QUE TRATA DE
ALGUMAS HABILIDADES E COSTUMES DOS TUPINAMBÁS
São os tupinambás grandes flecheiros, assim para as
aves como para a caça dos porcos, veados e outras alimárias, e há muitos que matam no
mar e nos rios de água doce o peixe à flecha; e desta maneira matam mais peixes que à
linha; os quais não arreceiam arremeter grandes cobras, que matam, e a lagartos que andam
nas águas, tamanhos como eles, que tomam vivos a braços.
Costumam mais estes índios que são homens enxutos, mui
ligeiros para saltar e trepar, grandes corredores e extremados marinheiros, como os metem
nos barcos e navios, onde com todo o tempo ninguém toma as velas como eles; e são
grandes remadores, assim nas suas canoas, que fazem de um só pau, que remam em pé vinte
e trinta índios, com o que as fazem voar; são também muito engenhosos para tomarem
quanto lhes ensinam os brancos, como não for coisa de conta, nem de sentido, porque são
para isso muito bárbaros; mas para carpinteiro de machado serradores, oleiros, carreiros,
e para todos os ofícios de engenho de açúcar, têm grande destinto, para saberem logo
estes ofícios; e para criarem vacas têm grande mão e cuidado. Têm estes tupinambás
uma condição muito boa para frades franciscanos, porque o seu fato, e quanto têm, é
comum a todos os da sua casa que querem usar dele; assim das ferramentas, que é o que
mais estimam, como das suas roupas, se as têm, e de seu mantimento; os quais, quando
estão comendo, pode comer com eles quem quiser, ainda que seja contrário, sem lho
impedirem nem fazer por isso carranca.
Também as moças deste gentio que se criam e doutrinam
com as mulheres portuguesas, tomam muito bem o cozer e lavar, e fazem todas as obras de
agulha que lhes ensinam, para o que têm muita habilidade, e para fazerem coisas doces, e
fazem-se extremadas cozinheiras mas são muito namoradas e amigas de terem amores com
homens brancos.
São os tupinambás grandes nadadores e
mergulhadores, e quando lhes releva, nadam três e quatro léguas; e são tais quais que,
se de noite não têm com que pescar, se deitam na água e como sentem o peixe consigo, o
tomam às mãos de mergulhos, e da mesma maneira tiram polvos e lagostins das concavidades
do fundo do mar, ao longo da costa.
QUE TRATA DE GRANDE CONHECIMENTO
QUE
OS TUPINAMBÁS TÊM DA TERRA.
Têm os tupinambás grande conhecimento da terra por onde
andam, pondo o rosto no sol por onde se governam; com o que atinam grandes caminhos pelo
deserto, por onde nunca andaram; como se verá pelo o que aconteceu na Bahia, de onde
mandaram dois índios destes tupinambás degredados pela justiça por seus delitos, para o
Rio de janeiro, onde foram levados por mar; os quais se vieram de lá, cada um por sua
vez, fugidos, afastando-se sempre do povoado por não ser sentidos por seus contrários; e
vinham sempre caminhando pelos matos; e desta maneira atinaram com a Bahia, e chegaram à
sua aldeia, de onde eram naturais a salvamento, sendo caminho mais de trezentas léguas.
Costuma este gentio, quando anda pelo mato sem saber
novas do lugar povoado, deitar-se no chão e cheirar o ar, para ver se lhe cheira a fogo,
o qual conhecem pelo faro a mais de meia légua segundo a informação de quem com eles
trata mui familiarmente; e como lhe cheira a fogo, se sobem às mais altas árvores que
acham, em busca de fumo, o que alcançam com a vista de mui longe, o qual vão seguindo,
se lhes vêm bem ir aonde ele está; e se lhes convém desviar-se dele; o fazem antes que
sejam sentidos; e por os tupinambás terem este conhecimento da terra e do fogo se faz
muita conta deles, quando se oferecem irem os portugueses a guerra a qualquer parte, onde
os tupinambás vão sempre adiante, correndo a terra por serem de recado, mostrando à
mais gente o caminho por onde hão de caminhar, e o lugar onde se hão de aposentar cada
noite.
(SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587) |

Veja também:
- Colóquio de
entrada ou chegada ao Brasil |