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Fio inspirado em desenho de muiraquitã.
SEMANA SANTA DE OUTRORA

A semana santa que eu conheci não era quase nadinha parecida com a semana santa de hoje.

Mal deixavam de guisalhar os pierrôs, os dominós, os príncipes, mal se recolhiam às sedes definitivamente as Pás e os Caiadores, mal
estiavam os batuques do Leão Coroado, Cabinda Velha e outros maracatus, o povo tratava de pensar na quaresma e de ouvir os sermões nas sombrias naves com altares velados por longos panos roxos. A palavra emotiva do padre Augusto, os conselhos suaves do cônego Araujinho, as pinturas magistrais do suplício de Cristo de monsenhor Fabrício, atraíam os fiéis e punham-lhes arrependimentos amargos nas almas pelos pecados cometidos durante o carnaval.

E vinham também chegando as procissões. As modistas recebiam encomendas de vestidos de seda preta. A loja de madame Girad não sabia como preparar tantos pares de luvas de pelica negra ou cinzenta. As vestidoras de anjos que moravam nas ruas estreitas e descuidadas do bairro de São José tratavam de pôr a arejar, de passar a ferro, de reformar os trajes de Menino Deus, de Nossa Senhora da Soledade, Senhor dos Passos, de Anjo Gabriel…

Eram típicas essas vestidoras de anjos. Quase sempre umas solteironas, esguias, narigudas, feiosas, de
matinês
de madapolão com galões encarnados, de cocós arrepiados, quando não eram já velhotas tabaquentas e carolas, freqüentadoras assíduas da Penha.

E nas casas o assunto não era outro:

- Eu vou ver a de Encontro no pátio de Santa Cruz.

– A dos Martírios, eu vejo do sobrado de Naninha, no pátio do Terço.

– Este ano a do Senhor dos Passos vai ser uma beleza. A gente do Amorim mandou buscar de fora uma túnica toda bordada a ouro para a imagem.

Eram várias as procissões: das Chagas, dos Martírios, do Bom Jesus dos Pobres Aflitos, do Encontro, dos Passos, do Triunfo, do Enterro, da Ressurreição. Cada uma no seu bairro, da sua igreja, com seus admiradores e partidários. Algumas boliam com a cidade inteira. As cocheiras botavam para a rua todos os seus carros, de
boleeiros metidos em sobrecasacas de botões dourados, cartolas, luvas. Os bondes da Caril e as maxambombas traziam gente pendurada nos estribos e nas portinholas. Desde a lordeza da Madalena e da Linha Principal ao pessoal pobre de Afogados e Santo Amaro, todos confluíam para o centro a fim de apreciar as mesmas cenas e os mesmos aspectos de todos os anos. Porque se há espetáculo que não mude é o das procissões.

O bairro de São José sempre teve um ambiente propício a essas procissões da quaresma. Ainda hoje o conserva. Os seus pátios silenciosos e quietos, as suas ruas envesgadas e estreitas, os seus becos, pitorescos e sujos, os seus templos antigos e descuidados – enquadram bem ainda as cerimônias da semana santa, quer de culto interno, quer as cá de fora.

Nas noites de correr igrejas, nas tardes dos sermões, nos dias de procissões, o movimento nesse bairro se reveste de um colorido beato de época primitiva, distante, ingênua. São as devotas de vestidos ruços e antiquados, são os carolas de caras atoleimadas ou fingidas, são as irmandades de opas desbotadas, são os anjos de tarlatanas machucadas e canutilhos prateados gingando num ar de quem vai para o céu.

E as confrarias desfilam. Confrarias de nomes piedosos e suaves: Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Rita de Cássia, Santíssima Trindade, São José da Agonia… Passam de pendões alçados, de lanternas e cruzes em vertical, de barandões batendo no chão. Entre os irmãos, o povo destaca os tipos conhecidos no bairro pelas suas atitudes pouco cristãs e pouco angélicas na vida pública ou privada:

- Lá vai todo empinado seu José que vende carne do Ceará podre…

- E seu Chico que dá de tirar sangue na enteada.

– Todos feitos santos…

- Do pau oco.

