da tecelagem
regional.
Usam também esteiras ou tupés como singelos meios de repouso doméstico.
Embora rústica, a casa do caboclo quase sempre é cheirosa. É que costumam queimar
ninho de cunauru, o qual exala um perfume bastante agradável.
O cunauru é um sapo que curiosamente faz ninho de matérias reinosas por ele
mesmo segregadas. Tem a forma de uma panelinha. O caboclo utiliza-o mais pelo seu atributo
sobrenatural de trazer felicidade do que pela ação odorífera.
A poterie do caboclo , além de rudimentar, não possui nenhuma originalidade.
É pobre e contrasta com a riqueza da cerâmica, utilizada pelos ameríndios da planície.
A ECONOMIA ALIMENTAR
O fogão do caboclo, o tacuruá, consiste em três pedras dispostas em
triângulo sobre as quais se assenta a panela.
Fica sempre fora de habitação.
A mandioca é a base da alimentação do caboclo. Com ela fazem numerosos recursos
alimentícios.
Os beijus feitos de mandioca substituem o pão e apresentam vários tipos: o beiju-açu,
o beiju-puquena, o beiju-curuba (feito de massa de castanha-de-caju
ralada), o beiju-cica, o beiju-membeca.
Para os doentes, há o caribé, mingau sem sal, de farinha dágua.
Bem conhecidos são o tacacá, o tucupi e o arubé.
Tacacá é goma de tapioca misturada ao tucupi, fervido com alho,
sal, camarão, jambu e pimenta de cheiro.
É muito comum em Belém do Pará.
Tucupi ou tucupi de sol é um molho picante, feito com caldo de
mandioca fervido. Usa-se como acompanhamento de diversos pratos. É muito apreciado:
tartaruga no tucupi, paca no tucupi, etc.
Arubé é massa de mandioca com sal e pimenta. Faz às vezes de mostardas.
Para os caboclos da Amazônia , grande fonte de sua economia alimentar está na pesca.
Entre outros peixes mais apreciados pelos caboclos figuram o pacu e o pirarucu.
O pacu no tucupi constitui um prato excelente.
O pirarucu, igualmente, é saboroso. Com as suas vértebras dorsais e as suas tripas
fazem ainda um guisado muito gostoso: o querequê.
Da língua do pirarucu fazem ralador.
Apreciam também o piraíba, que é o maior peixe da Amazônia.
O prato predileto do caboclo, entretanto, é a tartaruga. Com ela, fazem-se várias
formas de comida: o guisado, o sarapatel, o paxicá, o picado no peito, a farofa no caco.
Cunhamuçu é a tartaruga que se come assada inteira.
Há uma pequena tartaruga, a muçuã, também muito saborosa.
Dizem os caboclos que o macho da tartaruga capitari possui carne
mais gostosa que a fêmea.
Apreciam , sobretudo, os ovos de tracajá certa casta de tartaruga.
Não há dúvida que o prato mais saboroso da tartaruga é a farofa no casco. Retirado
as vísceras, o casco da tartaruga é temperado com sal e limão. Em seguida, levam-no ao
forno, produzindose farta gordura. Ajunta-se farinha dágua e faz-se a farofa.
Durante vários dias o casco dá gordura.
Afirmam os caboclos que o fígado do jaboti fica mais gostoso se jogar o jaboti três
vezes para o ar.
Comem jacaré; sobretudo o rabo, que é mais gostoso. E das três espécies: o
jacaré-açu, o jacaré-coroa, e o jacaré-tinga, preferem o último.
Aves não faltam no menu do caboclo. As mais apreciadas são o jacu e o macucava.
Há várias espécies de jacu: jacu-pema, o jacu-vermelho e o jacu-pintado. Tem o gosto de
faisão.
O macucava é considerado a perdiz das Amazônia.
Apreciam, igualmente, os filhotes de jaburu salgados.
Caças não são raras: a paca, o caetetu, etc.
Até a içá, formiga tanajura, serve de alimento. Comem-lhe o traseiros e dizem que
tem um bom sabor.
Um prato típico de gente ribeirinha é a panelada de maniçoba.
Entra mocotó, língua salgada, tripa, cabeça de porco e outros ingredientes. A
panelada geralmente é feita por ocasião de festas.