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Fio inspirado em desenho de muiraquitã.
O COMBOEIRO

A crônica dos sertões nordestinos é unânime em proclamar o valor e as virtudes do sertanejo, esquecendo-se, entretanto, desse anônimo desbravador dos primeiros caminhos - o comboeiro.

Tentaremos, porém, aqui, descrevê-lo tal qual o vimos nos primeiros balbucios da nossa infância, cavalgando mulos lerdos e pachorrentos, tangendo comboios numerosos, em demanda das salinas do litoral ou dos armazéns apinhados de mercadorias e algodão.

- Toca os burro, menino! – diz seu Malaquias, já montado na sua burra de sela.

Desce o comboio, ora de vagar, ora de chouto, naquela bateria enorme de chocalhos

Dentro de sacos e de campainhas tilintando na cabeça das "guias"...

Ali, acolá, o gurinhém estala com força acompanhado de um assobio longo e fino que só canto de cigarra ao meio-dia em ponto.

E o poeiriço vai ficando para trás, deixando uma nódoa cinzenta no ar. Os comboieiros vão montados nos seus burros seleiros, com a camisa de brim grosso listrado por fora das calças, um bom par de alpargatas nos pés, um guarda-peito de couro cortido, na frente, amarrado à cintura, uma bruaca enfeitada de florões de prata, ao lado, onde guardam o dinheiro e o fumo, uma grande faca de ponta, no quarto, entrançada com a pistola de dois canos, chapéu de couro ou de massa, coberto de pano, sem falar no cachimbo ou no cigarro feito com mortalhas de papel compradas nas vendas.

Esse o traje original e simples do comboieiro nortista que aos nossos olhos de infância tinha a cor misteriosa dos vultos lendários da Idade Média ou antiga.

Durante as travessias longas, há as horas de descanso ou de pouso, como é natural a esses viajores destemidos do deserto.

É meio-dia. A soalheira inclemente começa a fatigar os animais da tropa. Apressam a marcha para alcançar a fazenda ou o bebedouro próximo. Transporta a distância, arreiam as cargas ou os surrões de couro, secos, com as cangalhas. Enchocalham os animais e vão à cacimba dar água e lavar a tropa.

Feito isto seguem ao peadouro onde botam a pastar os animais da tropa, enquanto quebra o olho do sol. Nesse intervalo que medeia entre uma e duas horas fazem o rancho. Á sombra de um ramalhudo juazeiro ou de alguma quixabeira centenária que lhes serve de abrigo nas horas calcinantes do meio dia ou nas horas frescas da noite, se acocoram todos e ali come, à boca dos sacos de algodão das Bahia a saborosa carne de carneiro gordo com rapadura e farinha seca.

Depois de saboroso rancho sertanejo, feito na melhor camaradagem entre conversas do mais sadio humor regional, servem-se da água que conduzem nas "borrachas" de couro curtido, presas às ancas das burras cargueiras.

Há uma hora de silêncio e de recolhimento em que todos descansam deitados nas grandes esteiras de carnaúba, nas lonas, por cima dos surrões de couro visto não ser a hora própria para a rede.

Nesse ínterim a burra da guia, sem–vergonha e saudosa dos campos de origem, vai fugindo do peadouro badalando o chocalho grande e levando atrás de si o comboio quase todo.

- Diabo daquela burra sem-vergonha vai fugindo, levando a tropa quage toda!

- Ô Reimundo!

- In-o..

- Vai ataiá a burra de guia que vai fugindo com os otro burro! Disse seu Malaquias esfregando os olhos quase fechados... E derreou-se de novo por cima da esteira, pegando uma madornazinha.

Logo depois cai o nordeste e recomeça a luta. É a hora do milho. Vão dois ou três buscar os animais e os outro ficam botando milho nas mochilas. É tudo num "rupé". A burra da sela quando vê seu Malaquias, levantando o cabo do gurinhém para bater na cabeça da burra. Beleza recua, cabeça alevantada, voltando logo depois para perto do seu dono.

Malaquias bota-lhe a mochila na cabeça passando-lhe em seguida a mão sobre o lombo e alisando o cabelo.

- Prá colá outro comboieiro grita zangado com outro animal e assim até botarem todas as mochilas nas cabeças dos burros.

Depois vai tudo se aquietar procurando cada qual o seu lugar e comer sossegado. E os comboieiros nem bem os animais acabam já vão encagalhando tudo, botando os surrões em cima para viajar. Terminado o milho, estão de marcha. Todos os chocalhos são arrolhados com capim rabo de raposa panasco ou com folhas de marmeleiro para não fazerem zoada pelos caminhos. Começa a marcha para só descansarem à noite, ora nas grandes fazendas, que marginam as estradas, ora nos descampados tenebrosos, tendo por abrigo os galhos ramalhudos das quixabeiras solitárias. É quando a cena se repete com as mesmas cores da primeira.

Era um acontecimento sempre novo, na vida dos povoados sertanejos, a chegada de um comboio. Quando este entrava numa vila ou povoação antes de botas abaixo fazia primeiro um bocado de manobras pelo meio da rua para mostrar que a tropa era ensinada.

A casa do pouso era ponto de confluência para o povo do lugar. Quando chegava um comboio eram muitos os que iam ver, pedir notícias do sertão, dos parentes e amigos, se tinham, do inverno, comprar queijo, carne gorda do sertão e tudo mais que servia de novidade para quem vivia ali, só preocupado com os labores do campo, separado do mundo, sem estradas e sem meios de transporte além do carro de boi, do comboio e do cavalo de sela.

O comboieiro era o traço de união entre a várzea e o sertão, entre as serras e as salinas. Ainda mais: - era o correio, o telégrafo, o mensageiro predileto de amigos e patrões. O intermediário valoroso das nossas transações comercias. Fator indispensável no progresso das cidades sertanejas.

(MELO, Manuel Rodrigues de. Várzea do Açu, Paisagens, tipos e costumes do Vale do Açu.)

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