– Me deixe…

Os sinos principiavam cedo a chamar os irmãos para vestir os hábitos e as opas nas irmandades a que pertenciam. E eles obedeciam sem demora ao apelo. De armazéns, de escritórios, das repartições, das fábricas, das companhias, saía gente de rumo às sacristias dos templos. Nos lares a lufa-lufa
dos preparativos, femininos. Penteados sempre difíceis por causa dos inúmeros grampos, das múltiplas marrafas, dos pentes trepa-moleques, dos niniches, dos cachos supostos. O arrochamento dos espartilhos com os seus cordões apertados a muque de criadas, em fincapé, transformando cinturas de travesseiros em pescoços de gansos, exigia igualmente grande antecedência. Depois as duas ou três saias de baixo, bem engomadas, bem duras, com bem roda. E havia ainda os vestidos complicados de rendas, de golas, de botões, de pingentes. Mais os anéis, os broches, os birimbelos, as pulseiras, os relojinhos pendurados, os chapéus presos por longos grampos, os véus de bolinhas tapando os rostos… Indumentária complexa, demorada, praticada diante das escravas ou das negrinhas já forras que, por sua vez, iam com as patroas, de chitas novas, ver os préstitos quaresmais.

Houve algumas procissões no Recife, desaparecidas na época moderna, que fizeram seu sucesso. A de Triunfo, por exemplo. Saía da Ordem Terceira do Carmo com imensa pompa e longo acompanhamento. Levava catorze andores com cenas da Paixão de Jesus. Por seu turno, não querendo ficar por baixo da congênere e rival, a Ordem Terceira de São Francisco punha na rua a procissão das cinzas. Esta caía mais no gosto do povo por ter uns laivos carnavalescos. Não saísse ela logo no dia seguinte ao da terça-feira gorda! Vinha na frente um bobo, metido num camisolão de estopa, de máscara na cara, soprando uma corneta e brandindo um relho contra os moleques que lhe atiravam caroços de pitombas. Seguiam-se diversas figuras simbólicas: Adão e Eva, Caim e Abel. Os Inocentes, As Três Virtudes, O Juízo Final, A Morte, A Justiça, O Diabo, além de uma dezena de andores conduzindo santos de nomes esquisitos: Santa Bona, Santa Ângela de Fulgínio, Santa Margarida de Cortona, São Vibaldo, São Ivo Doutor e São Francisco em várias passagens de sua vida. O povo apelidava certos santos: São Vibaldo era o santo do pau oco; São Lúcio e Santa Bona, que iam numa só charola, eram os bem-casados.

Esse cortejo deixou de sair durante muitos anos, cousa de uns trinta, até que em 1893 Olinda quis recordá-lo e a igreja de São Francisco obteve permissão episcopal para esse cometimento. Constituindo novidade para a geração moça daquele tempo, avaliar-se-á bem o que foi. Um cronista escreveu: "Parecia ter-se o Recife mudado para Olinda". Apesar das fadigas do carnaval, terminado na véspera, ninguém deixou de ir assistir à procissão das cinzas. E as ruas místicas, silenciosas, desertas da velha terra de Duarte Coelho, lá por cima, se vestiram de festa, de ruídos, de movimento, como de raro acontecia fora da semana santa. As maxambombas partiam com passageiros até nos toldos; as canoas voltaram a ter préstimo de transporte humano. Os carros eram cotados a 200$000. Irmandades do Recife deixaram de tomar parte no préstito por falta de condução. E, por esse mesmo motivo, muita gente ficou para dormir em Olinda à espera dos primeiros trens do dia seguinte.

A procissão dos Fogaréus realizava-se em época longínqua. Lúgubre e bizarra ao mesmo tempo. Representava a procura de Jesus, pelos judeus, para ser preso. Saía à noite de quinta-feira maior. Todos de fachos nas mãos, em passo largo, de igreja em igreja, como quem anda à cata de descobrir alguém. Pereira da Costa fala também de outra procissão exótica e remota, um quê de medieval: a de encomendação das almas. Aparecia à meia-noite da sexta-feira da Paixão, entoando cânticos plangentes, com música fúnebre, matracas, campainhas… Iam nela apenas indivíduos do sexo masculino. Hoje, certamente, as mulheres já se teriam metido também. Nesse época o sexo feminino não podia sequer vê-la passar. Trancava-se em casa, porém provavelmente espiava pelos postigos, saboreando o fruto proibido. Os homens trajavam mortalhas brancas, tinham apenas os olhos e as bocas à mostra, conduziam lanternas acesas. Alguns punham grandes pedras às costas; outros, flagelavam-se. Um irmão de opa verde pedia esmola para as almas.

A semana santa do meu tempo possuía também outra expressão. A cidade, de fato, enchia-se de tristeza, de quietude, de melancolia, de respeito. Só se viam nas ruas roupas pretas. Quem não as tivesse se abstinha de sair. A indumentária para esses dias de dó pela divindade constituía capítulo importante do ritual católico, entrando nele confesse-se, grande dose de vaidade feminina. Mas, onde não se intromete essa vaidade? Se até no crepe da viuvez…

Andava-se devagar, falava-se baixo, poupava-se o riso. Pianos cerrados a chave para um menino traquinas não arrancar de repente notas profanadoras. Não se varria a casa, não se espanavam os móveis, havia até quem não tomasse banho… Bondes sem campainhas, maxambombas apitando pouco. Somente a matraca de hora em hora arrepiando a pele dos cristãos e substituindo os sinos. Quem se rebelasse contra essas atitudes de silêncio e de tristeza era logo tido como judeu.

Lembra-me dos sobrolhos de minha avó e do seu indicador em vertical quando eu, menino, arriscava uma trela ou uma risada. "Nosse Senhor morreu!"… Eu me encolhia todo, mas resmungava contra essa divindade que morria todos os anos para atrapalhar meu direito de brincar.

As consoadas eram igualmente de muito relevo nessa quadra de abstinência, jejuns e sacrifícios. Havia convites de uma família a outra para consoarem em conjunto. Outras, mesmo sem convite, se prometiam:

- Olhe, Marocas, eu vou consoar com você na sexta-feira, ouvir?

- Vá minha negra. Jerônimo vai comprar umas curimãs no viveiro do compadre em Afogados.

– Eu levo o azeite de dendê.

Desde o carnaval se tornara obrigatório o peixe ou o bacalhau nas mesas católicas às quartas e sextas-feiras. E na semana santa era de segunda a sábado. Somente no domingo da ressurreição a carne de boi vinha de novo em cena.

A preocupação das comidas de preceito dava que fazer às donas de casa. Muitas iam pessoalmente aos mercados com os maridos escolher o que melhor lhes conviesse para os manjares dessa quadra de sacrifícios. Apareciam de presentes as curimãs bem gordas e os camorins lustrosos, lembrança de un cliente agradecido, de um compadre amigo, de um candidato a emprego, de um coração qualquer interessado ou grato. Compravam-se as cavalas, as carapebas, os caranguejos, as siobas, os aratus. Tudo servia. Os verdureiros traziam quiabos, bredos, maxixes, jerimuns. Também se disputavam os mariscos apanhados nas croas da praia de Santa Rita, pelas mariantes. Das vendas vinham os camarões secos, as tainhas de lagoa, as latas de doces em calda, as garrafas de Figueira e Moscatel…

Todos se muniam de elementos culinários capazes de compensar à saciedade o jejum da Páscoa.

A pesca dos viveiros constituía um espetáculo animadíssimo, profano, festivo. O viveiro é tipicamente recifense. Como o frevo. Situa-se nos arrabaldes beijados pelos mares. Os seus proprietários zelam durante o ano inteiro pela sua guarda, criam e cevam as curimãs, os camorins, as tainhas para vendê-las por bom preço na semana santa. Na noite de quinta-feira maior faz-se a pescaria. Acorre muita gente levada pela gula, pela curiosidade, pela ambição, pelo folguedo, pela economia. Uns a carro, outros a cavalo, a maioria de bonde ou a pé. Armam-se barraquinhas para vender café, bolos, cerveja, aguardente, frutas. Povo lorde e povo humilde. Todas as classes. Rapazio alegre, mulheres de vida torta, brabos de cacete à mostra, soldados de polícia, peixeiros da Cabanga, compradores em regateio, velhos viciados, meninos vadios… Um luarzinho que sempre se oferece pela Paixão vê muita sujidade de alma nessa noite em que as almas fingem estar limpas com a confissão e a eucaristia. Cousas feiosas e gaiatas perdoadas pelas autoridades e também por Deus. Eles bem conhecem as criaturas humanas.

As redes são atiradas às águas calmas dos viveiros e depois puxadas pelos homens que enfiam s pernas no lodo da vaza ou se mantêm às margens fazendo fincapés. E cativos, lá surdem os peixes misturados com lama, os cevados peixes da predileção do povo, ainda bolindo, ainda protestando contra a prisão. Diante do tamanho, da boniteza, da gordura, grelam-se os olhos e sobem os preços. Há um cheiro vivo de maresia invadindo todaas as narinas e se espalhando pelos arredores.

A pescaria prolonga-se até o dia amanhecer.

Hoje ela já perdeu muito do seu colorido e da sua animação. Todavia ainda é feita com regular concorrência de interessados e de curiosos. E também de pescadores…

Nos lares, cuidava-se dos carurus, das frigideiras, dos molhos de coco, do mingau-pitinga, do vatapá, do bobó, dos bolinhos de arroz, do bacalhau com verduras, do escabeche.

Que mãos tinha, para isso, na nossa casa, a Chica que lá se criara e vivera até casar! Os seus quitutes…

Ia-se depois ver a procissão do Enterro. Desfile sombrio, piedoso, evocador, com irmãos de opas de capuchos, a cruz envolta no sudário, a matraca estalando, as béus de caras tapadas, as lanternas cobertas de panos roxos, o esquife do Senhor Morto carregado pelos padres. Vinha o andor de São João Evangelista apontando para o esquife. O andor de Maria Madalena aflita. O andor de Nossa Senhora chorando. As cabeleiras das imagens balançavam com os movimentos das charolas. A música tocava funeral. O povo ajoelhando-se pelas calçadas… E eu, menino, voltava para casa com a impressão daquele espetáculo triste, comovente, arrepiador.

No outro dia, porém, a tristeza era curta. Eu me lembrava logo do judas. Apareciam sempre alguns pela minha rua, estraçalhados pelos moleques de uns cortiços da vizinhança. E gostava de assistir ao martírio simbólico dos malvados que todos os anos matavam numa cruz o doce Jesus que era tão bom.

De rompante um foguete desgarrado, impaciente, espoucante. Meus ouvidos esperavam pelo resto. Não tardava. Outros foguetes, gurândolas, sinos, repiques. Mais sinos ao longe. Diziam-se em casa da beleza que era a aleluia nas igrejas. Os altares ficando sem os velários roxos, os pombos voando pelas naves, os padres com vestimentas alegres, os cânticos das moças no coro, as ondas de incenso, a claridade do sol… E eu tomava parte nesse júbilo cristão: corria, gritava, rufava o tambor, soprava a corneta, dava ordens de comando, beliscava as amas, bolia com as primas, voltava a ser o encapetado da frase de minha Dindinha.

Os trens apitavam de novo. Os bondes retomavam as campainhas. E o molecório, às voltas com os judas, a berrar:

Aleluia! Aleluia!
Carne no prato
Farinha na cuia…

Novos sinos, novos foguetes, novas músicas.

Meu avô, na sua cadeira de braços, com os seu solhos cegos, fumando o cachimbo, apurava o ouvido, reconhecia os repiques e afirmava:

- Agora é que está rompendo no Aterro da Boa Vista. Indagorinha foi na matriz de São José.


(SETTE, Mário. Maxambombas e maracatus)
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Arrochamento –Aperto, apertar com arrocho.

Atoleimada – Um tanto tola, aparvalhada.

Boleeiro – Cocheiro, que conduz a boléia.

Carola – Beata, muito assídua à igreja.

Consoar – Refeição ligeira que se toma à noite nos dias de jejum.

Curimã – Espécie de tainha da costa do País, próxima da tainha verdadeira, porém menor.

Estiavam – Cessavam, paravam.

Fincapé – Apoio, amparo;Ato de assentar o pé com força, firmeza.

Grelam – Espiam; dar uma olhada.

Laivo – Vestígio, sinal.

Lufa-lufa – Azáfama, grande pressa.

Madapolão- Tecido de algodão branco, entre a chita e o percal.

Marrafa – Mecha de cabelo caída na testa; Cada uma das metades que se divide o cabelo, em certos penteados.

Matinês – Espécie de blusa solta, folgada, que as mulheres outrora usavam em casa.

Opa – Tipo de capa sem manga usada pelas irmandades e confrarias.

Plangente – Lastimoso, triste.

Postigo – Pequena porta que se abre em outra maior.

Relho – Açoite feito de couro torcido.

Sobrolhos – Franzir (ou arquear) as sobrancelhas, manifestar descontentamento, mau humor, severidade.

Tarlatana –Tecido de algodão, muito fino e encorpado, que se usa em forros de vestido.

 

Veja também:

-
Domingo de palmas.

- Devocionário da paixão.

- O testamento de Judas.

- O tempo chegado.

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